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Sandra Starling

O capitão vai à Disney enquanto o país pega fogo

US-BRAZIL-DIPLOMACY-ECONOMY
Na semana passada, o presidente da República foi com estardalhaço a Washington | Foto: MANDEL NGAN/AFP
PUBLICADO EM 27/03/19 - 03h00

A despeito do anátema que se lança contra Gramsci, ele não pode deixar de ser lembrado quando se observa o hegemonismo cultural norte-americano. Há muito os EUA exercem fenomenal poder de atração, especialmente por meio da indústria do entretenimento, o epicentro de um “soft power” a que René Armand Dreifuss atribuiu o nome de “mundialização cultural”. Até tiranos de todo o espectro político sucumbem a esse encanto. Sabe-se que Adolf Hitler assistia, todas as noites, aos últimos lançamentos de Hollywood. Seu personagem favorito era o Mickey Mouse. Kim Jong-un, ditador da Coreia do Norte, é fascinado pelo basquete da NBA, a ponto de manter laços de amizade com Dennis Rodman, o antigo astro do Chicago Bulls e do Los Angeles Lakers. Em sua fase infanto-juvenil, o mimado neto de Kim Il-Sung – o “glorioso general que veio do céu” – fez uma viagem clandestina a Tóquio, com identidade falsa (passaporte brasileiro), para visitar a filial nipônica da Disneyland a fim de conhecer o Mickey. Assim como o Führer, o “grande líder” norte-coreano também se deixou levar pelo carisma do simpático camundongo.

Na semana passada, o presidente da República foi com estardalhaço a Washington e lá, a seu modo, se divertiu como nunca. Aliás, sempre são motivos de efusiva alegria suas estadias em solo norte-americano. Nem Nelson Rodrigues poderia imaginar a que ponto pode chegar o tal “complexo de vira-lata”. As imagens na internet de sua euforia por lá, no ano de 2017, testando uma pistola .50, são comoventes. Mas, voltando aos dias de hoje: o ápice da visita, a meu ver, não foram os 20 minutos de fama no Salão Oval da Casa Branca, mas a ida ao reino do “play station” da espionagem, em Langley, no Estado da Virgínia. Se o passeio possibilitou uma massagem no ego do capitão, para o Brasil a viagem foi um desastre total. Quem bem diagnosticou esse quadro dantesco, no programa “Painel”, da GloboNews, foi o embaixador Rubens Ricupero, antigo chefe de nossa missão diplomática em Washington, ex-ministro da Fazenda e ex-diretor da United Nations Conference on Trade and Development (Untacd). Só me restaria acrescentar-lhe nunca antes ter visto o Brasil com tanta cara de Goofy, o Pateta.

Enquanto isso, aqui, em Pindorama, como diria Jards Macalé, as labaredas lamberam tudo. As condições de governança parecem já ter ido para o brejo, em menos de cem dias de governo. E a legitimidade do chefe do Executivo começa a se esfarelar, como atesta a última pesquisa do Ibope. Sérgio Abranches, autor da expressão “presidencialismo de coalizão”, diz que o presidente da República confunde coalizão com corrupção, esquecendo-se de que a mesma legitimidade que lhe conferiu autoridade foi a que conformou o Congresso Nacional que ele ora critica.

Houve uma época em que um imperador assistiu a Roma ser tragada por um incêndio, enquanto se distraía com harpas. Hoje, há quem prefira, em meio a sua própria pirotecnia, recrear-se com tuítes ou visitar estandes de tiro. Como nos parques de diversões. 

 

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