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Obdulio Varella
Jules Rimet desceu ao gramado para entregar a taça a Augusto, mas ela acabou nas mãos de Obdulio Varela
Foto: Divulgação/Fifa
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Wallace Graciano
16/05/18 - 08h00

A cena se passa no Rio de Janeiro, no dia 16 de julho de 1950, mais precisamente no início da manhã. A aura que se espalhava na “Cidade Maravilhosa” era de pura euforia. Afinal, logo mais, às 15h, o Brasil entraria no gramado do Maracanã para confirmar o status de favorito e conquistar pela primeira vez a Copa do Mundo. Para tal, bastava um mero empate contra o Uruguai. Pouco para quem goleou a Suécia (7 a 1) e Espanha (6 a 1) dias antes. Não à toa, os jornais já celebravam os jogadores e estampavam manchetes como “Estes são os campeões do mundo”. O dia começara estranho.

Dois dias antes, a seleção deixara a concentração na Casa dos Arcos, no bairro de Joá, e rumou ao estádio de São Januário, onde teria maior possibilidade de ser celebrada por políticos que faziam das visitas um palanque visando a eleição presidencial, que aconteceria daqui 90 dias. Tentando fugir daquele oba-oba, Flávio Costa levou seus comandados ao Maracanã logo após o almoço, tentando concentrá-los para a partida de logo mais. Em vão. No vestiário, os jogadores também foram constantemente visitados minutos antes da partida.

Porém, engana-se que a euforia demasiada e a mistura política eram os principais adversários da seleção brasileira naquela tarde. Do outro lado havia um forte Uruguai, que naquela década enfrentou o Brasil em 18 oportunidades, com oito vitórias tupiniquins e seis platinas. O último embate, no Pacaembu, 72 dias antes daquele duelo decisivo, terminou com vitória da Celeste por 4 a 3.

E bastou a bola rolar para que ficar claro que a euforia foi exagerada e imprecisa. O primeiro tempo do embate foi combativo, tal qual o histórico recente apontava. Ainda que o Brasil criasse as chances de maior perigo, o domínio era estéril. Porém, bastou o ponteiro do relógio dar duas voltas na etapa complementar, para o clima de êxtase voltar à torcida brasileira. Friaça recebeu lançamento de Ademir e bateu cruzado para pegar Máspoli no contrapé.

Apesar do golpe, o Uruguai manteve-se de pé, graças, principalmente, a Obdulio Varela. Capitão da Celeste, “El Negro Jefe” pegou a bola e gritou aos companheiros, exigindo uma reação imediata. Ela veio. Os platinos saíram em busca do gol de empate e conseguiram aos 21 minutos, após bela jogada de Ghiggia, que avançou pela ponta direita e cruzou rasteiro para trás, encontrando Schiaffino, que bateu com precisão para vencer Barbosa.

Apesar do empate, o Brasil ainda mantinha-se campeão com aquele resultado. Porém, o que se viu depois foi um maior ímpeto uruguaio, que aos 34 min culminou em um dos lances mais emblemáticos da história do futebol. Após receber bola em profundidade de Perez, Ghiggia deixou Bigode na saudade e chegou novamente à ponta da área, assim como no primeiro gol. Porém, desta vez, em vez de tocar para Schiaffino, que novamente vinha fechando pelo meio, arriscou um chute cruzado, uma vez que Barbosa deu um passe para tentar evitar o cruzamento. O que passou entre a trave e goleiro brasileiro não foi uma bola, foi uma tragédia. O Maracanã sentia em peso o impacto daquele gol. A euforia de outrora, com a certeza do título iminente, transformou-se em desilusão.

Presente no jogo, o falecido poeta Carlos Heytor Cony, que à época tinha 24 anos, certa vez contou o impacto daquele gol nas arquibancadas do Maracanã. “Dizem que o silêncio não tem voz. Que silêncio é silêncio… Foi talvez o barulho pior que ouvi na minha vida. Foi um silêncio que vem de dentro, apocalíptico, de ‘amargedão’. Parecia que o mundo todo tinha parado. Foi a primeira vez que como adulto eu chorei. Chorei com a impressão de que não tinha mais nada para fazer na vida. Que os meus dias na terra não contavam mais. Isso foi um sentimento geral e custou muito a digerir”, testemunhou.

Dali em diante, a seleção brasileira não conseguiu reagir em campo. Jules Rimet, então presidente da Fifa, havia descido minutos antes para entregar a taça que levava seu nome a Augusto, capitão da seleção brasileira. No gramado, foi Obdulio Varela que a recebeu de suas mãos em meio ao silêncio sepulcral que tomava conta do estádio. Nascia o “Maracanazo”, a maior tragédia da história do futebol brasileiro.

 

FICHA TÉCNICA

BRASIL 1 X 2 URUGUAI

BRASIL: Barbosa, Augusto e Juvenal; Bauer, Danilo Alvim e Bigode; Friaça, Zizinho, Ademir, Jair e Chico. Técnico: Flávio Costa

URUGUAI: Máspoli, Matias Gonzáles e Tejera; Gambetta, Obdulio Varela e Rodríguez Andrade; Alcides Gigghia, Julio Perez, Miguez, Schiaffino e Morán. Técnico: Juan López

Gols: Friaça, aos 2 min, Schiaffino, aos 21 min, e Ghiggia, aos 34 min do segundo tempo

Data: 16 de julho de 1950

Motivo: Terceira rodada da fase final da Copa do Mundo

Local: Maracanã, no Rio de Janeiro

Árbitro: George Reader (ING)

Público: 173.830

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JOGOS HISTÓRICOS

Brasil 1 x 2 Uruguai - Maracanazo
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