Cadu Doné
@otempo
14/06/21
03h00

Depressão celeste

A crise do Cruzeiro, pela sua longevidade, pelo seu caráter multifacetado, fornece vasto material para elucubrarmos acerca do comportamento de multidões

Cadu Doné | @otempo
14/06/21 - 03h00

Depressão celeste

A relação do futebol com o mundo intelectual, as abordagens profundas, sempre foi errante, controversa. Juca Kfouri frequentemente nos brinda com debates que tocam esta alçada: afinal, o ludopédio não passa de entretenimento alienante, uma forma de poderosos nos entorpecerem com pão e circo, ou, enquanto manifestação extremamente popular, há de funcionar qual espelho fidedigno dos dilemas da nossa comunidade, até da condição humana? Em meio a esta estimulante e eterna arenga, fato é que rareiam na imprensa recortes do esporte bretão atravessados pela filosofia, pela sociologia. A crise do Cruzeiro, pela sua longevidade, pelo seu caráter multifacetado – envolve bola, política, finanças, ética –, e pela reação do povo celeste a este marasmo outrora inimaginável, fornece vasto material para elucubrarmos acerca do comportamento de multidões.

 

Impotência

Existe um movimento que, paulatinamente, nos últimos dois anos, anda se consolidando sorrateira e escancaradamente, gravíssimo, e que permanece ignorado: há um largo contingente de cruzeirenses que já cruzaram a fronteira da raiva, e, hoje, flanam anestesiados pelo território do esgotamento, da resignação, e, consequentemente, do abandono. O próprio clube não pode perder a sensibilidade de captar esta materialização. Se o torcedor joga a toalha, passa a preencher seu tempo consumindo outros produtos, criando novos hábitos, recorrendo a diferentes distrações, o engajamento geral com a marca corre o risco de dissolver-se significativamente.

 

Desinteressada

O elo com o futebol, sobretudo no Brasil, onde o estreitamento do compromisso com a modalidade não costuma se dar envolvo num tecido emaranhado de cultura, em que o vínculo com o jogo se restringe, via de regra, a uma abordagem estritamente visceral, e não desinteressada – como Schopenhauer reputaria à genuína fruição artística –, a dependência de um amplo universo de fãs para o sucesso, a permanência das agremiações, revela-se gigantesca. Simpatizantes e fidelidade não entram na mesma frase.

 

Fanatismo

O desânimo da nação cinco estrelas não esbarra, sequer longinquamente, em qualquer traço/culpa deste público, em si. Os contornos de crueldade que atingiram a derrocada da Raposa em períodos recentes arrasariam os corações dos adeptos de qualquer camisa que enverga varais em terras tupiniquins de modo essencialmente análogo. Não é “só” o insistente, o teimoso fracasso em campo. São os detalhes. Cartolas inqualificáveis dilapidaram a própria aura da instituição de tal maneira que...

 

Entregues

Todo o descrito quadro de abatimento abarca, em determinada acepção, qual uma melancolia inaudita, metafísica, intangível, os atletas no gramado, sobretudo quando uma adversidade se impõe – sair atrás no placar, por exemplo. Esta moléstia não nasce da falta de raça, não vige necessária e concomitantemente à carência de pegada, interesse. O livre-arbítrio humano pode bem menos diante das nossas inclinações volitivas do que supõe a vã arrogância antropocentrista.

 

Impossível

Quase impossível para os jogadores se descolarem de todo um contexto cuidadosamente edificado. A aflição é uma bola de neve...

 

Salvação?

Do mesmo jeito que a agrura crônica se retroalimenta, um ponto de inflexão carrega potencial de desencadear espiral positiva.

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