Daniel Ottoni
@superfcoficial
25/07/19
07h00

Muitos preteridos

Maioria paulista nas seleções de base do basquete causa incômodo; entenda

Situação é recorrente e deixa de fora talentos de outras regiões do país; CBB respondeu oito perguntas enviadas com apenas uma frase

Brasil terminou Sul-Americano sub-14 na segunda posição — Foto: Giovanni Kleinübing - CBB
Daniel Ottoni | @superfcoficial
25/07/19 - 07h00

A presença de 15 jogadores de times paulistas entre os 20 convocados inicialmente para a seleção brasileira masculina sub-14 de basquete causa incômodo em quem acompanha de perto as categorias de base da modalidade. O time comandado pela técnica Thelma Tavernari, que também treina o Pinheiros (SP) disputou entre 2 e 6 de julho, o Sul-Americano da categoria em Goiânia, terminando na segunda posição. A lista de 20 nomes sofreu seis cortes. Dos 14 restantes, 11 são de times paulistas, três do Pinheiros. Conversando com técnicos e dirigentes da base do basquete nacional, a reportagem foi informada que a preferência pela maioria de atletas de times de São Paulo na seleção é algo recorrente. Apesar de incomodar, não causa estranheza. 

Faltando poucas semanas para a competição internacional, foi realizado em Belo Horizonte o Brasileiro interclubes sub-14, que terminou com o Minas Tênis Clube como campeão. O clube da Rua da Bahia venceu os anfitriões do Olympico na grande decisão, em boa atuação mineira, deixando para trás clubes paulistas como o Esperia e o Corinthians. Uma das ausências sentidas no torneio foi não só do Pinheiros como da treinadora, que preferiu não acompanhar de perto o principal torneio da modalidade.

O torneio não contou com a participação de times do Sul do país, que não foram consultados para saber se teriam algum jogador de potencial. "Acho que existe uma cultura da técnica em prestigiar jogadores paulistas e sobretudo do clube em que ela atua, o Pinheiros. Existe um desinteresse em observar o trabalhos dos clubes fora de São Paulo. Ela sequer veio assistir o Brasileiro, sendo que já se sabia da convocação eminente da seleção brasileira da categoria", lembra representante de um dos clubes participantes, que preferiu não se manifestar. "O Pinheiros veio uma vez ao Brasileiro e foi derrotado pelo Minas. Ela esteve presente acompanhando o evento já como técnica da seleção e com postura anti-ética, torcendo para o Pinheiros e orientando os garotos da arquibancada, com uniforme da CBB", lembrou. 

Um treinador foi procurado e compartilha da visão. "A ausência dela foi muito sentida. Acho ela uma treinadora fantástica e, possivelmente, é a menos culpada. Ela chamou quem viu. A CBB deveria mandar alguém pra BH, nem que fosse um assistente para acompanhar o último dia de competição. Não é possível que não se tenha recurso pra isso. Temos vários torneios acontecendo hoje, com tecnologia de vídeo disponível para todos. Bastava pedir vídeos para as federações", salienta o treinador. O anonimato foi pedido pelos entrevistados, temendo por represálias por parte da CBB.  "A CBB não tem gestão nem verba. O atual presidente encontrou um rombo e precisou ir atrás de parceiros. Quem custeou as despesas do Sul-Americano foi o Estado de Goiás", conta. 

Sobre a grande presença de atletas de São Paulo, ele justitica. "Eles têm torneios mais fortes, prefeituras do interior atuantes e, da quantidade vem a qualidade. Os times paulistas costumam recrutar jovens de times de outros estados com frequência. Desta forma, as equipes paulistas costumam levar a melhor contra rivais de outras federações. A preparação das seleções, normalmente, é feita em solo paulista. Assim, diminuem o custo. Pra eles, parece que não vale a pena levar meninos de outras regiões", reclama. 

Carta. Pouco mais de um mês após o torneio, o Olympico resolveu se manifestar por meio de uma carta, mostrando descontentamento com a lista anunciada por Thelma, que convocou quatro atletas da sua equipe. 

"Ressalvamos que, do nosso ponto de vista, considerando-se ser o Campeonato Brasileiro Interclubes Sub-14 praticamente a única competição a nível nacional onde ocorreria a atuação de equipes de diversos Estados, era imprescindível que a comissão técnica da Seleção Brasileira estivesse completa e presente ao Campeonato, para realizar uma adequada avaliação dos atletas e a adoção dos critérios técnicos pertinentes para a realização da convocação", cita a nota. "Acreditamos, também, que a equipe do Olympico, vice-campeã brasileira Sub-13 em 2018 e vice-campeã brasileira Sub-14 em 2019, possuía atletas em condições de contribuir com a Seleção Brasileira, assim como possuíam as equipes que ficaram em posições inferiores na competição e tiveram seus atletas merecidamente convocados. A decisão pela convocação, contudo, é uma decisão exclusiva da comissão técnica e precisa ser respeitada", completa o texto, assinado por Flávio Magalhães, vice-presidente de Esportes do clube de BH. 

Apesar da competição ser considerada uma referência para as convocações, apenas dois jogadores de Minas Gerais foram chamados. Além do ala Gabriel Pessoa, do Minas, MVP da decisão, também foi lembrado o ala/pivô Murilo Gonzaga, do Praia Clube, de Uberlândia.

Preteridos.  Além deles, outros destaques não foram lembrados como o ala João Gabriel, do Minas, responsável por 24 pontos e 10 assistências na final. Do Olympico, o ala Miguel Mousinho, que anotou 23 pontos na final, também não foi chamado. O cestinha do torneio, o armador Raul, do Sport Club do Recife (PE) foi outro que não foi chamado, assim como o pivô Lorenzo Gouveia do AEST-IVV (ES), maior reboteiro do campeonato. "O Raul é um jogador fora de série que, no mínimo, deveria estar na pré-seleção", afirmou um dos dirigentes. 

Outro fato que causou estranheza foi a presença na seleção de jogadores que não participaram do torneio e não estão acostumados com presença constante em competições de nível nacional. Caso do ala Chaher Tarek Kalaoun, do Clube de Engenharia de Goiás, da cidade-sede do torneio (acabou sendo cortado) e do pivô Jonatha de Lima Damasceno Fonseca, que chama atenção mais pelos 2,07 aos 13 anos de idade do que pela experiência em torneios de maior relevância. "Coincidência ou não, um atleta de Goiás foi chamado. Justamente do Estado da federação de basquete que resolveu investir e patrocinar o evento", comenta um treinador. 

A reportagem procurou a Confederação Brasileira de Basquete (CBB), enviando oito perguntas sobre os critérios de convocação. O único retorno recebido foi de que "a decisão das convocações dos selecionados nacionais é única e exclusivamente das comissões técnicas, levando em conta diversos fatores". 


 

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