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Paulo Paiva

Desintegração ou integração?

PUBLICADO EM 29/03/19 - 03h00

No palco da arena política os atores em cantos opostos parecem passar os seus textos antes do início da peça. Se bem ouvimos, de um lado, identificamos um drama de época passado no tempo do Império. O imperador, seus filhos, a corte reverenciando a família real, e até um Rasputin tropical tem papel relevante. Do outro lado, outros atores parecem encenar uma tragédia atual, o semiparlamentarismo dos tempos recentes, na versão Temer do presidencialismo de coalizão da era petista.

Não quero discutir os atores, mas os papéis que estão desempenhando no teatro da vida política em um país tropical e em tempos mutantes, afetada fortemente pelas transformações sociais e tecnológicas disruptivas que colocam em xeque, para o bem ou para o mal, padrões econômicos, culturais e políticos que foram predominantes até o final do século passado.

No âmbito político, a crise da democracia representativa se espalhou mundo afora quando os partidos deixaram de responder às demandas da sociedade, presos às amarras ideológicas de suas origens, sem se adaptarem às mudanças de costumes que romperam classes sociais, abalaram convicções religiosas e exigiram novas posturas políticas diante das desigualdades e da diversidade crescente. Demandas que foram reconhecidas por instituições democráticas, como a Declaração Universal dos Diretos Humanos da ONU e a Constituição brasileira de 1988. Velhos partidos se desintegraram, e novos vão surgindo, lá e cá.

A revolução tecnológica está criando novos meios de comunicação, integrando as pessoas. A era digital trouxe a informação em tempo real; pôs todo mundo em contato permanente sem a intermediação da mídia convencional; e contribuiu decisivamente para o aprofundamento da crise da democracia representativa. Os políticos passaram a se comunicar com os eleitores diretamente. Os parlamentares, a ouvir seus seguidores nas redes sociais e não seguir a orientação dos seus partidos. Presidente e governadores conectam-se com o povo diretamente via Twitter. Se é responsável pela integração das pessoas, a era digital é também fator decisivo na desintegração das velhas práticas políticas.

Para uma avaliação mais precisa dos embates na arena política, é necessário entender o tempo em mutação. O Parlamento busca preservar seu poder constituído na democracia representativa e fortalecido no Brasil na Carta de 1988, concebida para um regime parlamentarista que não veio. O Executivo exerce uma nova forma de democracia direta buscando apoio nas tribos das redes sociais, confundindo interesses corporativos ou ideias comuns com opinião pública.

Até concluída a transição para um novo tempo, que não se sabe exatamente qual será, vale o alerta na tão citada observação de Gramsci de que a crise persiste enquanto o velho está agonizando e o novo ainda não nasceu.

Moderação, racionalidade e tolerância são ingredientes fundamentais para evitar a desintegração.

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