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Paulo Diniz

Transportes: o calcanhar de aquiles do Brasil no século XXI

sdf
Foto: Duke
PUBLICADO EM 12/06/18 - 03h00

O poder dos motoristas de caminhão para parar o Brasil deriva de uma questão logística: são eles os responsáveis por transportar quase a totalidade dos itens necessários para a vida urbana. Porém, o apoio que essa classe profissional recebeu de mais de 70% da população nacional não foi um fator tão óbvio assim: foi esse o elemento responsável por transformar uma crise logística em um evento político. Por essa característica, é possível pensar em uma comparação entre o ocorrido em maio de 2018 e as manifestações de junho de 2013.

Um ponto em comum a várias análises que procuraram sentido nos eventos de 2013 é a afirmação de que tais protestos não tinham um sentido concreto, mas apenas pretendiam extravasar as frustrações coletivas acumuladas pelos brasileiros há muitos anos. De acordo com essa leitura da realidade nacional, portanto, o aumento de preços das passagens de ônibus foi apenas um estopim para a revolta brasileira. Essa interpretação dos fatos, entretanto, merece ser questionada, especialmente sob a luz da recente greve dos caminhoneiros. Afinal, seria coincidência que outra comoção social de amplitude nacional tenha se desenvolvido também em torno dos transportes?

É fato que a demanda dos caminhoneiros derivou de uma queixa corporativista. Mas não foi assim que a população interpretou o caso durante boa parte do tempo. Via de regra, o apoio da maioria dos brasileiros à greve partiu da compreensão de que não apenas o governo estava sendo confrontado, como o conflito se dava em torno de algo que todos compreendem: o alto preço dos combustíveis. Tendo tocado nesse tema especial da mobilidade, os caminhoneiros foram rapidamente alçados ao posto de heróis populares.

É interessante destacar, a partir desse contraste entre as motivações que levaram aos eventos de 2013 e as de 2018, que é possível que tenhamos encontrado o ponto mais sensível da população brasileira, aquele limite além do qual a tolerância já não exerce influência sobre a sociedade como um todo, e esta se torna propensa a abraçar o radicalismo. Assim, é curioso pensar o quanto sofre a população nacional a partir da falta de segurança pública e de uma estrutura de saúde adequada, sem que esses temas levem os brasileiros a se rebelar como ocorre quando o transporte está em pauta. Esse poder, de inflamar os ânimos das multidões, ao que tudo indica, são as políticas de transporte que detêm.

Por que o povo brasileiro valorizaria, acima de tantas outras coisas, sua capacidade de se locomover livremente de um lugar ao outro? Essa questão, que poderia ocupar sociólogos pela próxima década inteira, merece respostas desde já – mesmo que ainda bastante hipotéticas. É fato que os fenômenos de urbanização e metropolização da população brasileira, relativamente recentes, desempenham um papel nessa temática: afinal, morando em cidades cada vez maiores e mais caóticas, os brasileiros tiveram que se preocupar cada vez mais com seus processos de locomoção diária. A difícil circulação em nossas enormes conurbações metropolitanas nos tornou, como agora se vê, muito sensíveis a situações que possam atrapalhar mais ainda nossos deslocamentos.

Insensíveis a tais mudanças na vida e nos valores que dominam o dia a dia dos brasileiros, Dilma e Temer não souberam reagir aos desafios que lhes foram impostos em 2013 e 2018, respectivamente. Que sirva de lição para os atuais pré-candidatos que o Brasil quer movimento.

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