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ENTREVISTA

De Venda Nova para a Rússia: conheça Fred, o novo "xodó" de Tite e Guardiola

Em conversa exclusiva com o Super FC, volante fala sobre oportunidade de disputar a Copa do Mundo e o momento vivido na Europa

Fred shakhtar
Fred do Shakhtar Donetsk foi chamado por Tite para a Copa do Mundo | Foto: Rafael Ribeiro / Divulgação CBF
Publicado em 16/05/18 - 08h00
Josias Pereira e Bruno Trindade
@SuperFC

O Jardim Europa, em Venda Nova, estará na Copa do Mundo de 2018. Sabe o Fred, o filho do Delson e da Roseli, aquele mesmo que jogava bola descalço com o Lorran, o Márcio Henrique, o João, que cortou o cabelo igual ao Ronaldo Fenômeno em 2002 e sonhou em levantar a taça da Copa igual ao Cafu? Pois então. Ele é orgulhosamente um dos 23 convocados por Tite para representar o Brasil na Rússia. Como a vida é.Hoje Fred, aos 25 anos, vive um sonho. O filme passa na cabeça, da infância simples, da luta para poder jogar ao sucesso na Europa e a responsabilidade de estar no time que tem a missão de trazer o hexa.

Em entrevista ao Super FC, o meia do Shakhtar, da Ucrânia, falou sobre o momento especial na carreira, as críticas quanto à sua convocação e do companheiro Taison, o sonho de estar em uma Copa, o futuro, uma vez que é pretendido por United e City, e o passado, quando acabou deixando a base do Galo ainda adolescente por questões salariais. “Me pego ainda vendo jogos do Atlético e cantando junto com a torcida”, conta Fred.

Já caiu a ficha, Fred? Consegue dimensionar que você vai disputar uma Copa do Mundo?

A expectativa é grande, a melhor possível sempre. Temos um jogo aqui ainda (na Ucrânia) no fim de semana. Apesar de já sermos campeões, temos um clássico para disputar (duelo com o Dínamo de Kiev, no sábado) e, logo depois, eu me apresento para a seleção junto com o Taison. Não tem como negar, eu estou muito ansioso para que chegue o dia da apresentação logo, acho que só na hora que eu pisar aí no Brasil, estar com a seleção, que a ficha vai cair.

O que você estava fazendo na hora da convocação? Qual foi o filme que passou na sua cabeça quando recebeu a notícia?

Eu estava em casa, mexendo no celular, estava procurando alguma maneira de esquecer a lista. Confesso que eu não gosto muito de assistir as convocações, estava muito ansioso, mas assim que saiu meu nome, a minha esposa veio gritando, toda feliz, pulando. A felicidade tomou conta de todos nós. Meus familiares que estavam no Brasil ligaram na hora, fizemos Face Time com o pessoal em BH. É uma sensação de vitória, uma sensação maravilhosa, ainda mais depois de tudo que passei. Poder disputar esta Copa do Mundo, pra mim, é maravilhoso. É saber que o trabalho que venho fazendo está sendo bem executado. Agora é continuar e cada vez crescer mais.

Tite sempre destacou sua versatilidade e capacidade técnica, o considerando o famoso volante box to box, ou seja, um jogador cuja área de atuação se expande desde a área defensiva, com auxílio no sistema de marcação, até a ofensiva, com chegada para participar da articulação dos lances de ataque. Essas características foram decisivas para sua convocação? O quanto você aprendeu neste período na Europa?

Acho que foi importante sim ter essa versatilidade pela maneira de eu poder jogar tanto como primeiro volante quanto de segundo. No Shakhtar, às vezes, eu mudo de posição, atuo como um meia mais avançado. Isso para mim é muito importante e creio que ajudou na minha convocação sim. Claro que o desempenho do futebol também ajuda muito. Felizmente, o jogo que o Tite foi assistir eu pude fazer um grande gol (encantou a comissão técnica de Tite e o próprio treinador ao marcar um gol de falta em Alisson na Champions League e, em seguida, numa grande atuação na vitória contra o City, enchendo os olhos do próprio Guardiola). E não só esse grande gol, mas desempenhar o futebol que vínhamos apresentando na Champions League. Felizmente, eu fui coroado com essa convocação para a Copa do Mundo.

Guarda um certo ressentimento por sua história no Atlético ter terminado de uma forma tão banal (cerca de 2 mil reais impediram o atleta, aos 16 anos, de permanecer no clube por conta do teto salarial exercido pelo então diretor André Figueiredo)?

Comecei meu futebol no Atlético com 10 anos, infelizmente não pude continuar. Fiquei muito chateado porque realmente era pouca coisa, nunca tinha assinado um contrato, seria meu primeiro, e o Atlético segurou um pouco, podia ter liberado uma verba, mas acho que faz parte do futebol. Eu tive uma proposta boa de Porto Alegre, do time do Assis, acabei indo para lá e, logo depois, eu fui para o Internacional, clube onde eu fui muito feliz também. Porém, claro que fiquei chateado. Belo Horizonte era minha cidade, era um time que eu torcia desde a infância, queria permanecer no Galo. Agora eu vejo que essas coisas fazem parte da vida de um jogador. Quem sabe um dia eu ainda possa voltar a atuar em Belo Horizonte.

Como foi sua infância em BH e a luta de seus pais para te colocar no futebol? Ter essa base foi essencial para superar momentos, já no profissional, como a punição por doping depois da Copa América de 2015?

A maioria do jogadores vêm de uma família humilde, comigo não foi diferente. Meus pais sempre foram muito trabalhadores. Graças a Deus, nunca passei fome. Eles sempre trabalharam muito para isso, para colocar um prato de comida na mesa, mas claro que não tínhamos uma vida de luxo. Tivemos que batalhar muito para chegar até aqui. Só tenho que agradecer a meus pais, Delson Rodrigues e Roseli Miranda, meus avós, Gercino Miranda e Maria Justina, que são muito importantes na minha carreira. Eles batalharam muito por mim, se hoje eu estou aqui, pode ter certeza que eles possuem total mérito nisso. Foi uma fase boa de aprendizado ali na infância, depois eu fui jogar no Internacional, fui muito feliz. Teve a situação do doping que, infelizmente, aconteceu ali (testou positivo para hidroclorotiazida, durante a campanha da seleção brasileira na Copa América de 2015, um diurético utilizado para controle de doenças como hipertensão e insuficiência cardíaca, e foi suspenso por um ano de competições da Conmebol. O medicamento é considerado doping porque pode mascarar outra substância ilegal), mas aquela foi mais uma oportunidade para eu mostrar meu poder de superação, retornar por cima, e felizmente hoje estou nesta lista tão esperada.

ADENDO - Explicação sobre o doping de Fred

Na época da divulgação do doping, Fred havia acabado de defender a seleção brasileira durante a disputa da Copa América e negou ter cometido qualquer irregularidade. A CBF, por sua vez, informou naquela ocasião que nenhuma substância que poderia se constituir doping foi receitada ao jogador enquanto ele atuou pela seleção na competição continental, na qual o atleta defendeu em duas partidas - vitória por 2 a 1 sobre o Peru e derrota por 1 a 0 para a Colômbia. A divulgação do doping ocorreu apenas depois do fim daquela edição do torneio, no qual o Brasil foi eliminado pelo Paraguai, nos pênaltis, nas quartas de final.

Em fevereiro de 2016, Fred foi suspenso pelo Comitê Disciplinar da Fifa por um ano devido ao teste positivo para doping, mas a punição foi retroativa a 27 de junho de 2015. Com isso, ele terminou de cumprir a suspensão no dia 27 de junho. Antes de a entidade que controla o futebol mundial validar a punição internacionalmente, a pena valia apenas para competições organizadas pela Conmebol.

Sente saudades daquela época de Jardim Europa? Mantém contato com seus amigos em Venda Nova?

Eu cresci aí em Venda Nova, no bairro Jardim Europa. Tenho vários amigos aí no bairro, o Luiz Paulo, o Daierson Lorran, o João, o Márcio Henrique, muitos amigos de infância, e aqui na Ucrânia eu vivo com minha esposa (Monique), meus amigos estão todos aí, familiares e aqui eu divido as coisas com ela. Minha mãe era funcionária pública, parou para me acompanhar, ela me acompanhava muito, mas hoje eu casei e ela vive mais em BH. Meu pai é funcionário público, ainda trabalha com isso no INSS, em Belo Horizonte, e eu jogava futebol no próprio campo do Venda Nova, tinha uma escolinha que chamava Liga Mineira, depois ela passou a se chamar Gol a Gol. Meu primeiro treinador foi o Fabinho (Fábio Brostel, auxiliar técnico do sub-15 do Cruzeiro),hoje ele trabalha no Cruzeiro, é um grande amigo que eu tenho até hoje, possuo um carinho gigante. Mas eu gostava mesmo era de jogar bola era no meu bairro ali mesmo, nas ruas do Jardim Europa, descalço, com os meus amigos, tinha muitos amigos onde eu morava.

Muitos criticaram a presença de você e principalmente do Taison na lista de Tite. Os pedidos eram por Arthur e Luan, do Grêmio. Como vocês lidaram com isso? Você acredita que as opiniões não refletem o desempenho que vocês tiveram nesta temporada?

Quem acompanha mesmo o futebol, viu a Champions League, sabe a fase maravilhosa que vivemos nesta temporada. Campeonato Ucraniano é um pouco mais difícil de acompanhar, eu entendo, mas na Champions, quem nos viu em ação sabe que classificamos em um grupo em que muitos falavam que sequer iríamos para a Europa League. Nossa chave tinha o Manchester City, campeão inglês, Napoli, hojevice-campeão italiano, o Feyenoord, que era o atual campeão holandês, eram grandes equipes, não estávamos sendo cotados nem para ficar em terceiro lugar, mas classificamos, ganhamos do próprio City, do Napoli. Quem acompanhou sabe do nosso futebol, do nosso potencial. Eu estou há cinco anos na Europa, o Taison já está há mais tempo do que eu. É difícil você se adaptar ao futebol europeu. Eu creio que o Tite fez ótimas escolhas. Sabemos que o Arthur e o Luan são grandes jogadores, estão em uma fase maravilhosa no Grêmio, mas eu acho que eles ainda não possuem essa experiência de vivenciar a Europa, o Arthur logo está indo para o Barcelona, vai crescer 100%, não tenho dúvidas. Eles são grandes amigos para mim. Joguei junto com os dois. Estive com o Luan durante toda a preparação da seleção olímpica, estive com o Arthur, fomos com o Tite agora. São jogadores com muito potencial, tenho certeza que vão disputar muitas Copas ainda, próximo Mundial tenho certeza que os dois estarão presentes. Mas também tenho comigo que o Tite foi muito feliz em sua convocação, de ter escolhido eu e o Taison aqui do Shakhtar, e o torcedor pode tercerteza que vamos fazer de tudo para mostrar nosso potencial, dar o nosso melhor quando formos acionados e voltar com o Hexa. Só pensamos nisso agora.

Quem que é a sua maior inspiração? Você disse que o Gilberto Silva também faz parte da sua carreira, mas muita gente também te considera muito próximo do Fernandinho, que tem quase uma trajetória idêntica a sua também. Ele foi jogar no Shakhtar Donetsk, agora está no Manchester City e foi o primeiro brasileiro a jogar pelo Manchester City indo para uma Copa do Mundo. Você também se espelha um pouco no Fernandinho?

Claro. Ele é um grande jogador também. Eu o conheci aqui (no Shakhtar). Não cheguei a jogar com ele, mas o conheci assim que eu cheguei na Ucrânia. Hoje, ele é um grande amigo no futebol. Claro que a gente se espelha nele, é um grande jogador, saiu do Shakhtar e foi para um grande time, mas a minha verdadeira inspiração foi minha família, meus amigos, quem realmente estava próximo, meu avô principalmente, que foi um cara que me ajudou bastante. Então, esse realmente é minha inspiração no futebol.

Tem uma foto do Gabriel Jesus pintando a rua em 2014. Ele vai disputar a primeira Copa dele. Você já fiz alguma coisa desse tipo? E qual é a primeira coisa que vem na sua cabeça quando você pensa em Copa do Mundo?

Copa do mundo é sonho de infância. Toda criança sonha em disputar uma Copa do Mundo. Como você disse: tem essa foto do Jesus aí. Quando eu era criança, em 2002, eu cortei o cabelo igual do Ronaldo Fenômeno. Eu estava brincando disso aqui com minha esposa. A gente sonha. E hoje poder estar em uma lista dessa para a Copa é mais um sonho que está sendo realizado. É uma felicidade imensa, que não tem tamanho. Eu quero jogar essa Copa e ser campeão vai ser melhor ainda.

Você surgiu no Atlético, mas não conseguiu dar prosseguimento na sua carreira no clube. Você pode revelar para nós se você é cruzeirense ou atleticano?

A família é muito dividida. Tem uns que são cruzeirenses, outros atleticanos. Mas meu pai era atleticano e, quando eu cresci, eu comecei a torcer para o Galo. Era muita atleticano, mas agora a gente acaba virando profissional. Joguei no Inter e tem um carinho imenso também pelo Internacional, pela torcida. Mas eu tenho um carinho também muito grande pelo Atlético. Desde pequeno, eu torci pelo Atlético. E hoje ainda acompanho alguns jogos e, às vezes, me pego cantando ali junto com a torcida. É bem bacana essa minha história de torcedor.

Qual a mensagem que você deixa para o torcedor brasileiro, que vai acompanhar a seleção a partir do próximo mês na Copa do Mundo? O que você pode falar e o que você pode prometer para os brasileiros que sonham com o hexacampeonato?

A gente promete que vai correr dentro de campo, dar nosso melhor, correr pelo Tite. O que eu mais quero, e toda a nação brasileira quer, é voltar com o hexa, com uma trajetória bonita nesta Copa do Mundo. Eu peço para o torcedor, para todos, que nos apoiem, que venham torcer junto, que saiam nas ruas, que levem faixas, que pintem o chão. Tenho certeza que o Brasil vai chegar muito longe e, se Deus quiser, a gente pode voltar com o hexa.

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