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Paulo R. Haddad

Post hoc ergo propter hoc

PUBLICADO EM 20/05/19 - 03h00

No início da estação da primavera, um feiticeiro veste o seu manto inteiramente na cor verde. As árvores crescem, as flores brotam, e as paisagens se cobrem de um verde exuberante. Muitos passam a acreditar que ocorreu uma transformação do ambiente porque o feiticeiro vestiu seu manto. Uma falácia causal que a lógica formal denomina em latim de “post hoc ergo propter hoc” (“depois disso, logo causado por isso”). Essa falácia lógica é também denominada de “correlação coincidente”, que consiste na ideia de que dois eventos que ocorram em sequência cronológica estão necessariamente interligados através de uma relação de causa e efeito.

A atual política econômica baseia-se num modelo de austeridade fiscal, o qual pressupõe que a condição necessária e suficiente para que haja um processo de retomada do crescimento econômico no Brasil seja o reordenamento das finanças públicas nos três níveis de governo. E que esse reordenamento se processará através de ajustes e reformas, sendo a reforma da Previdência o nó górdio da questão.

Entretanto, experiências recentes que vêm sendo realizadas com o modelo de austeridade, particularmente em países da União Europeia, mostram que, se o reequilíbrio fiscal é absolutamente indispensável para criar uma expectativa favorável ao crescimento econômico no sentido de favorecer a redução das taxas de juros e abrir espaço para os investimentos privados nos mercados financeiros, esse reequilíbrio pode não ser suficiente para a cronologia do crescimento.

O cientista político Mark Blyth analisou as ideias e experiências das políticas de austeridade desde 1692, a partir das obras de John Locke, até os dias de hoje. E suas conclusões são as de que a austeridade fiscal não é uma política adequada para ser implementada em vários contextos. Não é adequada quando as taxas de juros estão próximas de zero e as taxas de crescimento e de desemprego não reagem às mudanças na política monetária. Não é adequada quando o conjunto das economias mais desenvolvidas está deprimido, não deixando espaço para as exportações das economias periféricas menos desenvolvidas. Não é adequada para países membros de uma União Monetária que não podem substituir autonomamente a insuficiência da demanda interna pela demanda externa, através da desvalorização monetária.

Destaca-se a questão da tempística nas soluções da crise, ou seja, a definição de critérios que possibilitem executá-las no tempo ideal, com os melhores resultados possíveis. Intuitivamente, podem-se destacar três parâmetros básicos de uma abordagem tempística presentes na nossa economia. São eles: uma sequência longa e dolorosa, típica de reformas político-institucionais que envolvem graves conflitos de interesse; uma cadência imprevisível, típica dos ambientes de quebra de confiabilidade; e uma intensidade duvidosa, pela dificuldade de mobilização de atores e instituições com diferentes estágios de evolução.

Enfim, como o reordenamento fiscal é um processo muito longo, intermitente, recessivo e desalentador, o tempo ideal para a retomada do crescimento econômico é uma incógnita do problema, e a austeridade é parte do problema. Sem esquecer de que o galo canta antes do nascer do sol, mas o sol não nasce porque o galo canta.

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