Josias Pereira
@josiaspereira
15/04/21
17h38

Enciclopédia olímpica

Álvaro José, 'A Voz da Olimpíada' no Brasil: faltam 99 dias para Tóquio

Coluna 'Pelo Mundo' entrevista o jornalista e locutor esportivo que vai para a 11ª edição olímpica da carreira. Ele conta suas histórias e expectativa para uma Olimpíada atípica

Álvaro José se prepara para a 11ª Olimpíada da carreira — Foto: BandSports / Band / Divulgação
Josias Pereira | @josiaspereira
15/04/21 - 17h38

Quando se fala em Olimpíada e TV no Brasil, lá está Álvaro José. Não à toa foi considerado pela revista Placar como ‘A voz das Olimpíadas’. Uma trajetória que começou em Moscou 1980, mas que já possuía na família ligações profundas com o desporto. Seu pai, o jornalista esportivo Álvaro Paes Leme de Abreu. Sua mãe, a ex-jogadora de basquete Ruth Bahde Paes Leme. Ele não poderia fugir do ofício. Abraçou-o e se tornou uma lenda da comunicação nacional. 

Na contagem regressiva para Tóquio, o dia 99 reserva uma entrevista especial com Álvaro José, que se prepara para sua 11ª Olimpíada. Uma edição completamente atípica e que proporá ao jornalista e locutor esportivo desafios ainda mais intensos. Do isolamento às medidas restritivas, da locução in loco às redes sociais. Muita coisa mudou em relação a Moscou 1980, quando aquele garoto com um microfone da rádio Bandeirantes viveu o sonho olímpico e dele jamais abriu mão. 

Santos, Pelé, Minas, Cruzeiro e o espírito olímpico 

Muita gente questiona Álvaro o porquê de deixar o futebol um pouco de lado. Inclusive nos seus perfis nas redes sociais, a preferência sempre foi por outras modalidades. Não há como mudar. Está em sua essência. Mas ele também não nega o seu apreço pelos gramados. Pelo contrário. Remonta suas memórias esportivas a Minas Gerais e uma tristeza que o Cruzeiro lhe impôs. 

“Você sabe, eu tenho um carinho muito especial por Minas e por todo o povo mineiro. Mas Minas também já me fez sofrer muito. Eu sou santista e vi aquele Cruzeiro jogar, de Tostão, Dirceu Lopes, Piazza, Natal e tantos craques, vencer o meu time de uma forma tão absoluta. Uma das minhas maiores tristezas no futebol”, conta.  

“É interessantíssimo quando me falam a respeito do futebol e do porquê eu ter enveredado em outros esportes. Eu sou filho do jornalista Álvaro de Paes Leme, que presenciou o lançamento de Pelé no Santos e sempre trabalhou com futebol. Minha mãe jogava muito basquete, lutava judô. Hoje eu olho para trás e vejo, tenho essas lembranças, me recordo do Perfumo, jogador de grande qualidade técnica, de classe, que defendeu o Cruzeiro. O futebol é apaixonante. Mas o esporte olímpico é fascinante, primeiro pelo pouco dinheiro, depois pela superação, e terceiro pelas grandes histórias que ele nos proporciona. Se você pensar no Pelé, por exemplo, para os americanos existe um atletas que está no mesmo nível do Pelé, considerado o segundo maior de todos os tempos, Cassius Clay, que depois viria a ser Muhammad Ali. Em 1960, Cassius é ouro em Roma, mas ao voltar para casa, ele e os amigos foram impedidos de entrar em uma lanchonete no Alabama por serem negros. Em protesto e também raiva, ele pega a medalha que ganhou e joga no Rio Ohio, em um tempo que as medalhas não eram banhadas a ouro, mas possuíam muito ouro. Muitos já tentaram encontrar essa medalha no Rio Ohio, mas ela nunca foi encontrada. Este e vários outros exemplos são momentos da história olímpica que me afetaram bastante”, relata o jornalista. 

Todo sonho tem um início 

Para se constituir em uma ‘Enciclopédia do Esporte Olímpico’, Álvaro José teve referências. Primeiro em casa e depois na TV. Um velho conhecido da imprensa brasileira foi o ponto de partida.

“Olha, eu ficava maluco assistindo o ‘Esporte Espetacular’ com o Léo Batista contando as histórias dos grandes atletas olímpicos, eu inclusive já falei isso para ele. E aquilo me deixava encantado.. São momentos de superação que se entrelaçam com a história da humanidade. Os Jogos Olímpicos da Antuérpia, em 1920, celebraram o final da gripe espanhola e da primeira guerra mundial. Se você pensar sobre a primeira metade do século XX, os Jogos sempre se encontraram com algum tipo de simbolismo. Os Jogos de Berlim, em 1936, foram feitos para enaltecer os nazistas e acabou mostrando a força dos negros norte-americanos. Em 1948, a Olimpíada de Londres marcou o pós-segunda guerra. Quando eu entro na prévia do esporte olímpico, o legado de deuses e heróis, a mitologia e a origem em homenagem a Zeus, as incumbências passadas a Hércules e a tradição que chegou até a realização das Olimpíadas da Era Moderna. Por isso que me empolgo. E nós fazemos parte desta evolução. Os Jogos de Tóquio serão os jogos das mídias sociais, todo mundo está focado nas redes sociais e em novos canais, amparados pela TV e o rádio, que seguem como os grandes canais de divulgação, pois você está dirigindo em São Paulo, mas está conectado com informações trazidas pelo rádio. É uma rede que está conectada e mostra a própria evolução da humanidade”, pontuou Álvaro José. 

A Olimpíada em meio a uma pandemia  

Existem muitas dúvidas sobre os Jogos Olímpicos de Tóquio e a preparação para o evento, que acontecerá entre os dias 23 de julho e 8 de agosto. Álvaro José convive com essa expectativa e se prepara para as especificidades únicas da edição que lhe aguarda.

“É uma Olimpíada totalmente atípica. A primeira parte: passou para 2021 e mesmo com a mudança, a crise do coronavírus aumentou em vários países. Osaka não passou a tocha olímpica. Em Fukushima foi como se eles tivessem fechado o Parque do Ibirapuera, em São Paulo; a Lagoa da Pampulha, em Belo Horizonte; e fizeram o revezamento da tocha totalmente fechado e sem público. Mas a gente precisa lembrar: a pandemia não é a mesma no resto do mundo. Os jornalistas brasileiros irão, mas existe uma restrição natural para quem não tem os direitos de transmissão. O consulado japonês não está concedendo visto. As pessoas neste período teriam que obrigatoriamente viajar apenas com o passaporte do Japão, e mesmo com o passaporte diplomático, você depende de uma credencial de Autoridade do Comitê Olímpico para ingressar no país”, ressaltou. 

“A gente terá também uma diminuição das delegações. O COB anunciou o corte de programas como o ‘Vivência Olímpica’, quando atletas que não vão competir participam de treinamentos ao lado dos esportistas que disputarão provas; foi cortado também o ‘Família Olímpica’ e o programa dos ‘Embaixadores’, destinado a ex-atletas que acompanham a delegação brasileira. Presidentes de federações, confederações, dirigentes, não vão viajar. O corte na delegação será de 100 pessoas aproximadamente. Não tem o que fazer. Muita gente queria viajar, as próprias emissoras vão enviar o menor número possível de profissionais. Mas nós estaremos lá, mesmo que seja em pouca quantidade. Quando as pessoas falam comigo sobre o risco de viajar, eu respondo.’perigoso está aqui’. No Japão, eles ficam malucos quando, por exemplo, 600 novos casos são detectados. Já fecham a cidade e promovem medidas para conter a contaminação. Tenho certeza que os japoneses terão todos os cuidados possíveis para fazer desta uma Olimpíada segura”, complementou Álvaro José. 

Com presença assegurada em Tóquio, o jornalista planeja também investir nas redes sociais durante a cobertura olímpica. Ele já vem postando vídeos e curiosidades em seu perfil no Instagram e também elaborando vídeos em seu canal no YouTube. 

“Evidentemente que você não pode ligar o celular durante o evento. Vamos fazer o certo. Eu vou fazer as transmissões pelo Bandsports e devo ficar nessa história das bolhas. Vou para as Venues, como são chamados os locais de competição, e volto para o hotel com o transporte do Comitê Olímpico. No traslado, eu posso abrir o celular e interagir pelas redes. Quando chegar na arena, por exemplo, posso fazer aquela filmagem selfie, e vou contando uma história, e até mostrar bastidores da preparação da transmissão do Bandsports. Mostrar o outro lado, creio que o bastidor realmente faz uma diferença grande, Tóquio é uma capital bonita, mas em outra condição. Agora é momento de garantir nossa segurança, até porque o chip do celular vai também rastrear nossos movimentos e ninguém quer infringir as recomendações impostas pelos organizadores”, salientou. 

O Senhor Olimpíada 

Com dez Olimpíadas na carreira, é óbvio que Álvaro José guarda algumas edições com mais carinho na memória. Preferências que também significam momentos únicos na carreira do jornalista, que esteve ao lado de gigantes, dentre eles Luciano do Valle. E algo que sempre marcou Álvaro José foram as aberturas de Olimpíada, acumuladas desde Barcelona 1992, inclusive ele está empatado no quesito com Galvão Bueno.

“Cada Olimpíada é muito especial para mim, todas me deram experiências. Moscou 1980 foi a primeira. Fui pela rádio bandeirantes, era moleque, disposto, corria com o microfone para cima e para baixo. Já em Los Angeles 1984, tive uma experiência diferente. Pelo Show do Esporte, tive o privilégio de narrar o Joaquim Cruz faturando a medalha de ouro nos 800 metros. Eu e o Elia Júnior sem camisa no estádio olímpico, uma coisa que nós seríamos presos atualmente, mas naquela época não existia uma câmera que ficava posicionada na cabine. Estava todo mundo lá de terno e gravata em um calor terrível e nós sem camisa. Só assim para aguentar o sol de Los Angeles. Em Seul 1988, foi uma Olimpíada bonita, mas não foi tão marcante. Agora em Barcelona 1992 foi o máximo. Foi a primeira que fiz a abertura, estava ao lado de dois monstros do jornalismo, Armando Nogueira e Luciano do Valle, e eu repeti a dose em 1996, em Atlanta, quando fiz novamente a abertura com os dois”, relembrou. 

“Se fosse para escolher duas Olimpíadas marcantes, ficaria com Barcelona e Los Angeles. Sidney foi uma Olimpíada muito bem feita, mas não tão expressiva para mim. Porém, quando veio Atenas 2004, a minha satisfação foi total. Eu tenho fascínio pela história grega, a mitologia grega. A Grécia realizando uma Olimpíada foi algo espetacular, pude visitar locais incríveis, onde estiveram os primeiros pensadores da civilização, como Aristóteles, e Platão. Pequim 2008 foi uma edição muito especial, foi a última Olimpíada que fiz a abertura com o Luciano do Valle, daquela vez foi só eu e ele, um momento que guardo com enorme carinho. Fiz em Londres 2012 com exclusividade pela Record também ao lado de grandes amigos como o Maurício Torres (falecido em 2014). E vivi a Rio 2016, uma experiência totalmente nova para mim, fazendo uma Olimpíada dentro de casa, ao lado de grandes profissionais e amigos como o Ricardo Boechat e a Ana Paula Padrão. Foi, sem dúvida, uma das grandes aberturas que eu fiz na vida ao lado de Barcelona”, elenca Álvaro José. 

Histórias do Olimpo 

Álvaro José narrou os mais grandiosos momentos do esporte olímpico. Mas duas situações, em especial, ocupam um lugar cativo em sua trajetória. O primeiro envolve Joaquim Cruz e o ouro conquistado em Los Angeles 1984. 

“Eu fiz recentemente uma live dos 100 dias para os Jogos de Tóquio. Foi um vídeo aberto, com a participação de muitas pessoas que acompanharam as histórias. O Joaquim Cruz viu e me elogiou muito. Achei a mensagem dele espetacular. E isso me remeteu ao relacionamento de amizade que desenvolvi com ele em Los Angeles. As histórias que vivi foram várias, mas aquela prova dos 800m rasos em Los Angeles 1984, com o Joaquim Cruz batendo inclusive o Sebastian Coe, então recordista mundial e cotado para ser o presidente do COI, foi para mim inesquecível. Depois passei a ter muito contato com ele. Dos vivos, o Joaquim Cruz é o maior herói olímpico do nosso país”, exalta o locutor esportivo. 

A outra grande história de Álvaro José envolve o ouro de Rogério Sampaio no judô, nos Jogos Olímpicos de Barcelona 1992. “A outra história que guardo comigo é a luta do nosso CEO, do nosso diretor geral do COB (Comitê Olímpico do Brasil), Rogério Sampaio. Eu narrei e não vi a luta. O nosso editor, o Rogério Carnereiro, que foi árbitro de judô, estava próximo e foi me informando no ponto o que estava acontecendo na luta. Muita gente me pergunta, ‘como você não viu a luta?’ Mas a transmissão não era como é hoje. A câmera mostrava o tatame A, e a chave do Rogério Sampaio era no tatame B. As duas primeiras lutas dele eu narrei sem ver absolutamente nada. Foi a narração mais difícil que já fiz”, revela Álvaro José.  

A preparação 

Os esportes olímpicos sempre fizeram parte da vida de Álvaro José. Não foi difícil adquirir o conhecimento histórico, aliás, o estudo e o amor ao esporte sempre ocuparam boa parte da vida do jornalista. Ele contou ao ‘Pelo Mundo’ sobre sua preparação durante o ciclo olímpico e como define possibilidades por meio de análises e reviews que acompanham os esportes e atletas durante a jornada rumo aos Jogos. 

“A história (dos Jogos) já foi. Eu tenho na cabeça. Eu não preciso inventar nada. Eu acompanho muitas modalidades que posso transmitir e que podem ser um sucesso. Porém sempre tem aquelas surpresas, como um cara de Toga seminu no desfile na abertura. O resto do mundo acompanha também os esportes mais importantes. A gente sabe que os templos são a natação e o atletismo, passando pela ginástica, que é um esporte que dá muita audiência, e o basquete, por causa dos jogadores NBA. Nesta caminhada para a Olimpíada de Tóquio e a pandemia, a gente teve um número menor de competições. Dá para fazer um raio-x, mas claro, sem muito fanatismo e muita precisão. A gente tem que ter uma noção de quem é favorito, quem pode chegar, e tem que ir seguindo isso, além de desenvolver esse grau de dinamismo e empatia com o público. A gente vai acompanhando o ciclo, vai estudado, ver quem se classificou, os atletas à disposição ou se tem alguém que caiu fora. Esta vai ser a primeira Olimpíada deste novo milênio que não teremos Phelps e Usain Bolt. Isso representa demais no cenário mundial, pois eles são os grandes esportistas do milênio. Eu ainda estou torcendo para o Phelps aparecer em uma seletiva olímpica para participar de um revezamento no borboleta, por exemplo. Quem sabe. É direito dele. Mas uma coisa fundamental, o que não pode é a pessoa chegar despreparada a uma Olimpíada. Você precisa ter conhecimento daquilo que vai cobrir”, reforça Álvaro José. 

A previsão de medalhas para o Brasil em Tóquio 

Nos Jogos Rio 2016, o Brasil terminou a disputa com sete ouros, seis pratas e seis bronzes, números que colocaram o país na 13ª posição do quadro de medalhas e representaram a melhor participação do país em uma Olimpíada. Poderia ter sido melhor, é claro. Mas pensando em Tóquio e as dificuldades financeiras encontradas no atual ciclo olímpico, projetar uma delegação medalhada torna-se também um desafio. Mas Álvaro José está confiante de que a participação brasileira no Japão terá mais subidas ao pódio do que há cinco anos. 

“Realmente a preparação dos atletas brasileiros foi afetada com a pandemia e a diminuição do incentivo financeiro. Mas o Brasil, na minha opinião, pode ter um número maior de ouro. Nesta Olimpíada entraram novos esportes, como o surf masculino. Os previews olímpicos colocam o Medina e o Ítalo como candidatos ao ouro. As análises ainda colocam o Brasil descarado como candidato a pódio no skate. A regra do surf é parecida com a natação, já a regra do skate é parecida com o atletismo. O Brasil terá três homens e três mulheres no skate park, e três no skate street. Será uma equipe completa de 12 atletas. Só Brasil e Estados Unidos terão uma equipe completa, isso aumenta nossa chance de medalha. Você pega o preview olímpico, e a caminhada brasileira é muito boa. Temos a Kahena Kunze e a Martine Grael, que devem repetir a medalha na vela, da mesma maneira que temos um atleta ou outro com chances de ter uma grande performance. É claro que o Brasil teria mais chance em 2020. Nosso Arthur Zanetti, ouro nas argolas em Londres e prata no Rio, ficou mais velho, e o Robert Scheidt, nosso maior medalhista da história, e um dos cinco maiores velejadores de todos os tempos, são exemplos disso, do envelhecimento em relação à perda de um ano olímpico. Mas temos, sim, boas chances de sair de Tóquio com uma boa performance”, projetou o locutor esportivo. 

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Josias Pereira é repórter do Super FC e escreve sobre futebol internacional, um espaço voltado inclusive às ligas alternativas mundo afora, variadas modalidades esportivas, como basquete, futebol americano, beisebol, dentre outras, além de literatura e turismo esportivo.

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