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Sandra Starling

Matar o elefante é fácil, difícil é remover o cadáver

PUBLICADO EM 09/01/19 - 03h00

Quando o novo governador do Estado do Rio de Janeiro declarou que, doravante, frente a um sujeito que, supostamente, esteja a portar um fuzil, “a polícia vai mirar na cabecinha e... fogo”, resolvi refletir sobre possíveis desdobramentos dessa tática de profilaxia social, que foca em mandar o “elemento” para o cemitério “na horizontal” (expressão de seu colega de São Paulo, João Doria).

Vamos, então, direto ao manual de tiro ao alvo, ou melhor, ao protocolo de uso de armas de fogo de Wilson Witzel. Deixemos de lado a hipótese de erro de avaliação, já que, segundo o governador, um drone ou um sniper posicionado em um helicóptero sempre saberão distinguir um fuzil de outro artefato qualquer. Não sei dizer se diferenciaria o temível fuzil de uma arma de brinquedo, paintball ou, quando muito, uma espingarda de ar comprimido. Mas, como diria Parreira, isso é “um mero detalhe”. Como “mero detalhe” seria também, por alguma razão, fulminar, involuntariamente, um inocente. Efeito colateral?

Outros aspectos aguçam a minha curiosidade. Se há, a priori, uma clara opção pelo abate a partir do espaço aéreo, esse expediente evidencia a inviabilidade da alternativa de ocupação do território, certo? Disso surgem questões intrigantes. Se o dito meliante tiver sido, efetivamente, abatido, como o rabecão da Polícia Civil fará para recolher um corpo estendido num cafofo no alto de um morro carioca, sendo obviamente temerário, em um cenário de conflagração, o acesso de agentes da lei por terra? Ou será que haverá uma orientação para a polícia judiciária dispensar a autópsia nessas ocorrências? Sendo essa a diretriz, será que a saúde pública virá a desdenhar deletérios efeitos sanitários de um corpo em putrefação numa dada comunidade? E o que será feito para resgatar o fuzil abandonado pelo elemento, digamos, “descontinuado”? Tendo sido o marginal tão somente ferido e, assim, já imobilizado, haverá alguma orientação para o seu transporte a algum hospital? Ou o deixarão morrer? Haverá verbas para tratamento de transtorno de estresse pós-traumáutico do sniper se o “marginal” fulminado em questão for, por exemplo, um menino de 8 anos?

E mais: se o bandido tiver sido, por hipótese, mais hábil e, com seu fuzil ou, quem sabe, bazuca, lograr derrubar o helicóptero em que se encontrar o sniper, pode a comunidade esperar um bombardeio aéreo maciço das forças do Estado como sinal de retaliação?

Essas dúvidas que me assaltam só reforçam em mim a convicção de que não se deve priorizar o combate à violência por suas manifestações extrínsecas. Enquanto não se compreenderem e se debelarem as causas profundas do mal, a pirotecnia não passará de pirotecnia. Essa abordagem simplista de um problema tão complexo me permite traçar paródia com o famoso comentário de Mikhail Gorbachev, que intitula este artigo (a respeito da desmontagem da economia dita socialista, na extinta União Soviética, em prol do livre mercado que, a rigor, até hoje não prevalece na Rússia): matar o meliante é fácil; difícil é remover o cadáver.

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