Josias Pereira
@supernoticiafm
12/02/19
08h40

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Especialista analisa empréstimo de R$ 300 mi aprovado pelo Cruzeiro; entenda detalhes

Lado financeiro do clube vem sendo um dos graves problemas desde o aumento das dívidas com vários credores na "Era Gilvan"; nova diretoria vem buscando saídas para sair do vermelho

Conselheiros durante reunião que aprovou o empréstimo milionário — Foto: Vinnicius Silva/Cruzeiro
Josias Pereira | @supernoticiafm
12/02/19 - 08h40

Lado financeiro do clube vem sendo um dos graves problemas desde o aumento das dívidas com vários credores na Era Gilvan; nova diretoria vem buscando saídas para sair do vermelho 

O Cruzeiro aprovou na noite dessa segunda-feira, em reunião no Parque Esportivo do Barro Preto, a autorização para um empréstimo milionário, próximo a R$ 300 milhões, para o pagamento de dívidas e alívio nas contas do clube, que já acumula um passivo orçado em R$ 480 milhões.

OS DETALHES

Os moldes desta operação financeira, que fará o Cruzeiro ter até 2023 um único credor em potencial, preconizam, de acordo com apuração do Super FC, o pagamento de sete parcelas semestrais de R$ 53,2 milhões, a partir do fim do período de carência, estipulado em 18 meses que passam a valer de forma subsequente ao momento da assinatura do contrato. Desta maneira, dos cerca de R$ 295 milhões que o Cruzeiro receberá em empréstimo, o montante final da operação chegará a um valor superior a R$ 372 milhões (o valor fechado dos juros pagos pela Raposa será de R$ 77,4 milhões). A operação será feita em euro e terá como garantia para a proteção da variação cambial o congelamento da moeda estrangeira, com uma taxa de juros a 0,86% ao mês.

O término dessa operação com a estimativa de pagamentos semestrais será em 2023 e, para tanto, o clube baseia-se em cálculos dos últimos faturamentos e balanços anuais. A diretoria excluiu qualquer possibilidade de inclusão do patrimônio do Cruzeiro como crédito em caso de inadimplência, assegurando nessa eventual situação cotas de TV, patrocínio e sócio-torcedor como possibilidades de crédito junto ao credor em caso de não pagamento, os chamados recebíveis. Para dar vazão à proposta, o Cruzeiro utilizou-se de dados recentes que credenciam o potencial da marca do clube, além de números que comprovam os benefícios do empréstimo junto a uma instituição financeira internacional em detrimento de um acordo com a taxa de juros estipulada no Brasil. 

A aprovação com quase unanimidade do Conselho foi uma demonstração de força da gestão Wagner Pires de Sá, que lida desde o ano passado com os problemas financeiros herdados da administração de Gilvan de Pinho  Tavares. Recentemente, a Minas Arena ajuizou uma ação de bloqueio das contas do Cruzeiro exatamente pelo não pagamento de custos operacionais da época de Gilvan. Dentre os valores estimados pelo clube aos conselheiros em encontros separados nos últimos dias está uma projeção preocupante da dívida do Cruzeiro. Se a situação não sofresse uma intervenção, como a proposta do empréstimo, o saldo devedor do clube superaria R$ 1 bilhão em 2023. 

OPINIÃO 

A Rádio Super 91.7 FM ouviu a opinião do especialista Júlio Reis, consultor financeiro e torcedor do Cruzeiro. Ele traça um paralelo dos prós e contras do empréstimo, que marca a gestão de Wagner Pires de Sá. 

“O grande ponto desta operação é trocar uma dívida que incomoda a gestão, dificulta a vida da gestão atual do Cruzeiro, que pode gerar sanções ao clube, inclusive sanções da FIFA que podem impedir o time de participar de torneios, que podem atrapalhar a história da agremiação e a obtenção de novas receitas e trocar uma dívida cara, tudo isso com uma dívida centralizada em único credor com juros compatíveis com o mercado, juros razoáveis, uma taxa de 8,5% a 9% ao ano, com uma carência de um ano e meio que dá tranquilidade para trabalhar e um pagamento escalonado em mais sete parcelas que dão cerca de três anos e meio para o pagamento. Isso tudo é muito positivo, são boas práticas de mercado, são mecanismos utilizados por empresas em reestruturação de dívidas”, aponta Júlio. 

O gestor também analisa outras nuances do empréstimo, como os valores que serão cobrados, além da necessidade de um plano de reestruturação financeira para evitar que o problema não seja passado para a frente. 

“O contra que eu vejo, que eu imagino que essa operação tem um lado negativo, é o montante muito alto. Realmente se o Cruzeiro estiver em uma necessidade de levantar um empréstimo de R$ 300 milhões é de se supor, na visão da diretoria, que essa dívida urgente, mais crítica do Cruzeiro estaria na ordem de R$ 350 e 450 milhões, porque, obviamente, na hora que você vai negociar a dívida com pagamento antecipado à vista você consegue reduzir o valor do montante principal a ser pago. Então se o Cruzeiro pretende se utilizar de 300 milhões, ele está considerando que possui um valor mais alto do que esse para pagar. É um absurdo um time ter um montante de mais de R$ 300 milhões em dívidas a curto prazo. Eu tenho um receio dessa avaliação ter sido um pouco menos rígida. O Cruzeiro tem que olhar com muito critério, muita cautela, explicar essas dívidas que realmente precisam ser tratadas em um curtíssimo prazo e fazer essa operação financeira dentro desse montante. Deixar o restante, que são aquelas dívidas escalonadas em um prazo maior, que são dívidas que estão com uma taxa de juros razoável, aquelas que ainda estão em discussão na Justiça, que estão em instâncias inferiores, e deixar isso para um segundo momento para você não comprometer o caixa do Cruzeiro em um valor tão importante. Esse empréstimo, conforme foi dito, vai estar alienando os recebíveis do clube, então essa dívida terá que ser paga. Se o Cruzeiro não pagar, automaticamente suas receitas vão para o credor e isso pode inviabilizar o futebol do clube em um médio a longo prazo. A partir de 2020, projeta-se se for um pagamento de parcelas iguais que o Cruzeiro terá que pagar mais de R$ 50 milhões por semestre após o período de carência. O Cruzeiro terá que gerar um caixa positivo, ou seja, terá que custear sua operação, custear o seu futebol, e sobrar ainda mais de R$ 100 milhões por ano para poder pagar essa dívida”, aponta o especialista. 

Para solucionar a equação, Júlio apresenta alguns caminhos. 

“É possível (honrar este débito) para um clube da grandeza do Cruzeiro? É possível. Sem dúvida nenhuma. Mas o Cruzeiro precisa fazer um trabalho muito forte de alavancar sua receita, porque o clube ainda tem um potencial de receita abaixo do tamanho de sua grandeza e da sua torcida de 9 milhões de apaixonados basta comparar com clubes menores e que tem uma receita igual a do Cruzeiro. Será preciso fazer uma reestruturação das despesas. O clube, ao que me consta, tem um custo de overhead muito alto, o Cruzeiro precisa baixar estes gastos para que sobre dinheiro para custear o futebol de alto nível, mantendo-se no topo, e para pagar essa dívida comprometida de mais de R$ 100 milhões ao ano. Se o Cruzeiro não fazer uma otimização de suas finanças nos próximos anos, o clube só transferiu o problema para frente”, concluiu Júlio Reis. 

A reunião dessa segunda-feira foi apenas o primeiro passo na direção do empréstimo, tendo o aval do Conselho. Agora o clube vai acertar os detalhes finais do acordo financeiro e a assinatura do contrato de empréstimo.

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