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Sandra Starling

'Filhos? Melhor não tê-los'

PUBLICADO EM 20/02/19 - 03h00

São três garotos saradões. Desde cedo metidos a políticos, no vácuo do pai. Adoram meter bronca. Aprenderam em casa a desafiar instituições e a elogiar milícias. O quarto ainda está esquentando os motores. Prefere dedicar-se aos jogos de videogame em que metralhadoras disparam centenas de tiros por segundo. Qualquer um que ainda esteja tomado pela sensatez e que acompanhe as, digamos, traquinagens dos filhos do capitão, certamente, se lembrará dos versos de Vinicius de Moraes: “Filhos são o demo/ Melhor não tê-los...”

Mas há filhos e filhos. Além dos garotos do capitão, outros estiveram em destaque, por outras razões, nos últimos dias. Pouco antes de escrever estas linhas, havia lido que um bebê e outras duas crianças morreram soterrados, no último sábado, em um desabamento em Mauá, na Grande São Paulo. Quantas vezes soubemos de deslizamentos ou incêndios que puseram fim à vida de irmãos, às vezes gêmeos?

Na véspera, um troglodita, mesmo advertido por várias pessoas de que já se excedera na imobilização de um jovem que seria, dali a pouco, internado em uma clínica de recuperação, só respondia: “Cala essa boca, porra!”. A mãe, que a tudo assistira, ainda não reuniu forças para prestar depoimento na delegacia de polícia sobre a morte estúpida do filho. Em uma favela na região de Santa Teresa, no Rio, 13 ou 14 jovens foram, de acordo com a política do abate legitimada pelas urnas, simplesmente chacinados depois de rendidos. A mãe de um deles declarou que seu filho era traficante, mas que teria direito a um julgamento e a ser punido, na forma da lei. Não teve: foi morto por um agente do Estado que alegará excludente de ilicitude motivada “por medo, surpresa ou forte emoção”. E, se punido fosse, na forma da lei, o que o Estado lhes proporcionaria para que a lei fosse cumprida no sentido de ressocializar ditos delinquentes? Gente de bem que somos, somos também objetivos: melhor o “fast track” de bandido bom é bandido morto. A não ser que seja o bandido nosso, dirá algum miliciano bem-relacionado.

Dez filhos foram ceifados pelo fogo que tudo lambia no Ninho do Urubu. Quem consolará as mães? Quem responderá por tamanha falta de cuidado?

Em meio a tudo isso, é revelado que a ministra que, no governo federal, deveria lidar com assuntos de família havia recomendado aos pais de meninas fugir deste país.

Difícil. Somos um povo que desdenha de seus filhos e filhas, de seus jovens, de seu futuro. Um futuro que poderia ser de igualdade, liberdade e solidariedade. Preferimos tomar o rumo da distopia. “Desta Terra Nada Vai Sobrar, a Não Ser o Vento que Sopra sobre Ela” é o nome do último livro de Ignácio de Loyola Brandão. O título já diz tudo.

No domingo passado, foi veiculado pelas redes sociais o desenho de Ana Clara Ferreira da Silva, de 7 anos, moradora de Brumadinho, no qual, em meio a um mar de lama, lê-se o clamor de uma filha: “Bombeiro, acha o meu pai”. Paro por aqui.

“Filhos?/ Melhor não tê-los/ Mas se não os temos/ Como sabê-lo?”

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