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Paulo R. Haddad

O risco de um novo mergulho recessivo na economia brasileira

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PUBLICADO EM 11/05/18 - 03h00

Os primeiros resultados do crescimento da economia brasileira neste início de 2018 são, efetivamente, inexpressivos face à dimensão dos sacrifícios a que a população foi submetida nos dois últimos anos, em termos de desemprego e de queda no padrão de vida. Coloca-se em questão, assim, o marketing político de que a atual administração é um caso de sucesso no campo econômico.

O crescimento econômico foi praticamente nulo no primeiro trimestre do ano, a taxa de desemprego ainda é dramática e o espaço das incertezas se ampliou por causa das indefinições no ambiente político e dos impactos adversos do crescente processo de protecionismo econômico da administração Trump.

Os economistas são ardilosos para justificar e racionalizar seus erros de análise e de previsão sobre o futuro da conjuntura econômica. Utilizam, sem cerimônia e sem rigor técnico, a teoria das expectativas racionais para alegar que o crescimento demora a chegar porque a crise foi profunda e ainda não se conseguiu promover a reversão das expectativas de quem investe, de quem produz e de quem consome.

Expectativa racional é, em economia, um conceito inovador e analiticamente poderoso para predizer eventos portadores de mudanças na realidade econômica. Mas pode também se transfigurar em conceito abstrato, não mensurável, propenso às armadilhas intelectuais e útil para racionalizar argumentos ad hoc para explicar equívocos imanentes da política econômica.

Os economistas adotam também, como comunicação social, atribuir à inépcia da classe política os atrasos e os percalços na implementação do programa de equilíbrio fiscal com expansão econômica. Afirmam que há um descompasso entre o tempo das decisões econômicas e o tempo das decisões políticas que aumenta o custo de oportunidade social da política econômica em torno do desemprego, da falta de investimentos e da concentração da renda e riqueza.

Ocorre, porém, que o tempo da política é mais acelerado, menos flexível, menos tolerante e mais propenso a rupturas e descontinuidades. Uma população altamente mobilizada pelas práticas recentes de ação coletiva, que vivenciou pelo menos uma década de progresso social com melhorias inquestionáveis na distribuição de renda, não está disposta a se conformar com seu empobrecimento e com sua decadência econômica e social. Particularmente, quando assiste à concentração da riqueza financeira induzida por medidas de austeridade socialmente assimétricas e pelo descortinamento de práticas inusitadas de corrupção sobre os recursos públicos.

Não se pode, pois, excluir o risco de uma nova, ainda que suave, recessão no país, tendo por origem a lenta cadência do Banco Central em promover a reestruturação do atual sistema financeiro através de ações reformistas contundentes que quebrem o oligopólio dos grandes bancos, que estimulem a concorrência no setor, que reduzam as margens de rentabilidade dos rentistas e que evitem a captura política de uma instituição que cuida do interesse público por outras instituições que cuidam diuturnamente da especulação financeira.

Enfim, a herança da crise passada está depositada no sistema financeiro. Esse sistema tem operado veladamente num cenário em que as experiências passadas formatam suas decisões sobre o presente e o futuro. Enquanto isso contribui para o desequilíbrio patrimonial de empresas e famílias, que se veem endividadas a taxas nominais de juros que constituem uma aberração numa economia com um bem-sucedido processo de desinflação e uma inequívoca restrição à retomada do crescimento econômico. As sementes de uma futura instabilidade econômica podem estar, pois, plantadas no sistema financeiro. Como afirmaria Gramsci, essa crise poderá emergir se o velho sistema financeiro não morreu e o novo ainda não nasceu.

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