Daniel Ottoni
@dottoni
29/07/21
11h17

Crônica

Paixão frustrada virou eliminação injusta como forma de vingança

Juiz de judô descontou 'rasteira' de brasileira na primeira oportunidade que teve em torneio internacional

Daniel Ottoni | @dottoni
29/07/21 - 11h17

Depois de anos como atleta e treinador, veio a esperada aposentadoria dos tatames. Teve uma carreira mediana como atleta e sem grande destaque como técnico, muito em virtude da pouca tradição do seu país no judô. Mas tinha vivido do esporte por muitos anos, um sonho de criança, era feliz com suas realizações.

Agora, era o momento de descansar. Viúvo, voltou sozinho para o litoral paradisíaco onde tinha passado a lua de mel com sua esposa 40 anos atrás.

Foi ali que nova paixão arrebatadora aconteceu. Uma brasileira atravessou seu caminho como um ippon nos primeiros segundos de luta. Foram 15 dias intensos, com um desfecho inesperado.

Acordou no quarto de hotel quase vazio, sem carteira, dólares, algumas joias e até seu passaporte. Caiu no conto do vigário, foi passado pra trás e se sentiu um otário. Demorou meses para se recuperar da paixão de um adolescente, mesmo com os cabelos grisalhos ocupando toda a cabeça. 

A vontade de descontar lhe despertou quando foi convidado para ser um dos árbitros do Pré-Olímpico no seu país. Esperou como nunca o momento de um brasileiro estar em uma luta sob seu comando. 

Logo na final, a decisão estava em suas mãos, com o critério subjetivo do judô sendo um aliado para tentar pôr um fim na raiva que criou do povo brasileiro por conta de uma única pessoa.

No golden set, ignorou golpe do brasileiro, preferiu não rever o lance e deixou o combate rolar, até os dois judocas ficarem exaustos. Foi punindo um, o outro, até chegar o momento esperado de eliminar o brasileiro por falta de combatividade, como ele havia planejado desde o início.

A revolta foi grande do judoca brasileiro e o gosto na boca do experiente árbitro era de vingança plena. Como se aquilo fosse resolver o seu passado e limpar os fantasmas da sua cabeça. Uma forma infantil de tentar fazer as pazes com seu interior, quando na verdade só tinha piorado tudo que sentia, ainda mais depois de uma carreira onde um Pré-Olímpico nem havia chegado perto. Se apequenou da pior forma, foi covarde. 

Demorou anos para assimilar o seu feito. Sabia que não havia agido da maneira correta, o ímpeto falou mais alto e não sabia como se desculpar ou corrigir o erro. O castigo com o judoca brasileiro já estava feito e a entrevista que deu de pouco adiantou, servindo apenas para manchar seu ato e colocar um fim na carreira, que terminou de forma ainda mais amarga que o amor passageiro na praia de sua lua-de-mel. 
 

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Esportivamente

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Daniel Ottoni é repórter de esportes especializados do jornal O Tempo, do portal Super.FC e da rádio Super. Com experiência de cobertura em Copa do Mundo, Olimpíada e Mundiais de vôlei, tem uma predileção por bastidores e lado B. Por aqui, espaço para os esportes que têm uma religião chamada futebol como concorrente em muitos momentos.

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