Daniel Ottoni
@dottoni
10/05/21
14h09

Entrevista com autor

Livro 'Ímola 1994' conta histórias de bastidores da cobertura da Fórmula 1

Jornalista Flávio Gomes é um dos maiores especialistas do Brasil no assunto depois de trabalho inloco em GP´s entre 1988 e 2005

flavio gomes imola 1994
Livro termina na fatídica cobertura do GP de Ímola, em 1994 — Foto: Divulgação
flavio gomes
Flávio teve privilégio de ter contato profissional próximo de grandes referências da F1 — Foto: Divulgação
Daniel Ottoni | @dottoni
10/05/21 - 14h09

Cobrir a Fórmula 1 inloco por quase 20 anos deu ao jornalista Flávio Gomes uma experiência profissional e pessoal que poucos têm a oportunidade. 

Apaixonado por automobilismo desde sempre, Flávio é um dos grandes especialistas no assunto em território nacional, estando presente em cerca de 250 GP´s. E foi privilegiado por ver de perto fenômenos da principal categoria do planeta, brasileiros ou não. 

No livro 'Ímola 1994', Flavinho, como também é conhecido, conta boa parte das suas coberturas, terminando no trágico GP em que Ayrton Senna se acidentou antes de falecer. 

Com um texto fácil de ser 'devorado', Flávio divide com os leitores histórias que muitos gostariam de estar presentes, agora em um outro período da carreira, sem vínculo direto com algum veículo de comunicação e com dedicação total ao novo 'filho', que tem exigido idas e vindas aos Correios. 

A obra pode ser adquirida neste link - https://gullivereditora.com.br/produto/imola-1994/

Abaixo, confira entrevista exclusiva da Coluna Esportivamente com o autor:

Há quanto tempo você cobre automobilismo?

Desde 1988, considerando a primeira cobertura que fiz para a 'Folha' de um GP de Fórmula 1, no Rio.

Quanto tempo de cobertura inloco?

Direto, de 1988 a 2005. Fui a quase todas as corridas do Mundial nesse período. Mas continuo cobrindo algumas provas nos autódromos, todas no Brasil, uma ou outra na Europa.. Foram mais de 250 GPs de F-1 nesse período todo.

Trabalho de quem cobre F1, hoje, é menos complicado do que em uma época sem internet?

Não é menos complicado, é apenas diferente. Hoje, por exemplo, quem cobre para veículos da internet é obrigado a fazer tudo em tempo real, algo que no passado só era necessário em rádio e TV. Agora, falando em tecnologia, claro que as comunicações antes da internet eram muito mais complicadas. Nesse sentido, sim, era bem mais difícil.

Alguma temporada de cobertura inloco mais memorável? Por que?

Gosto particularmente do Mundial de 1997. A disputa entre Schumacher e Villeneuve foi muito intensa, eram pilotos de equipes diferentes, um duelo que se arrastou até a última corrida do ano e teve lances históricos, como a própria decisão em Jerez.

Como está sendo essa rotina de entrega e envio dos livros?

Tem sido bem maluca. Foram dois mil e quinhentos livros vendidos em uma semana e, como todos foram pagos na pré-venda, estou autografando e fazendo dedicatórias em todos. Um por um. É um trabalho insano. Mas recompensador, porque as pessoas querem o livro, querem essa relação mais próxima com o autor. Já gastei duas canetas Bic e o pessoal dos Correios não aguenta mais ver minha cara e a da minha namorada, que tem ajudado muito.

Críticas dos fãs de Ayrton Senna é apenas um pequeno resumo do extremismo que tomou conta do Brasil na atualidade?

Ah, sei lá. Acho gente fanática muito chata. Fanáticos são extremistas por definição. E cegos, obtusos. Não dou muita bola. Extrapolar esse fanatismo pelo Senna para o momento que o Brasil vive é tentador, mas prefiro não fazer isso. Acho que as questões ligadas a essa tragédia que virou o Brasil sob esse governo genocida e medieval são muito mais importantes do que a devoção a um piloto de corrida.

Na sua opinião, qual foi o maior piloto brasileiro de F1 da história? Por que?

Costumo dizer que Emerson foi o mais importante, Piquet o mais interessante e Senna, o melhor. E como costumo aplicar critérios objetivos para avaliar os melhores, para concluir que Hamilton é o maior de todos os tempos, tenho de fazer o mesmo em relação aos brasileiros. Os números de Senna são superiores aos de Emerson e Piquet.

Mudou algo pra você, como repórter, após a cobertura de Imola 1994?

Mudou tudo. Saí da 'Folha', montei minha agência de notícias, e a própria cobertura de F-1 no Brasil mudou sem a presença de um piloto lutando para ser campeão. Mas a vida é assim, as coisas mudam o tempo todo.

Falta, nos dias de hoje, mais repórteres de veículos brasileiros, cobrindo inloco a F1? Por que contexto hoje é diferente de outras épocas?

Ah, mudou tudo. Os veículos de imprensa são outros, a necessidade de viajar é menor, a exigência do público é diferente. Digamos que hoje se produz e se consome informação de um jeito diferente.

Chegou a ter atrito com pilotos criticados por vocêc com os quais vc tinha uma relação mais próxima? Deles não entenderem sua posição profissional, etc...

Se tive, não fiquei sabendo. Nunca tive relação próxima com nenhum. Tenho por princípio manter um distanciamento seguro das pessoas sobre as quais tenho de falar ou escrever.

Era tranquilo pra você separar a parte profissional da relação pessoal que, porventura, tinha com alguns pilotos?

Sempre separei. Minha relação pessoal é com leitores, ouvintes, telespectadores. A eles devo satisfações. Não aos personagens de minhas matérias e análises.

Saber tirar foto era um dos seus diferenciais?

Não sou fotógrafo. Mas quando precisava fazer as duas coisas, escrever e fotografar, fazia. Só que o resultado não era o mesmo, claro, daquele obtido por profissionais da área. Sou daqueles que ainda defende a dupla repórter-fotógrafo. O trabalho conjunto é muito melhor.

Pilotos de antigamente, pela falta de tecnologia, eram mais apurados? Dificuldade era maior naqueles tempos?

Isso é bobagem. Nunca faltou tecnologia num carro de F-1. Ela apenas evoluiu. Mas, em cada época, os pilotos guiaram o que de mais moderno havia em termos tecnológicos. Guiar um F-1 era tão difícil em 1950 como é em 2021. A maneira de guiar e de operar um carro pode ter mudado, claro, porque eles foram se transformando ao longo de tempo. Isso vale para carro de rua, avião, ônibus, trator e caminhão.

O que acha do saudosismo de muitos que pararam de ver corridas de F1 após morte do Senna?

Acho que essas pessoas não gostavam de F-1, mas sim de ver brasileiro ganhar. E podia ser numa pista, num jogo de peteca ou numa partida de futebol de areia. É típico do brasileiro se apropriar das vitórias dos outros e se sentir um vencedor igual, se achar representado. Patriotismo besta, ufanismo medíocre.

Livro com quantos exemplares? Quantos vendidos?

A tiragem inicial foi de três mil exemplares. Vendemos todos.

Portuguesa é uma paixão do tamanho da F1?

Não, gosto muito mais da Portuguesa do que qualquer outra coisa ligada a qualquer esporte.

Segue com o site Grande Prêmio? Presta serviço para algum outro veículo atualmente?

Eu criei o site nos primórdios da internet, em 1996, e em 2016 repassei o negócio aos meus funcionários. Hoje colaboro, apenas, sem remuneração. E depois que saí da Fox resolvi dar outro rumo à vida. O que significa que por enquanto não tenho planos de trabalhar para mais ninguém na área. A comunicação mudou muito e não tenho saco para concorrer com esse tsunami de gente produzindo 'conteúdo' achando que está fazendo jornalismo. Jornalismo é outra coisa. Acho que fiz bastante por ele e ele, bastante por mim. Por ora, vou ficar no meu canto.

 

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Esportivamente

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Daniel Ottoni é repórter de esportes especializados do jornal O Tempo, do portal Super.FC e da rádio Super. Com experiência de cobertura em Copa do Mundo, Olimpíada e Mundiais de vôlei, tem uma predileção por bastidores e lado B. Por aqui, espaço para os esportes que têm uma religião chamada futebol como concorrente em muitos momentos.

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