Cadu Doné
22/09/21
03h00

Cadu Doné

Estamos perdidos

Há muito tempo escuto de especialistas de várias áreas dizendo que o futebol precisa se adaptar à cultura de atenção errante dos jovens, dos chatos millenials, mergulhados na lama das redes sociais

Cadu Doné
22/09/21 - 03h00

Estamos perdidos

Há muito tempo escuto de especialistas de várias áreas – inclusive do Vale do Silício, da pulsante Austin, outrora Meca dos indies, hoje talvez acima de tudo um refúgio para startups que não suportaram os altos preços e a gentrificação da Califórnia (e atualmente, em doses menores, passou a viver os mesmos problemas) –, sujeitos com níveis intelectuais distintos, dizendo que o futebol precisa se adaptar à cultura de atenção errante dos jovens, dos chatos millenials, mergulhados na lama das redes sociais, muitos tarados por games, incapazes de ler um livro de mais de duas páginas, de julgar uma matéria além do seu título. Florentino Pérez, um dos principais artífices da malfadada Superliga, utilizava esse fundamento para colar sua competição que afastava qualquer centelha de esportividade, isolava a tradição, o charme, a meritocracia.

Jogo longo

Para se adaptar à nossa sociedade anti-intelectual, a um planeta esfacelado eticamente – e isso atinge tanto o jornalismo mundial quanto o local (Minas é um exemplo disso; uma selva de pedras de pessoas limitadas dispostas a fazer qualquer acordo com indivíduos que odiavam para receber qualquer migalha) –, o futebol teria de diminuir o tempo dos jogos. Nossos futuros adultos não aguentariam se concentrar num evento de 90 minutos. Tema instigante. Com boa dose de verdade. Emblemático. E que diz mais a respeito das fricções de uma sociedade doente, em frangalhos, do que sobre o apaixonante ludopédio. Mas o tópico gera diversos contrapontos.

Relativizações

Comparado a outras modalidades, o futebol tem duração curta. Poderia elencar exemplos até o final desta coluna. A NFL é um sucesso com partidas que chegam a durar mais de três horas. Sublinhemos contrapontos: os americanos, em todos os seus principais esportes, carregam o hábito de chegar atrasados, sair antes do apito final e abandonar suas cadeiras para se empanturrarem de Nachos, cachorros-quentes e refrigerantes gigantes. O beisebol, nem se fala. Quatro, cinco horas. Uma eternidade.

Minha paixão

Ao beisebol e à NBA – confrontos mais curtos do que os da MLB, porém mais longos do que os do futebol –, caberiam relativizações da ordem que já citamos. E o tênis? Minha paixão. Um deleite jogar e assistir. Semifinal do recente US Open: Djokovic passa por um valente e talentoso Zverev em batalha épica de quase três horas. Levantei uma vez do sofá para pegar um refrigerante no intervalo. Obsessivamente, não perdi um segundo do embate. Quem se comporta assim? A poesia está na construção.

Provas

Notamos que o caldo entornou quando testemunhamos os privilegiados do Arthur Ashe levantando toda hora. Voltando com snacks que não são capazes de segurar. Isso, no tênis, interfere no embate. Falta de educação. A partida é parada em função da movimentação intensa. Djokovic fica irritadíssimo. Wimbledon, que já testemunhou um Federer e Nadal cuja beleza e emoção talvez tenha sido uma das maiores da história de qualquer esporte, costuma ter condutas melhores.

Idiotização

Sintoma que se relaciona com as possíveis mudanças nos esportes: Hollywood e seus filmes “para adultos” infantilizados, curtos.

Continuar

Precisarei continuar esta discussão em outras colunas. Assunto muito complexo para esgotarmos em um texto. Salve-se quem puder.

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