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Vittorio Medioli

Ford ensina

PUBLICADO EM 10/03/19 - 04h30

Cerca de 2.400 trabalhadores em São Bernardo do Campo, no ABC da Grande São Paulo, foram dispensados com o fechamento da unidade fabril da montadora Ford Motor Company do Brasil.

A fábrica foi inaugurada em 1967 com a produção do modelo majestoso Galaxy. Durante 52 anos, marcou um portentoso desenvolvimento local. Teve entre seus empregados nada menos que um metalúrgico erguido pelo voto popular ao cargo máximo da República. Foi palco de greves históricas, paralisações de até 40 dias, que redundaram em ganhos expressivos para os trabalhadores e modificaram as leis nacionais.

O crescimento e o sucesso foram bons enquanto duraram. Agora, o que se aguarda para muito em breve é a inatividade, isso para a estupefação de quem nunca imaginou esse desfecho.

A cidade paulista perde uma das mais antigas e prestigiosas fábricas, de onde saíram milhões de veículos dos modelos Rural, Corcel, Mawerick, Escort, Del Rey, Fiesta, Belina, F-1000 e caminhões de variada potência.

O que levou a essa decisão drástica?

Nunca será dita ou compreendida toda a verdade, nem serão revelados todos os detalhes, mas não paira dúvida de que não foram os bons resultados econômicos nem a alta competitividade da produção dessa fábrica. O cordão que segurava a Ford a São Bernardo do Campo arrebentou como costuma acontecer com empresas americanas que possuem milhares de acionistas que se valem da lógica espartana do rendimento. Dá, deu; não dá, caímos fora.

Não existe romantismo, negociação, afeição, laço, sentimento. A calculadora e os números falam no lugar da melhor filosofia.

Isso ocorreu no Estado que é o maior consumidor de veículos do país – cerca de 40% da produção nacional é comercializada em São Paulo. A fábrica é próxima da cadeia de fornecedores, possui um manancial de mão de obra altamente especializada, uma infraestrutura invejável.

Decidiu-se na Ford chutar o pau da barraca, encerrar a fabricação de caminhões na América Latina para concentrar as atividades na produção de carros leves a partir da planta de Camaçari, na Bahia, inaugurada em 12.10.2001.

A diferença “numerológica” que determinou a escolha está certamente nos incentivos fiscais concedidos no Nordeste para a produção de veículos.

Um carro vendido por R$ 60 mil possui, ao sair de uma fábrica do Nordeste, uma vantagem tributária de R$ 14 mil em comparação com o equivalente produzido em São Bernardo; se calcularmos para um veículo de R$ 130 mil, tem-se R$ 35 mil de diferença. Não para por aí, a mão de obra por lá é quase a metade, IPTU e outros impostos locais são apenas 20% dos correspondentes paulistas.

A agressividade na luta por sediar uma montadora foi adotada no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Rio de Janeiro e Goiás. Minas ficou de braços cruzados, como se diz no interior, sentada na “carne seca”.

Dessa forma, o ABC paulista, que sediou 100% da produção automotiva nacional no início da década de 70, está desaparecendo do mapa automotivo, conservando as linhas de apenas alguns modelos.

Se hoje o ABC parasse por completo, não haveria qualquer transtorno no Brasil, uma greve geral por lá não mudaria nada, como já mudou no passado. Produzir na ex-capital da indústria automotiva se tornou inviável, pelos altos custos e falta de competividade. É isso que a Ford diz.

Os imensos restaurantes, alguns como o São Francisco, com até 3.000 assentos, que viviam abarrotados nos almoços na década de 90 na avenida De Marchi, fecharam as portas.

O espaço das indústrias foi tomado por conjuntos habitacionais de uma população de baixa renda atraída pela fama de “Eldorado”.

Em Minas Gerais, em escala menor, temos o ex-poderoso município de Betim, que em certo momento fornecia ao Brasil um carro a cada quatro comercializados; caiu para um carro a cada 12, num mercado que encolheu 30% em relação a 2014.

Sofre do mesmo mal de São Bernardo, quando Lula levou a expansão da Fiat para a terra natal dele, com incentivos e financiamentos, no último ato de seus oito anos de governo, exatamente em 28 de dezembro de 2010. Com o início da produção, em 2015, em Pernambuco e a queda do mercado, Betim perdeu a produção de 2.000 veículos por dia, ou 60% de quanto produziu nos melhores momentos.

O resultado para o município: esvaziamento de atividades econômicas, perda de renda pública, saída de fornecedores, queda abrupta no comércio local. Disso vêm o desemprego e a precarização de bairros que viviam em consequência do movimento acelerado.

Impactou uma perda na divisão do bolo do ICMS destinado aos municípios, de 9,74% em 2012 para 5,96% em 2019. Cada ponto representa em 2019 um valor de R$ 130 milhões por ano. Betim perde assim, neste ano, R$ 490 milhões em ICMS, e enfrentou uma expressiva migração de novos usuários no sistema municipal de saúde e de educação.

Minas Gerais se transformou num Estado burocrático, caro, lerdo, desatualizado, endividado, inadimplente e decadente. Ausente no debate nacional e abusado por ataques internos e externos.

O fenômeno Ford deve abrir os olhos de todos e mostrar que sem competitividade e, sobretudo, sem defesa do patrimônio estadual, sem voz no Congresso, suas atividades produtivas caminham para a catástrofe.

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