Daniel Ottoni
@dottoni
15/04/21
16h27

Grande Fininho

Meligeni 50 anos: carreira sem arrependimentos e história intacta no tênis

Ex-tenista e hoje comentarista falou com exclusividade à Coluna Esportivamente sobre passado, presente e futuro da modalidade que lhe deu tudo na vida

fernando meligeni
Meligeni se dedica a clínicas e cursos sobre tênis — Foto: Marcos Micheletti/Portal TT
Fernando Meligeni
O tenista Fernando Meligeni encerrou sua carreira em grande estilo: levou o ouro no Pan de 2003, após derrotar o chileno Marcelo Rios — Foto: Divulgação/ Site Fernando Meligeni
Daniel Ottoni | @dottoni
15/04/21 - 16h27

Fernando Meligeni comemorou o aniversário de 50 anos, no último dia 12, fazendo uma das coisas que mais gosta: comentando tênis. O ex-jogador, um dos maiores da modalidade no Brasil em todos os tempos, retornou à ESPN para destilar seu conhecimento e experiência, que o fizeram atingir um patamar para poucos. 

Direto e sincero, Meligeni teve algumas desavenças por seu estilo, mas enfileirou admiradores por ser um atleta que sempre deu o 110% quando esteve em quadra. A aposentadoria já dura 18 anos. 

As conquistas são tão grandes quanto as lembranças e a satisfação de dar dado seu melhor, sem arrependimentos, deixando um legado para muitos jovens e ainda maior para seus sobrinhos, que precisam conviver, diariamente, com o peso das comparações com o tio.

Confira entrevista exclusiva de Fininho à Coluna Esportivamente:

O que tem feito neste período desde que abandonou as quadras?

Comecei a fazer clínicas e eventos de tênis, publiquei três livros, agora acabo de fazer curso online chamado 'O Fino do Tênis'. Estive também do lado da informação, fiquei por sete anos na ESPN, trabalhei na MTV também e sempre procuro estar ajudando jovens com essas clínicas. 

Você se considera um dos maiores do tênis brasileiro em todos os tempos?

Nunca parei pra pensar nisso. Tenho minha colocação e importância e penso em tentar retribuir o que ganhei com este esporte, passar adiante o que tive de coisa boa a partir de quem me ajudou. Muita gente rotula se fomos ou não importantes, se fomos maior que esse ou aquele. Sinceramente, não é algo que passa muito pela minha cabeça. 

Vê reconhecimento das pessoas, mesmo sem ter os títulos do Guga, mas por ser um cara que sempre vestiu a camisa e demonstrou muita dedicação? 

Acho que sou muito reconhecido, as pessoas têm carinho por mim, gostam do meu estilo de jogo, outros da minha atitude. Alguns me admiram porque estive entre os 25 do mundo, tive três títulos de maior expressão, fiz uma semi de Roland Garros. Tem gente que acha que não é suficiente. Acho que sou muito bem tratado, demonstram carinho por mim. Como todo mundo, temos pessoas que gostam e não gostam da gente, alguns admiram, outros não. 

O que o Meligeni de 50 anos diria para o jovem que começou a carreira la atrás? 

Eu diria para o Meligeni mais jovem prestar atenção e aproveitar o fato de ter dois ouvidos e uma boca para escutar mais. Outro conselho seria nunca ficar no tempo achando que se joga bem e não precisa mudar.

Temos que evoluir a todo momento, não perder oportunidades, tentar ser muito atento às chances dentro da quadra, ser resiliente e forte, buscar ser um cara de muito trabalho. O tênis é um esporte muito difícil. Eu diria para ele se preparar bem porque não vai ser fácil. Mesmo sendo um brasileiro vindo da Argentina, várias dificuldades vão aparecer mas, no final, vai ser legal. 

Faria algo de diferente? 

Não muito. Acho que teria mudado meu backhand antes, mudei com 24 anos, em 1995. Fui 'cabeça-dura', teria me ajudado e jogado melhor se tivesse feito isso antes. Não tenho certeza se estava preparado para isso com 24 anos, esse é o único ponto onde poderia ter feito algo de diferente.

Algum gosto amargo na carreira?  

Qualquer profissão tem gostos amargos, dias e momentos ruins. Mas não levo nada de negativo para minha vida. Naquele momento, perder um jogo foi importante, fui eliminado em Estoril com erros que entristetem e machucam. Mas sempre fui muito sincero e  verdadeiro, nunca fugi das responsabilidades, aceitava erros e encarava de frente. Se tivesse mentido ou feito injustiça, estaria hoje brigando contra demônios. Hoje sou tranquilo e feliz.

Acha que os atletas de hoje poderiam se posicionar mais em assuntos que discordam e precisam de reflexão, dentro e fora do esporte? Por que isso acontece? 

Essa questão dos atletas não se posicionarem não vem de hoje, na minha época também já tinha isso. Poucos eram aqueles que 'peitavam' a federação quando viam algo de errado. São poucos que têm esse perfil, depende muito do que você tem a perder. Os que eram mais duros tinham problemas de poucas regalias, convocações e ajudas. Os mais políticos preferiam 'passar pano', tinham mais patrocinadores e benefícios.

Vai muito da características da pessoa e atleta. Aprendi a ser como sou com minha mãe, ela era assim, foi algo que veio de dentro de casa. Pra mim, é tranquilo agir desta forma, acho que o esporte seria melhor se tivéssemos mais gente se posicionando. Ao mesmo tempo, problemas podem aparecer e é fato que poucos se posicionam no Brasil. 

Acredita que vai demorar para o tênis brasileiro de simples voltar a ter destaque internacional?

Isso é muito relativo, uma pergunta difícil de ser respondida. Por um lado, podemos ter um jogador que aparece jovem e começa a jogar bem, caso do Guga, Thomas Bellucci, meu, do Jaime Oncins e do Thomas Kock, que se destacam por ser muito bom, mesmo não sendo tão ajudado por federações, países e patrocinadores. Estamos distantes do que acontece na Argentina, Espanha e Austrália, que contam com uma legião de bons tenistas. Neste caso, não estamos preparados pra isso, seria necessário estudar para tentar copiar alguns bons exemplos como os que acontecem agora na Itália. A grande maioria do mundo copia, não inventa. Mas ter um jogador entre os 10 ou 30 pode acontecer, o que não quer dizer que o tênis do país é forte. Às vezes, a estrutura é ruim e aparece um bom jogador. Ou, ainda, a estrutura é boa, mas insuficiente para colocar um jogador entre os 10 ou 20 do mundo. 

Conquistas de duplas são menos valorizadas do que simples?

Acho que sim, eu ganhei sete torneios de duplas, cinco com o Guga, fui número 30 do mundo e pouca gente sabe deste meu desempenho nas duplas. Cheguei nas quartas de final de um Grand Slam e as duplas nunca foram extremamente valorizadas. Não sei responder por que. As pessoas gostam de jogar duplas, mas não dão, nem de perto, o valor de um número 20 do mundo. O Bellucci foi 21 do mundo e é mais valorizado por isso do que Bruno Soares e Marcelo Melo que foram líderes do ranking de duplas. Não sou eu que falo isso, o Brasil e quem joga tênis sabe disso. A resposta do motivo eu não tenho. É um esporte com duas modalidades e dentro dele se reconhece mais quem joga simples. 

Mudou algo pra você a partir do momento em que seus sobrinhos começaram a participar de torneios oficiais? Qual a relação de vocês? Costuma acompanhá-los em competições, etc?

Minha relação com o Felipe e a Carol é muito legal, gosto bastante deles. São jogadores com personalidades e demandas diferentes. Estou aqui sempre para ajudar a tirar qualquer dúvida e aconselhar todas as vezes que forem necessárias. O Felipe demanda um contato diário menor do que a Carol, não tem nada a ver, é o jeito de cada um. Quero que eles sejam líderes do ranking, muita gente me pergunta como será se o Felipe me superar no ranking ou for mais importante do que eu. Tenho uma visão muito clara que eu já falava na época do Guga, respondia quando o Bellucci estava próximo do meu ranking. A carreira de cada um é feito por ele, ninguém ofusca ninguém. Quando alguém supera, isso faz parte, não podemos desmerecer um cara que foi 25 do mundo, fez semi de Roland Garros, quarto lugar na Olimpíada e campeão do Pan. Isso está comigo e não cabem comparações, acho até feio fazer isso, principalmente com alguém da sua família. Torço muito e acredito nos dois, acho que terão uma carreira vitoriosa. Mas se eu não sabia onde ia chegar, é ainda mais difícil dizer onde os outros vão chegar. 

Existe um peso natural pra eles por carregar o seu sobrenome?

Existe um peso comparativo chato pra eles, acho que chega uma hora que essa comparação enche, ela aparece o tempo todo, ficam falando que ele ou ela são sobrinhos do Meligeni, meu nome sempre é colocado. Eu, se fosse da imprensa, evitaria de fazer isso, todo mundo já sabe .mas tem um lado positivo. Eu não tive ninguém da minha família que jogasse tênis. O lado positivo é ter alguém que chegou e conhece os camihos e pode ajudar nas dificuldades. O negativo é ter pressão a mais e comparações. Isso é muito cv com eles, levam numa boa. dão risada de comentários. Eles não entram na quadra com isso.
 
Como vê o trabalho da atual gestão do tênis? Estamos em boas mãos depois de casos de presidentes acusados de corrupção, desvios e irregularidades?

Temos que dividir a gestao em dois pontos. O primeiro ponto primordial e mínimo de qualquer gestao é a transparência, não estar metido com problemas de polícia e desvios de verba. A atual gestão, que está aí há cerca de quatro anos, vem fazendo isso, sem se meter em problemas. Não há comparações com o passado vivido, com o tênis envolvido com Polícia Federal e crimes fiscais. O Rafael  Westrupp   vem fazendo um bom trabalho.

O lado mais técnico não dá pra soltar rojões e falar que temos um tênis muito estruturado. Mas temos uma gestão que chegou sem dinheiro e patrocínios, além da má credibilidade, não é fácil assumir neste contexto.
Teve que se fazer durante um ou dois anos um trabalho de resgate. Os patrocinadores começaram a voltar, apareceu mais dindheiro e, aí, conhece-se melhor a entidade, quando um mínimo de verba surge. Com tudo que é disponível, faz-se a divisão entre juvenil, senior, adulto, cadeirante...

O segredo está em fazer bem feito com pouco dinheiro. Depois de anos com cabeça de baixo d´água, agora temos um outro momento. Eu sou exigente, sempre acho que pode ser melhor, termos melhores resultados, vejo a atual gestão neste caminho de tentativas. 
 

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Daniel Ottoni é repórter de esportes especializados do jornal O Tempo, do portal Super.FC e da rádio Super. Com experiência de cobertura em Copa do Mundo, Olimpíada e Mundiais de vôlei, tem uma predileção por bastidores e lado B. Por aqui, espaço para os esportes que têm uma religião chamada futebol como concorrente em muitos momentos.

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