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Roberto Andrés

Democracia?

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Cartaz de manifestação de junho de 2013 | Foto: O Tempo
PUBLICADO EM 25/10/18 - 02h00

A democracia brasileira chega à crise dos trinta anos. Nessa idade, as pessoas começam a perceber que a juventude ficou para trás. O sonho de futuro se depara com as agruras da realidade, tropeça nas pedras no meio do caminho.

O Brasil vive algo assim. Os sonhos de um Brasil grande se esfarelaram em um presente de desemprego e violência. Os vícios do sistema político parecem insuperáveis e insuportáveis.

Passamos da fase da indignação para uma profunda descrença. Muitos têm a sensação de que tudo que está aí precisa virar do avesso. Mas virar do avesso para colocar o quê no lugar?

O problema é que as crises oferecem terreno fértil para as falsas soluções. Sabe aquela pessoa que, deprimida, se afunda em bebidas e drogas, perde os amigos, a família e acaba sozinha na pior? Uma falsa solução desse tipo se apresenta para o Brasil.

O primeiro passo para enfrentar a crise é sair da fase depressiva. Olhar com discernimento para o passado, para as coisas boas e ruins, ajuda muito.

A minha geração veio ao mundo no final da ditadura militar. Não conheço quem tenha saudades daquele período. Muitos conviviam com a dor dos parentes desaparecidos. A economia era um caos e a inflação batia em mil por cento ao ano. Os salários desapareciam no meio do mês.

Os últimos trinta anos, com todos os seus defeitos, foram os melhores que o país conseguiu produzir. A expectativa de vida média do povo brasileiro passou de 64 para 75 anos. A dívida externa, que os militares tinham deixado em mais de 100 bilhões de dólares, hoje é menos de 40.

O Brasil reduziu a taxa de analfabetismo de 18,5% para 7%. Os domicílios ligados a rede de água e esgoto passaram de 70% para 85%. Nossa economia foi estabilizada, hoje a inflação é ínfima em relação aos anos 1980.

Há quem associe os militares a ordem. Não há nada mais errado quando se trata de política. O último regime conduzido pelos militares no Brasil é melhor caracterizado pelo que o jornalista Elio Gaspari chama de “anarquia militar”: uma sucessão de golpes internos em busca do poder, depois que as regras democráticas foram deixadas para trás.

Em seu discurso de posse como presidente após o golpe de 1964, o general Castello Branco prometeu “entregar, ao iniciar-se o ano de 1966, ao meu sucessor legitimamente eleito pelo povo em eleições livres, uma nação coesa”. Entregou, em 1967, um país em caos a um sucessor eleito por menos de trezentas pessoas.

Assim seguiram-se as décadas seguintes, com um general emparedando outro para tomar o poder, com direitos humanos sendo violados, gerando instabilidade e caos que resultou em grande depressão econômica. Quem quiser saber mais dessa história, pode ler os quatro tomos de “As ilusões armadas”, que Gaspari levou vinte anos em pesquisas para escrever.

Hoje, o risco de uma recaída autoritária está aí: ameaçam jornalistas, falam em fechar o Supremo Tribunal Federal, em dissolver o congresso, em metralhar opositores, em acabar com ONGs, em autogolpes e outras quarteladas.

Olhamos para países como Hungria, Turquia, Filipinas e Venezuela e vemos essas profecias realizadas. Ditaduras podem ser de esquerda ou de direita. Os candidatos autoritários são o ponto comum entre elas.

Mas a crise dos trinta anos pode passar. Se conseguirmos superar esta fase, podemos dar um passo importante. Quem nunca viveu uma superação, em que se sentiu melhor e mais maduro depois do período difícil?

O primeiro passo é ficar longe das drogas pesadas, que são as falsas soluções autoritárias. O segundo, entender que as coisas levam tempo para mudar.

Precisamos atacar a corrupção, mas isso não vai ser a bala, como mostrei na última coluna. Precisamos melhorar a segurança pública, mas o armamento da população leva ao aumento dos homicídios e da criminalidade.

Precisamos de uma democracia que funcione mais, e não menos. Que cada um de nós tenha voz. Que as instituições possam funcionar e fiscalizar os governantes. Que o Ministério Público seja livre para investigar. Que a imprensa seja livre para fazer seu trabalho.

Nada disso é possível em regimes autoritários. Aliás, a história ensina que o autoritarismo é o sonho dourado dos corruptos e oportunistas.

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