Ao vivo
Show de Esporte da Super
Hércules Santos, Rômulo Fegalli, Leandro Cabido, Jorge Luiz e Roberto Abras
Recuperar Senha
Fechar
Entrar

Paulo Paiva

Prelúdio da sinfonia Ode ao Bolsonarismo

Jair Bolsonaro, presidente
Jair Bolsonaro, presidente | Foto: Evaristo Sá/AFP
PUBLICADO EM 26/04/19 - 03h00

Aprovada a admissibilidade da reforma da Previdência, concluiu-se o primeiro ciclo do novo governo. O que virá depois ainda está por vir, ninguém ousa prever.

Construída na campanha, a aliança do conservadorismo de costumes com atitudes agressivas contra a esquerda e contra a atividade política, que se somou a uma paixão nova pelo liberalismo, inspiraria a elaboração da sinfonia do bolsonarismo?

Foi a tensão entre liberalismo e nacionalismo que marcou o primeiro movimento acabado da sinfonia em construção; isto é, que marcou o prelúdio da Ode ao Bolsonarismo.

A peça começou desvendando o domínio do liberalismo tocado pelos violinos sob o comando do spalla, Paulo Guedes, acompanhados das outras cordas e madeiras em perfeita harmonia. Foi a introdução de um poema sinfônico moderno proclamando a liberdade. A melodia comemorou a libertação da economia das garras do Estado e a liberdade dos indivíduos e prometeu um mundo novo, de prosperidade, igualdade e oportunidades para todos. Evocou o universalismo e a paz entre os povos.

Em seguida, as cordas deram lugar aos metais, que entraram com grande intensidade, acompanhados da percussão em um andamento de euforia representando a reconquista da terra natal. A música atonal, anárquica aos ouvidos não treinados, reviveu a influência da escola nacionalista do início de século XIX. Reviveu os sentimentos da província e da cultura nativa em oposição ao universalismo tocado pelas cordas. Quando celebravam o retorno às raízes nacionais e ao conservadorismo, de súbito, os metais e a percussão pararam, deixando a tradução da Ave-Maria em Tupã, feita pelo padre José Anchieta, ser ouvida do fundo da orquestra, na voz do tenor Ernesto Araújo: “Anuê Jaci, etinisemba-ê/ Indê irú manunhê/ Yara rekô embobeuká tupirã/ Rekôku ya subí/ Embobeuká tupirabê/ Ngê membyrá Tupã”.

Na execução do prelúdio, o piano tocaria a parte principal da sinfonia na invocação da educação como a energia do povo para a formação da pátria amada, do Brasil acima de tudo e Deus acima de todos, das escolas sem ideologias, onde os meninos vestiriam azul e as meninas, rosa.

No entanto, o caos irrompeu no palco. O pianista tresloucado, Ricardo Vélez, estava jogando suas partituras para o alto. Uma, outra, outra mais... O maestro perplexo deixou o seu pódio e o retirou bruscamente de seu posto. Sem hesitar, buscou nos camarins outro músico para continuar o prelúdio da sinfonia, que deveria seguir na busca do equilíbrio melódico entre as cordas, as madeiras e os metais.

Mas, de repente, o maestro interrompeu os violinos e sinalizou para a volta da percussão e dos metais em som fortíssimo, homenageando o nacionalismo e a autoridade do Estado. Então, o maestro introduziu a grand finale, com o tenor bradando “o petróleo é nosso”. Com fortes acordes, os metais e a percussão encerraram o prelúdio.

Aguardem os próximos movimentos do bolsonarismo.

comentários (1)

Enviar Comentário

Li e aceito os termos de utilização

ATENÇÃO

Cadastre-se para poder comentar