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Garrincha URSS
Garrincha e mais um "João" pelo caminho. O futebol teve naquele dia seus três minutos mais fantásticos
Foto: Divulgação/Fifa.com
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Wallace Graciano
17/05/18 - 08h00

Noite de 13 de junho de 1958. Chefe da delegação que rumou à Suécia, Paulo Machado de Carvalho recebia em seu quarto o técnico da seleção brasileira, Vicente Feola, o psicólogo do escrete canarinho, Paulo Carvalhaes, além de Bellini, Nilton Santos e Didi, líderes da equipe. Juntos, eles tentavam procurar uma solução para a atuação aquém do esperado contra a Inglaterra, dias antes, na segunda rodada da Copa do Mundo. Aquela reunião mudou para sempre os rumos do futebol.

Após horas de conversa, ficou decidido que para o jogo contra a URSS, que aconteceria dois dias depois, a seleção canarinho entraria em campo com Zito no lugar de Dino Sani, uma vez que o volante do Santos daria maior possibilidade para Didi flutuar no setor. Como Mazola fora vendido pouco antes da Copa para o Milan, da Itália, e havia um temor de que ele “tirasse o pé”, ficou acertado que Pelé tomaria sua vaga, uma vez que o garoto de 17 anos já estava recuperado de uma contusão muscular. Por último, Joel, apesar de ser um ótimo ponta-direita, seria sacado para que Garrincha surpreendesse os soviéticos.

A mudança não era à toa. Técnico da URSS, que dois anos antes faturou o ouro olímpico, Gavril Katchalin tinha ao seu dispor uma incrível base de dados que, segundo ele, lhe dava um controle absoluto do jogo. Era a ciência pura, justamente o que o Brasil tentava romper. Para Carvalhaes, que antes chegou a sugerir a desconvocação de Garrincha, uma vez que o achava “um adulto com mente de criança”, o escrete canarinho precisava colocar seu lado instintivo em campo e ninguém seria melhor que o camisa 11.

Decisão tomada, Vicente Feola comunicou aos jornalistas que a seleção brasileira treinaria no período da tarde na véspera do jogo. Pela manhã, fez um treino secreto, testando a nova formação e exigindo que as primeiras bolas fossem direcionadas por Didi a Garrincha. O objetivo era massacrar o adversário e acuá-lo logo de início. Foi o que se viu no estádio Nya Ullevi.

Tão logo a bola rolou, Didi lançou Garrincha na extrema direita. Ao receber a pelota, o camisa 11 foi para dentro de Kuiznetzov, deixando o lateral soviético confuso com a sequência de quatro dribles. No quinto, a marcação ficou na saudade e ponteiro arriscou um potente chute, que carimbou em cheio a trave de Yashin.

Do banco, Katchalin não entendia o porquê de Joel ter sido sacado. E não teve muito tempo para assimilar o primeiro golpe e a presença de Garrincha, pois, na sequência, foi a vez de Didi receber pelo miolo e lançar Pelé, que voltou a carimbar o poste.

Eram três minutos e a URSS não sabia como lidar com aquela blitz canarinho. Foi então que Didi, que estava com mais liberdade graças à entrada de Zito, recebeu bola no meio e de um belíssimo passe de trivela para Vavá. O “Peito de Aço” recebeu de frente para o crime e não perdoou. 1 a 0.

Idealizador da Taça dos Clubes Campeões Europeus, que futuramente seria chamada de Liga dos Campeões, o jornalista Gabriel Hanot, que estava no estádio, escreveu após a partida que “aqueles foram os melhores três minutos que o futebol já presenciou”.

A URSS demorou para assimilar a paulada que tomara momentos antes. Atônita, só conseguiu se recuperar em meados da partida e chegou a mostrar o porquê de tanto temor da seleção brasileira dias antes. Porém, além do estilo de jogo combativo, o escrete canarinho tinha ao seu dispor a qualidade técnica destoante, que voltou a fazer a diferença aos 31 min da segunda etapa, quando Vavá trocou passes com Pelé e chutou de primeira ao receber na entrada da área para dar números finais ao duelo.

Os 2 a 0 aplicados pela seleção brasileira em cima dos soviéticos não foi uma mera vitória. Foi um grande cartão de visitas daquela que talvez seja a dupla mais fantástica que já desfilou seu talento em Mundiais. Nada mais seria como antes.

FICHA DE JOGO

BRASIL 2 X 0 URSS

Brasil: Gilmar; De Sordi, Orlando, Bellini, Nilton Santos; Zito e Didi; Garrincha, Vavá, Pelé e Zagallo. Técnico: Vicente Feola

URSS: Iashin; Voinov, Kesarev, Krizhevski e Kuznetsov; Netto e Tsaryov; Valentin Ivanov; Aleksandr Ivanov, Simonyan, Ilyin e Tsaryov. Técnico: Gavril Katchalin.

Gols: Vavá, aos 3 min do 1º tempo e aos 31 min do 2º tempo

Data: 15 de junho de 1958

Motivo: Terceira rodada do Grupo D da Copa do Mundo

Local: Estádio Nya Ullevi, em Gotemburgo (Suécia)

Árbitro: Maurice Guigue (França)

Público: 50.000 pessoas

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Brasil 2 x 0 URSS – Os três minutos mais encantadores da história
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