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Vittorio Medioli

Caiu o muro

PUBLICADO EM 04/11/18 - 05h30

A última eleição deu, aparentemente, a primeira vitória na história brasileira e mineira ao setor competitivo e real da nação. Derrotado foi o mundo especulativo e explorador, conhecido como Velha Política (VP), expressão máxima do patrimonialismo.

O binômio PSDB x PT cansou o eleitor, perdeu apelo e afirmação. Pela primeira vez em décadas, nenhum deles terá participação nos governos estadual e federal. Para quem estava acostumado a banquetes, a nova realidade de migalhas é aterradora e os mudará.

Os eleitores venceram se unindo nas redes sociais, saíram dos trilhos do Brasil Colônia, brigaram com as redes tradicionais de comunicação, empurraram para um canto artistas famosos e intelectuais da Rouanet, comentaristas e colunistas, até Madonna, Caetano e Gil fracassaram. Sem convocação de entes representativos da sociedade, tomaram as ruas multidões num surto coletivo que explodiu nas camadas mais profundas sedimentadas em décadas de decepção e corrupção.

Aconteceu o atropelamento que não se previa tão rapidamente. Deu até atentado, mas seus 15 cm de lâmina faliram o objetivo.

Perderam as fórmulas do clientelismo, nepotismo, privilégios classistas, burocracia chantagista com as consequências do desemprego e da miserabilidade. O eleitor repeliu o aumento de tributos sem antes tentar cortes de despesas e austeridade. A sociedade que trabalha de verdade esgotou a capacidade de pagar a conta dos desmandos. Rebelou-se.

O pesadelo da Venezuela invadiu as fronteiras e as redes sociais conectadas ao Primeiro Mundo, com os vídeos e as mensagens que fizeram migrar muitos jovens de um lado para o outro da política.

Os ventríloquos da VP perderam o rumo. O PSDB salvou-se da falência total com dois novos governadores, justamente desalinhados da nomenclatura, no Rio Grande do Sul e em São Paulo. Perdeu metade de seus deputados, caindo para o nono lugar do ranking da Câmara, e deverá se adaptar fora do protagonismo e se virar parar evitar a saída dos eleitos.

Nessa eleição perdeu o “faz de conta” com a corrupção. O próprio Anastasia, ao comentar sua derrota, disse: “Paguei por erros que não são meus”. Embora ele tenha cometido alguns, a posição dele em cima do muro da corrupção de seu partido e o engajamento na cassação de Dilma por “pedaladas” o deixaram sem referências na discussão do tema – o mais exigido na campanha de 2018.

Tucanos e petistas nos debates tinham um pacto de não agressão direta, como russos e americanos com seus estoques nucleares que não deixariam um vencedor.

A Lava Jato tirou o verniz dos dois, aproximou-os aos mesmos doleiros, operadores de caixa 2, empreiteiras, mensalões, banqueiros, exploradores como Odebrecht, Eike e Joesley.

Uns comprando apartamentos em Paris, outros sítios e triplex no Guarujá. Unidos, ainda, em favor do financiamento público de campanha, e não nos cortes moralizadores de despesas eleitorais. Perderam exatamente para quem não tinha recurso público, tempo de propaganda gratuita, participação em debate, apoio da grande mídia tradicional. A eleição derrubou o passado.

Na última semana do segundo turno, as bandeiras do 13 e do 45 desfilaram juntas em BH. Sinal dos tempos, expondo tardiamente nas ruas e sem constrangimento o abraço, agora de afogados.

O sucesso de Bolsonaro e Zema resulta da incompetência da VP, que aniquilou a economia e gerou milhões de desempregados. Evidentemente, se revoltaram os eleitores pela má administração marcada por escândalos e privilégios.

As redes sociais venceram a velha mídia, num fenômeno sem precedentes que pegou de surpresa quem vive encastelado. Faz lembrar dom Pedro I e sua proibição à impressão de livros e jornais no Brasil em 1808, para evitar que os mesmos meios de comunicação emparedassem a realeza portuguesa, como fizeram na França de 1789.

Hoje, a gratuidade e a facilidade da comunicação, o revolucionário WhatsApp, permitiram a transmissão de mensagens, imagens e vídeo sem limites. A perda do controle da informação direcionada foi a mais marcante de todos os tempos.

As forças que quebraram a casca são como pintinhos sem galinha, não estão evidentemente prontas para o tamanho do problema, mas conquistaram a disposição de serem perdoadas nos primeiros embates. A confiança está atraindo investimentos e prometendo, apesar das dívidas, um momento de expressivo crescimento para o próximo ano.

Há de se esperar pequenos investimentos essenciais, direcionados às áreas sociais sem “cidades das mil maravilhas”, estádios, transposições, bolsas BNDES, plataformas no meio do oceano que, antes de servir ao povo, atendem a corrupção.

Registrou-se a queda do muro das ideologias, do dogmatismo, da demagogia, do ilusionismo, da banalização dos valores familiares. Se isso não for um grande engano, o Brasil tem tudo para dar um largo passo à frente.

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