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Paulo R. Haddad

A crise ambiental e a ‘tragédia dos bens comuns’ no século XXI

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Foto: Duke
PUBLICADO EM 08/06/18 - 03h00

A sociedade brasileira continua subestimando a gravidade da crise ambiental no país e no mundo. O primeiro sinal de alerta, em termos científicos, sobre a profundidade dessa crise veio do Clube de Roma, uma associação de formadores de opinião que visavam discutir questões do meio ambiente e do desenvolvimento sustentável. No início dos anos 70, publicou o famoso relatório sobre os limites do crescimento da humanidade. Esse documento, baseado em informações quantitativas e projeções, afirma que, pressupondo que não houvesse mudanças significativas no atual sistema capitalista, o crescimento da população e da produção industrial iria se paralisar no século XXI. Esse crescimento pífio ou nulo no longo prazo ocorreria em virtude da crise ecológica provocada pelos atuais padrões de consumo, de produção e de acumulação de capital da humanidade.

Estudo recente da FEA/USP procurou avaliar como os impactos das mudanças climáticas sobre os recursos hídricos podem afetar a capacidade de crescimento econômico do Brasil ou de algumas de suas regiões no longo prazo. Os impactos da crise hídrica ocorreriam por meio de processos drásticos de racionamento de energia elétrica, de instabilidade no fornecimento de água nos grandes centros urbanos para consumo industrial ou humano, de descontinuidades nos processos de irrigação agrícola etc. Esses impactos adversos definem limites do PIB potencial de um país ou de uma região, ou seja, sua capacidade para gerar renda e emprego.

Segundo o estudo, os resultados são alarmantes para algumas bacias hidrográficas, especialmente para o Nordeste. Nas bacias das partes ocidentais do Nordeste e nas bacias do Atlântico Ocidental, uma redução nos fluxos é estimada para o ano de 2100 aproximadamente, e os valores resultantes dos fluxos são próximos de zero em qualquer dos cenários construídos. A oferta de águas de superfície para todas as regiões do Brasil indica tendências declinantes, com substancial diminuição dos excedentes de águas.

Como esses impactos se darão no longo prazo, os brasileiros tendem a considerá-los de menor prioridade socioeconômica, pois, afinal, “no longo prazo, não estaremos todos mortos?” O biólogo Garrett Hardin criou a expressão “tragédia dos comuns” (ou “tragédia dos bens comuns”) para designar uma situação em que os indivíduos, agindo de forma independente e racionalmente, de acordo com seus próprios interesses, se comportam contrariamente aos anseios da sociedade, esgotando algum recurso ou bem comum (uma bacia hidrográfica, uma floresta prístina, a biodiversidade de um ecossistema etc.). A hipótese levantada pela tragédia dos comuns afirma que o livre acesso e a demanda irrestrita de um recurso finito e de oferta limitada acabam por condenar estruturalmente o recurso por conta de sua sobre-exploração.

A lógica do interesse individualista é simples: as coisas que são inúteis são deixadas de lado; as coisas que são úteis, mas têm uma oferta maior do que sua demanda, não são bens econômicos, podendo ser tratadas como bens livres e levar à tragédia dos comuns; as coisas que são úteis, mas escassas (demanda maior que oferta), são bens econômicos e devem ser utilizadas com a racionalidade dos mercados ou com a racionalidade do comando e controle do poder público.

Keynes, o maior pensador econômico do século XX, dizia, de forma pejorativa, desconhecer o que torna o homem mais conservador: não saber nada, mas apenas o presente, ou não saber nada, mas apenas o passado. Assim, se não olharmos para o futuro para projetar o que estamos fazendo com a natureza, deixaremos para nossos netos e bisnetos um mundo sujo, feio, repugnante e propenso a guerras locais pela disputa dos recursos ambientais criticamente escassos. 

 

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