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O fim da linha

Publicado em 03/06/18 - 04h30

O setor de transporte rodoviário, tanto de carga como de passageiros, pode ser comparado a uma galáxia. Existem nele sistemas solares com estrelas, planetas e seus satélites, num firmamento de cometas, asteroides, meteoritos.

Não existe um controlador, apenas uma lógica sustentada pela sobrevivência da galáxia em contínua expansão.

Nos últimos 20 anos, os fartos financiamentos do Finame permitiram o acesso à compra de veículos de transporte a centenas de milhares de pessoas. Foi condição para renovar a frota, ampliar a competitividade e manter os fretes sob controle. Provavelmente, o único grande setor (15,6%) do PIB nacional que não conseguiu realinhar seus preços. Teve perdas consideráveis, mesmo assim uma miríade de novos agentes apareceu no setor.

Mais de 3.000 sindicatos, concedidos ou vendidos no balcão do Ministério do Trabalho, mais que dar força ao setor rodoviarista, acabaram por horizontalizar as decisões e confundi-las. Cresceu também o transporte próprio, e muitas empresas passaram a ter um frota a seu exclusivo serviço.

Na falta de uma coordenação, o setor se agita em suas bases pelo instinto de sobrevivência que quatro anos de recessão têm colocado a dura prova.

Nessa situação fatalmente adversa, a política dolarizada da Petrobras saturou como um gás de cozinha o ambiente. A explosão veio como já era anunciada e previsível.

A Petrobras deixou de produzir diesel no Brasil (reclamam os petroleiros) e passou a importá-lo em grande parte, expondo-o ao mercado de curto prazo. Passou a vender o petróleo cru que as refinarias americanas devolvem em diesel. Quer dizer que ela tem colchão para não se espatifar, com seu produto crescendo de preço. Disso a prática de aumentos de 59,6% em um ano com inflação interna de apenas 2,7% inviabiliza as atividades que de diesel dependem e não têm como conseguir um repasse equivalente ao de mercado.

Lembre-se de que, quando o barril de petróleo despencou de US$ 100 para US$ 40 em 2013/2014, não se praticou qualquer redução nos preços nas bombas. A Petrobras teve ganhos fantásticos que abasteceram o petrolão, verdadeiro assalto à economia nacional.

Mas, seja o que for, o governo, numa economia com inflação de 2,7%, aplicando um aumento de 60% ao principal insumo do transporte rodoviário, precisa se preocupar em adotar medidas amortecedoras do impacto.

Tudo concedeu a um lado, e nada fez para atenuar o outro.

Isso mostrou que, longe de ser uma política que atenue o sofrimento da população, o governo Temer adota a política cruel do banqueiro. Deixou, ainda, elevar o dólar de R$ 3,14 a R$ 4, apesar de um superávit comercial de US$ 5 bilhões mensais. Tem situações espantosas ou, mais precisamente, abertas para ganhos especulativos. Custe o que custar.

Pesa nessa situação que os fundos americanos conseguiram no ano receber cerca de US$ 3 bilhões de multas da Petrobras em decorrência dos rombos do petrolão e mais medidas, como impor a venda de diesel dos Estados Unidos ao Brasil.

Pedro Parente é ligado aos interesses de banqueiros, e, antes de sair da presidência, que ocorreu a contragosto pelo pipocar de suas relações fatais com fornecedores, cumpriu seu papel de homem das finanças. Os anteriores eram representantes de partidos que se lambuzaram da fartura da estatal.

Consertar a Petrobras era fácil desde que se eliminassem, ao menos parcialmente, os esquemas de assaltos a que era submetida. Parente fez o dever, tapou os ralos, e nisso os ganhos apareceram de imediato.

A Petrobras, entretanto, não poderia liquidar os cem ou mais bilhões do rombo num só ano, mas ao longo de alguns. Tem patrimônio e solidez para tanto. Mas o governo Temer, debilitado pelo linfoma da corrupção, foi além. Com escasso conhecimento de economia, “terceirizou” a empresa aos banqueiros da soberania nacional. Colocou a raposa para tomar conta do galinheiro.

Corrupção em dose nunca vista, carga tributária desregrada, gastos com mordomias e privilégios de marajás, sem qualquer exemplo de ética e de austeridade, fundos partidários bilionários, colocando, ainda, setores que trabalham na dureza para pagar a conta, o descompromisso com o sofrimento de 13,7 milhões de desempregados: tentar governar é como subir a nado as cataratas de Iguaçu.

Nota-se o silêncio no Congresso acéfalo e sem líderes, atordoado como “pobre na chuva”, não surgem propostas nem palavras em solidariedade a quem deveria representar. Vivemos um momento de falência daquilo que era uma cleptocracia mascarada de democracia.

A situação é grave, e esse governo tem ainda sete meses para tentar resistir a sua incompetência.

Se as greves continuarem, será pela incapacidade de governar, e, se for assim, só resta a renúncia.

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