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Vittorio Medioli

Antes de ver o imenso azul

PUBLICADO EM 10/02/19 - 04h00

– Jorginho, o que quer ser quando adulto?

– Comandante de navio.

Sem um tostão no bolso, com pai incerto e não sabido, mergulhado na indiferença das ruas, acabou se alistando na quadrilha de traficantes do aglomerado. A única que lhe deu valor e uma metralhadora. Sem nunca ter pisado na areia da praia, tombou aos 18 anos defendendo a boca de fumo que lhe tinham dado para patrulhar e encarar com balas de chumbo.

Um dia o adolescente ficou encantado com o filme que mostrava um jovem oficial a bordo de um navio imenso, com farda branca e tantos botões de ouro, cortando ondas gigantescas no meio de um oceano qualquer. No navio, ele notou, ninguém tinha família, assim como ele nunca teve, e em cada porto uma terra nova, um continente diferente, nenhum conhecido ou parente. Poderia escolher o que olhar, a cadeira onde sentar.

Para Jorginho, que nada conhecia além do seu aglomerado e alguns bairros próximos, o sonho mirabolante era conhecer o mundo debaixo das estrelas. Sentia que a realidade entre balas perdidas era dura, a fome fazia doer as vísceras, e, sem ter apreendido o básico, não podia aspirar ao emprego com carteira assinada, tão improvável quanto ganhar na loteria.

Com o destino carimbado, alistou-se no primeiro emprego à disposição na quadrilha mais próxima.

Na escola os companheiros o haviam deixado de lado muito cedo. Suas roupas eram farrapos. Zombavam, e ele de tudo isso não entendia direito a razão, não conseguia desenvolver os raciocínios da turma, não o aceitavam com agrado nas brincadeiras.

Já no primeiro dia em que a mãe o deixou na porta da escola, teve dificuldade de compreender o que era aquele ambiente, tão diferente do barraco pendurado na encosta.

As palavras da professora eram complicadas, o calor do ambiente, as carteiras desgastadas, as lascas das cadeiras que arranhavam suas pernas, a linguagem desse mundo era diferente daquela da mãe. O que salvava o dia era a comida, a merenda que saciava o estômago em chamas.

Marcado a ferro pela insuficiência de atenções desde o berço, ficou atrás mesmo. Só um milagre que ocorre raramente o salvaria. Rendeu-se à marginalização como uma folha se rende ao cair no chão. Desde o dia em que a mãe deu-lhe à luz, as forças o encaminhavam a esse destino. Cruel? Sim, o destino dele e dos outros que assim nascem numa sociedade que abdicou dos sentimentos de solidariedade.

E quem eram para Jorginho os culpados dessa situação? Como o cão de rua abandonado, enxergava em todos uma ameaça. O mundo era inimigo, não o aceitava. Entendia confusamente que contra os inimigos se faz a guerra.

As pessoas que passavam de carro, dentro dos ônibus ou a pé, não o queriam na porta do boteco ou deitado na frente da loja. Ninguém o entendia nem sentia os tormentos da sua fome, da sua sede, das incertezas. Seus sonhos nasciam mortos. A paz era o prazo entre duas guerras pela sobrevivência que não terminava nunca. No transtorno das privações, o caos predominou no âmago sem amor. Como um ouriço atacado, aprendeu a se cobrir de espinhos.

Viveu na indefinição, nos tormentos, sem saber o que fazer, sem uma tarefa que gostaria de ter recebido. Um dever a cumprir como daquele comandante ou de um tripulante qualquer do navio. Condenado à inação, à indiferença, empurrado à vadiagem, a se sentir um incômodo real, até pela mãe, atormentada pela pobreza, pelas goteiras que inundavam sua cama.

E onde descarregar a sua força vital, o instinto de um jovem, onde cultivar sonhos que não fossem queimados? Como dar um rumo a uma vida tão diferente daquela mostrada pelos filmes, distantes como a lua?

Ninguém apresentou a ele de verdade a figura de Deus, apenas se chifrou com os diabos da vida. Não conheceu o amor e terá que aguardar outra vida para saber o que é a compaixão.

Os olhos de Jorginho, arregalados pela morte e inundados pelo vermelho do seu sangue, param de ver. Foi levado pelo rabecão, ninguém gastou uma só lágrima, foi-se antes de conhecer o imenso azul, dividido por uma linha tênue que separa o céu do mar na proa do navio.

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