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Sandra Starling

Quando mortos assombram os vivos

PUBLICADO EM 16/05/18 - 03h00

Li o excelente livro de Matias Spektor sobre o comportamento das autoridades norte-americanas no período de transição dos governos FHC e Lula.

Agora, aquele pesquisador apresenta uma evidência definitiva de que não havia distinção entre radicais e moderados dividindo os militares que governaram o Brasil de 1964 a 1985. Spektor revelou um relatório da CIA, pondo por terra a tese de que o general Ernesto Geisel faria parte de um grupo das Forças Armadas que buscava suavizar o regime. 

No mestrado em ciências políticas pela UFMG, resolvi estudar o sentido das reformas institucionais do governo Geisel. As fontes eram precárias, para não dizer inexistentes. Ainda vivíamos sob a ditadura, e o referido governo se encerrara havia pouco mais de cinco anos. Mas pude chegar à conclusão de que seria um erro afirmar a tal clivagem que, agora, se demonstrou ser uma farsa. Cheguei a isso examinando os votos que Geisel havia proferido quando ministro do Superior Tribunal Militar. Ao contrário do que era a tendência reformista daquela Corte castrense – no sentido de minorar as penas aplicadas pelas auditorias militares aos condenados com base na Lei de Segurança Nacional, – Geisel, não raras vezes, propunha a elevação das penas. Ali comecei a ficar com a pulga atrás da orelha. Arrolei argumentos para mostrar que de cândido ele não tinha nada. Mas não possuía documento que se pudesse comparar ao trabalho de Elio Gaspari, com base nos arquivos do general Golbery do Couto Silva, jogando água no mesmo moinho.

Como bem disse Paulo Sérgio Pinheiro, ex-ministro dos Direitos Humanos no governo FHC, as revelações de Spektor soam como “o último prego no caixão de Geisel”. Confirmariam as conclusões da Comissão Nacional da Verdade quanto à existência de uma linha de comando a partir da Presidência da República, para que fossem levadas a efeito execuções sumárias de “subversivos perigosos”.

Para mim, agora, resta claro que, quando Geisel resolveu afastar o general Ednardo D’Ávila Mello do Comando do II Exército, após a morte do operário Manoel Fiel Filho nas dependências do DOI-Codi de São Paulo, não estava preocupado com o abuso em si, mas com a ruptura da linha de comando. Em conversa com o então governador paulista, Paulo Egídio, teria dito que aquela execução era um desafio a sua autoridade. D’Ávila talvez estivesse querendo mostrar serviço, na esperança de se tornar sucessor do ministro do Exército, Sylvio Frota, caso este viesse a ser o próximo presidente da República, sonho abortado por Geisel.

Para o lugar de D’Ávila, Geisel nomeou o general Dilermando Monteiro. Querendo demonstrar seus modos civilizados, o novo comandante do II Exército aceitou ser entrevistado, ao vivo, pelo programa “Canal Livre”, da TV Bandeirantes. A atriz Dina Sfat seria uma das entrevistadoras e ficou calada o tempo todo. O general perguntou-lhe por que não fizera pergunta alguma. Dina Sfat respondeu em tom seco: “Eu tenho medo de generais”. 

Os tempos recomendam que recordemos a audácia e o temor de Dina Sfat.

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