Rodrigo Rodrigues
@otempo
02/03/21
17h04

Fora de jogo

Galo é condenado a pagar R$ 40 mil a jovem que ficou 13 meses em ‘teste’

Uma história cercada de contradições e mistérios, envolvendo o filho de um ex-vereador de BH e o Atlético, foi parar na Justiça do Trabalho

Jairzinho durante um treino na Cidade do Galo — Foto: Arquivo pessoal/Instagram
Rodrigo Rodrigues | @otempo
02/03/21 - 17h04

Um caso inusitado envolvendo o Atlético e um aspirante a jogador teve mais um capítulo no último 10 de fevereiro, quando a Justiça do Trabalho negou provimento ao recurso do Galo, mantendo a condenação de R$ 40 mil a ser paga a Jair Gregório de Souza Junior. O jovem de 21 anos afirma ter sido contratado em 7 de outubro de 2017, quando o clube era presidido por Daniel Nepomuceno, e dispensado em 23 de novembro de 2018, na gestão de Sérgio Sette Câmara. O alvinegro, por sua vez, alega que ele esteve apenas em período de testes e, ao não ser aprovado, foi dispensado.

A troca de versões foi parar na 2ª Vara da Justiça do Trabalho de Belo Horizonte, em 2 de julho de 2019. Na primeira audiência, Jairzinho cobrava R$ 71.519,57 do Galo. Entre idas e vindas, o Atlético foi condenado a pagar R$ 23 mil de indenização, em 6 de outubro do ano passado. Ambas as partes recorreram e o juiz de segundo grau reformou a sentença, aumentando a condenação do Galo para R$ 40 mil. No último 10 de fevereiro, o alvinegro teve outro recurso negado e o caso deve parar no Tribunal Superior do Trabalho (TST).

Embora a massa atleticana sequer tenha escutado falar em Jarzinho, o nome do rapaz já esteve envolvido em uma polêmica relacionada ao clube. Em março de 2018, o vereador de Belo Horizonte Gabriel Azevedo (Patriota) revelou que o rapaz havia conseguido uma oportunidade na categoria de base do Atlético, em troca do apoio político do seu pai, o então vereador Jair di Gregório (PSD), ao prefeito Alexandre Kalil (PSD) na Câmara da capital mineira. À época, o assunto foi negado por todos os envolvidos. 

Quando Jairzinho foi dispensado, mesmo sem ter sido formalmente contratado, ingressou com ação para cobrar o que ele considera devido. No processo, Graciela de Matos Gonçalves, advogada do jovem, argumenta que em 13 meses, seu cliente não recebeu um centavo do Atlético, mesmo sendo “contratado”.

Para fundamentar sua queixa, a advogada anexou ao processo fotos do então jogador durante treinamentos na Cidade do Galo, postadas nas redes sociais. Em uma delas, ele se apresenta como lateral-direito e volante.

Além de requerer o vínculo empregatício, Graciela acusa o Atlético de ter assinado a carteira de trabalho de Jair em março de 2018. Posteriormente, a anotação foi cancelada e o documento “rasurado”. O clube também disponibilizou um contrato especial de trabalho desportivo, que nunca foi registrado. O salário “acordado” seria de R$ 1,1 mensais.

“Com o nítido interesse de burlar a lei trabalhista, a lei Pelé e a lei previdenciária, o reclamado (Atlético) não forneceu ao reclamante (Jair) uma via assinada do referido contrato e, não bastasse, ainda cancelou o registro na carteira de trabalho quando o dispensou imotivadamente em novembro de 2018”, argumenta a advogada em sua petição.

Em resposta ao questionamento da Justiça do Trabalho, durante a tramitação do processo, a Federação Mineira de Futebol (FMF) informou que, em consulta ao banco de dados do sistema GestãoWeb da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), não encontrou nenhuma formalização de solicitação de registro de Jair feita pelo Atlético.

Contudo, ao verificar o sistema próprio de gestão E-Súmula, a FMF visualizou em sua base de dados o início de solicitação de registro. O procedimento, porém, nunca foi concluído.

No arquivo da FMF consta um único registro de contrato de Jairzinho, feito com o Villa Nova, com duração de 30 de maio de 2017 a 30 de agosto do mesmo ano. Em Nova Lima, não se tem notícia que o atleta tenha vestido a camisa do Leão do Bonfim. “Na época, ele ficou apenas treinando, a pedido de alguém ligado politicamente ao clube”, informou um funcionário, que pediu para não ser identificado.

Defesa alvinegra

Em sua defesa, o Atlético afirma que Jairzinho nunca exerceu atividade profissional na equipe, mesmo tendo participado de treinamentos e jogos amistosos, nos 13 meses que frequentou a Cidade do Galo. Pessoas que trabalham diretamente com futebol afirmam, de forma peremptória: nenhum atleta fica por tanto tempo em período de avaliação.

Sobre a anotação na carteira de trabalho, posteriormente cancelada, o clube argumenta que o registro ocorreu por um equívoco de setores inferiores e pressão indevida feita pelo próprio atleta e pessoas que o assessoravam.

“Em outras palavras, o atleta se encontrava em processo de seleção para aprovação ou não, tendo as pessoas que o auxiliavam (pais, empresários, etc), e não vinculadas ao clube, utilizado de mecanismos para tentar exercer pressão sobre os setores inferiores do clube, de modo que, quando o caso chegou ao conhecimento da presidência, esta concluiu que o atleta não havia sido aprovado por todos os setores competentes, razão pela qual desautorizou a sua admissão - que nunca chegou a ocorrer”, sustentam os advogados do Galo na ação.

Acidente de trabalho?

Além de requerer o reconhecimento do vínculo trabalhista, a advogada acusa o Atlético de não ter contratado seguro de vida e acidentes pessoais. Em sua narrativa, o rapaz fraturou o pé durante um treino, em abril de 2018, tendo ficado afastado das atividades até julho do mesmo ano. Nesse período, foi submetido a tratamento na Cidade do Galo, diariamente.

“O reclamante ia todos os dias ao CT para fazer fisioterapia. O clube disponibilizou bota, muleta, medicamentos, profissionais de saúde e fisioterapia. Receitas médicas comprovam que o atleta foi avaliado por médico do clube. Porém, embora afastado de suas atividades por mais de 15 dias, o reclamado não encaminhou o reclamante para o INSS e não emitiu o CAT (Comunicação de Acidente de Trabalho)”, descreve a representante de Jairzinho.

O Atlético contesta a versão apresentada por ela. Nega ter havido lesão enquanto permaneceu em “testes” e que tenha se afastado dos treinos, devido a acidente de trabalho, ainda mais no período superior a 15 dias.

As prescrições médicas anexadas pela advogada ao processo não informam se realmente houve a contusão apontada (fratura no quinto metatarso). Outras eventuais provas como laudo médico e exames de imagem também não fazem parte do material.

As duas receitas médicas para comprovar que o atleta foi avaliado por médico do clube chamam a atenção pelas datas e prescrição. Ambas são assinadas por um médico alvinegro. Na primeira, de 24 de abril de 2018, o medicamento indicado é paracetamol, para ser “tomado de seis em seis horas, em caso de dor ou febre”.

A segunda é, no mínimo, inusitada. A prescrição é para Dalacin T, antibiótico que combate infecções causadas por bactérias. “Passar nas lesões de acnes uma vez por dia após o banho noturno”, recomenda. Além de o receituário apresentado não ter qualquer relação com a lesão informada, é datado de 27 de agosto de 2018, período superior ao alegado para o tratamento.

Fim do sonho e nova carreira

Em 6 de agosto de 2019, a CBF publicou no Boletim Informativo Diário (BID) o registro de contrato profissional nº 1610066/MG entre Jairzinho e o Minas Boca, que disputava a Segunda Divisão do Campeonato Mineiro daquele ano.

Do dia em que o vínculo entrou em vigor até 15 de setembro, quando a equipe de Sete Lagoas encerrou a participação na competição, o jogador não foi relacionado para nenhuma das seis partidas.

“Quando o nome dele foi liberado no BID (Boletim Informativo Diário), falou que não iria jogar mais para se dedicar aos estudos”, informou o então treinador do Minas, Rogério Rodrigues.

No mesmo ano, após deixar o Minas Boca, Jairzinho ainda fez uma nova tentativa no futebol. Passou por um período de testes no América, conforme revelaram pessoas próximas a ele, contudo, sem sucesso.

Com a idade “estourada” para jogar na base e sem contrato de profissional, o rapaz escolheu outro caminho e, desde 2020, é aluno do curso de fisioterapia.

A sentença

A 11ª Primeira Turma do Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região condenou o Atlético a pagar:

-  salários (férias + 13º + FGTS + multa) relativos ao período de 7/10/2017 a 23/11/2018;

-  reparação por danos morais;

- indenização pela não contratação de seguro contra acidentes;

Valor arbitrado à condenação: R$40 mil.

O que dizem os envolvidos

Procurado pelo SuperFC, o Atlético não retornou o contato até a publicação desta reportagem. O mesmo ocorreu em relação à advogada que representa Jairzinho no processo.

---

Em tempos de desinformação e pandemia, o jornal O TEMPO reforça o compromisso com o jornalismo mineiro, profissional e de qualidade. Nossa redação produz diariamente informação responsável e que você pode confiar. Continue nos apoiando. Assine O TEMPO.

Escreva um comentário
Comentar
Log View
Vem ser Premium!
Seja Premium
Salve matérias
Você poderá salvar as matérias para ler quando e onde quiser.
Matérias Premium
Veja as matérias exclusiva para usuários premium.
Notificações
Receba notificações de novas matérias do seu time do coração.
Av. Babita Camargos, 1645 - Contagem Minas Gerais - CEP: 32210-180
+55 (31) 2101-3000