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Sandra Starling

Quem pode dizer quais são os anseios da nação?

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História. ‘Jango’ usa biografia de João Goulart para reconstituir vida política no Brasil dos anos 1960 | Foto: E Tudo Verdade
PUBLICADO EM 03/04/19 - 03h00

A Ordem do dia alusiva ao 31 de março de 1964, emitida na semana passada pelo ministro da Defesa, afirma que “as Forças Armadas, atendendo ao clamor da ampla maioria da população e da imprensa brasileira, assumiram o papel de estabilização daquele processo”. Pergunto-me: teria havido mesmo um “clamor da ampla maioria da população” por um governo militar? O que seria a “estabilização” do processo? De fato, como relata a nota do ministro Fernando Azevedo Silva, “famílias estavam alarmadas e colocaram-se em marcha”. Parte da Igreja Católica, hegemônica, manifestava a preocupação com a implantação do comunismo. No dia 19 daquele mês, menos de uma semana após o famoso comício da Central, no Rio de Janeiro, realizar-se-ia, em São Paulo, a Marcha da Família com Deus pela Liberdade. O historiador Daniel Aarão Reis lembra que o então frei Paulo Evaristo Arns, que à época lecionava no Instituto Teológico Franciscano, em Petrópolis, se dirigiu às margens da rodovia União-Indústria, hoje BR–040, para aplaudir e abençoar as tropas lideradas pelo general Olympio Mourão Filho, que se deslocavam de Juiz de Fora para o Rio de Janeiro a fim de “interromper a escalada em direção ao totalitarismo”.

Mas a ampla maioria da população, ou seja, a vontade democrática, estava mesmo a favor de um regime militar? Uma pesquisa realizada pelo Ibope, que só foi divulgada em 2003, concluiu, no dia 26 de março de 1964, que 70% dos entrevistados apoiavam o governo de João Goulart. O mesmo instituto apurou, ainda, que 49,8% dos pesquisados admitiam votar em Jango, caso ele pudesse se candidatar à reeleição, contra 41,8% que rejeitavam a possibilidade. Contudo, nem pesquisas, nem marchas ou comícios revelam o que é a vontade da maioria da população. O que se esperava pudesse ser feito nesse sentido teria sido a realização de eleições livres, diretas, garantidos o sufrágio universal e o voto secreto.

Se estavam tão convictos do apoio popular, por que os “estabilizadores” suprimiram as eleições diretas para presidente e vice-presidente da República que se realizariam em 3 de outubro de 1965? Seguramente, ante o apoio de que diziam gozar, teriam tido ampla vantagem. Vale lembrar que João Goulart não poderia ser candidato, pois não havia reeleição e se encontrava no exílio. Brizola e Arraes também eram cartas fora do baralho. Qual era, então, o motivo de temor, em face de uma eventual vitória de Carlos Lacerda ou Magalhães Pinto? Não tinham sido eles expoentes dos “anseios da nação brasileira”, em prol da “estabilização”, ou melhor, da derrubada de um governo constitucional? Temiam a volta de JK, um “oposicionista” que, como senador por Goiás, sufragara o nome do marechal Castello Branco, nas eleições indiretas realizadas em 11 de abril de 1964?

O golpe de Estado de 1964 não foi uma quartelada em sentido estrito. Os militares estão certos ao afirmarem que setores da sociedade civil – as “vivandeiras” – tomaram parte na conspiração. Mas deveriam se perguntar por que, hoje, só os quartéis andam a comemorar aquela página tão infeliz de nossa história.

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