Daniel Ottoni
@dottoni
25/07/20
12h00

Adversários pelo caminho

Combativa, Aline Silva encarou preconceito e abuso para se dar bem no wrestling

Maior nome do Brasil na modalidade carrega história de luta e superação para mostrar condição de estar

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Aline soma três medalhas pan-americanas na carreira — Foto: Washington Alves - COB
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Preconceito da família desapareceu quando resultados começaram a surgir — Foto: Caio Baptista - CBW
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Aline admite desconforto quando precisa usar quimono em algum tipo de treinamento — Foto: Divulgação - Sesi
Daniel Ottoni | @dottoni
25/07/20 - 12h00

Aline Silva parece ter sido, na infância, uma garota de poucos medos e muitas ambições. Desde nova, ela não permitiu que os outros tomassem suas decisões, baseadas na tradição, cultura ou preferência. Foi assim que ela tomou gosto pelo wrestling, um esporte que até hoje segue o estereótipo de que é algo para homens, com um machismo enraizado, a fazendo ter um papel de força para lutar contra esse tipo de postura e pensamento.

"O wrestling é um esporte em que, ainda, existe muito machismo. A categoria greco romana, por exemplo, é exclusiva de homens. O limite de peso para eles é de 130kg, para mulheres 76kg. Estamos falando de uma das últimas modalidades a incluir mulheres em Olimpíada, talvez influenciado por ser um esporte que vem desde a Era Antiga. A luta é por descontruir este machismo e fazer um mundo com maior igualdade de gênero", aponta. Aline é uma das patrocinadas do projeto 'Elas Transformam', da MRV, que apoia 12 mulheres do esporte olímpico que estarão em Tóquio. 

Foi justamente o fato do esporte ser algo muito mais praticado por homens, que Aline se manifestou a favor da modalidade. "O wrestling me cativou por ser algo físico. Sempre tendi a escolher coisas que estavam na contra-mão, diferente do que as pessoas faziam e que era mais popular. Uma coisa que me chama atenção, desde nova, é o 'por que não?'", conta a atleta do Sesi (SP). 

O preconceito e dificuldade de aceitação da família foram superados pela atleta, que viu a resistência ser derrubada como um adversário assim que os resultados começaram a aparecer. "Minha família não queria, diziam que era esporte de homem e que eu ficaria masculinizada, um conceito extremamente machista. Esta questão de estereotipar precisa ser descontruída, a exemplo de rosa é coisa de menina e azul de menino. Isso se expande para muitas situações como corte de cabelo e roupa. Quando minha família viu os benefícios que o wrestling me proporcionava, passei a ter o apoio de todos", lembra. 

Abuso que serviu para abrir os olhos

O empoderamento de Aline tem ligação direta com sua história e os aprendizados que teve em situações, às vezes, não tão favoráveis. Quando ainda era criança, Aline foi vítima de abuso e não se incomoda em tocar no assunto. "Ainda me sinto ameaçada em falar disso porque a sociedade teima em julgar as vítimas e apontar o dedo para quem sofreu este tipo de agressão. Não é à toa que os crimes de abuso são altos quando falamos de subnotificações. Se as vítimas não fossem vistas como criminosas, mais pessoas teriam coragem de denunciar os agressores", cita. 

A 'ficha' de Aline sobre outros tipos de abusos sofridos só foi cair depois dos 20 anos de idade, vendo matérias na TV e lendo sobre o assunto. "Aí está a importãncia de falar sobre isso, de acabar com este tabu da nossa sociedade. A cultura do estupro passa diretamente pela ideia do machismo, que perpetua o homem como caçador e a mulher como presa", finaliza. 

Sem quimono, por favor

Ex-atleta de judô e jiu-jitsu, ela levou as referências destas artes marciais para o outro tatame, um pouco diferente dos dois citados. "Prefiro os esportes sem quimono, me sinto desconfortável, às vezes, quando tenho que usá-lo. Quando saí do judô, achava que a luta olímpica era um esporte que ninguém gostava e praticava muito. Era algo que cansa muito mais, um esporte mais dinâmico na questão de manutenção de força, pegada e controle do adversário, já que não se tem um quimono para pegar. O wrestling me cativou por ser algo muito físico. No começo, achei estranho, mas logo fui me adaptando e hoje uso muitos dos ensinamentos do judô na luta olímpica", revela. 

Técnicas do judô foram úteis no wrestling

Apesar do aprendizado em outras modalidades, Aline acredita que o maior tempo dentro do wrestling pode ser mais positivo para quem almeja ir longe. "Ter conhecimento de esportes como o judô não é algo fundamental para ir bem na luta olímpica. Prezamos, hoje, muito mais pela base dentro da luta olímpica do que ter praticado outras artes marciais. Antigamente, muitos atletas do Brasil que performavam no wrestling vinham do judô e jiu-jitsu e alguns vícios, difícil de serem contornados, apareciam naturalmente. Hoje em dia, é mais eficiente um lutador se derivar do wrestling, apesar destas contribuições em outros tipos de luta e vice-versa", detalha. 

Hoje número 19 do mundo, ela sabe que só depende de si para voltar a ocupar um top 5, como aconteceu em 2014, quando chegou ao quarto lugar do planeta, feito inédito para uma brasileira. "É possível sim recuperar esta posição, só preciso voltar a competição, mas sabe-se lá quando isso vai acontecer", brinca. 

Aline é conhecida pela sua força em um esporte que também exige do físico. "Se não tiver essas duas coisas, não tem como. Mas a estratégia e a questão psicológica também contam muito, assim como acontece em muitas lutas. É preciso saber impor este lado mental e usar a experiência", indica. 

Base consistente para fortalecer a modalidade

Com muitos anos de experiência a seu favor, Aline Silva sabe que o caminho para o sucesso do wrestling passa pela base. Sem fortalecer as categorias mais novas, os resultados no adulto podem ficar distantes. "Fortalecer a base e qualificar a mão de obra é algo primordial em todos os esportes, é preciso dar mais valor para o estudo e a formação dos atletas, para a qualificação dos profissionais. Para massificar o wrestling, precisamos de mais representantes da modalidade que sejam formados em Educação Física para que tenha mais ofertas de aula e, consequentemente, mais praticantes", sugere. 

Além do Sesi (SP), com centros em Cubatão e Osasco (SP), pólos menores do wrestling estão espalhados em outras cidades com o projeto Atleta do Futuro. Outras iniciativas do wrestling brasileiro também estão em São José dos Campos e Rio de Janeiro (A Liga). 

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