Daniel Ottoni
@dottoni
04/07/20
07h00

Entrevista

Juca Kfouri: 'o futebol segue reacionário, não consegue punir preconceitos'

Ao 70 anos, jornalista diz ser reticente sobre campanhas clubes e entidades como CBF e FIFA, com exceções

"O discurso de que política e futebol não se misturam é o discurso dos alienados", disse Juca Kfouri. — Foto: Renato Parada
Daniel Ottoni | @dottoni
04/07/20 - 07h00

No ano em que completa 70 anos de idade e com uma realidade nunca antes vista, o jornalista Juca Kfouri segue tendo muito para dizer. Nesta semana, ele foi um dos convidados do projeto Sempre um Papo, que acontece de forma online durante a pandemia. 

Seria impossível deixar o cenário político brasileiro de lado. Juca foi, como de costume, direto ao assunto e mostrou preocupação com o que está por vir. "Nunca trabalhei tanto na vida. A pandemia das lives não me agrada, é algo frio e cansativo", sugere. 

Confira a conversa exclusiva que tivemos com Juca Kfouri:


Como vê o movimento Esporte pela Democracia? 

Este movimento era mais do que necessário. Era imprescindível que esportistas unissem suas vozes pela democracia neste atual momento que o Brasil atravessa. Não bastando a crise sanitária, ainda temos a crise política. Ela coloca em risco a nossa frágil e recente democracia e fico feliz de ver os esportistas colocando a cara 'a tapa'. Muito bom que assim o façam. 

Qual impacto da medida provisória sobre transmissões de jogos para o futebol brasileiro?

Esta é a pergunta de um milhão de dólares, tamanha sua polêmica. Essa medida é absolutamente desnecessária, não faz o menor sentido legislar por medida provisória em relação a transmissão de jogos de futebol. Medida provisória deve ser usada em causas emergenciais. A única justificativa que o presidente da república tem é querer trazer para si a maior torcida do país e promover a volta irresponsável do futebol. Só este motivo me faz entender a decisão. A pandemia segue crescendo no Brasil ao invés de decrescer. 

O que dizer das decisões da Federação de Futebol do Rio de Janeiro, que autorizou jogos e presença de torcida nos estádios? 

Pressionada pelo Flamengo, a federação entrou numa de fazer coro à necropolítica, que vem de Brasília e foi abraçada pelo presidente do Flamengo, Rodolfo Landim. Até hoje ele não foi capaz de resolver a situação do incêndio no Ninho do Urubu. que matou jovens jogadores do clube. 

Algo que esta pandemia pode trazer de positivo para futebol e sociedade? 

Difícil ver algo positivo em um cenário de 60 mil mortos. O novo normal é um mundo mais solidário? A ver. Quem viveu em Nova York no 11 de setembro garante que o clima na cidade era diferente e solidário nos dias seguintes. Isso durou até o dia 19, quando tudo voltou ao normal. O ser humano se revela ser cada vez mais inviável. 

Quais iniciativas desta pandemia que podem ser perpetuadas e melhor aproveitadas?

Não sei dizer. Tenho trabalhado mais com esta pandemia, não tenho tido tempo para aproveitar como se supõe de alguém que está dentro de casa há mais de 100 dias. Espero que isso passe logo, assim com a pandemia das lives. Elas acabam sendo mais cansativas do que encontros presenciais. É de uma frieza que não faz a minha cabeça.

O esporte deixou de ser ministério e foi rebaixado à secretaria no governo Bolsonaro, incorporada ao Ministério da Cidadania. O governo federal tem agido no sentido de criar políticas públicas para o setor ou o esporte tem sido desprestigiado na gestão?

O problema do esporte brasileiro não é não ter Ministério do Esporte. Já tivemos e, nem por isso, se formou uma política esportiva no país. Falta ao Brasil entender que esporte é, antes de tudo, em favor da saúde pública. Com esporte, o número de hospitalizações é reduzido. A cada dólar que se investe nele, economiza-se três em saúde pública. O Ministério do Esporte deveria ser o Ministério da Saúde, já que o Ministério da Saúde é o Ministério da Doença. 

No Brasil, há um discurso forte que futebol e política não se misturam. Em que medida isso é prejudicial para o debate democrático, também  essencial no meio esportivo? Essa despolitização também atinge a crônica esportiva no Brasil?

Quem disse que política não se mistura com futebol faz o pior tipo de política, como João Havelange. Ele sempre afirmou conduzir entidades apoliticas.e vimos o resultado com CBD e FIFA, com ele andando de braço dado com ditadores na América do Sul e África. Fez até Copa do Mundo na Argentina, em 1978, durante a ditadura do general Jorge Videla. As torturas aconteciam a 500m do estádio Monumental de Nuñez. O discurso de que política e futebol não se misturam é o discurso dos alienados. 

Recentemente, clubes de futebol no Brasil apoiaram a luta antirrascista, antimachista e anti-homofobia nos estádios e no meio esportivo. Você vê essa atitude como marketing de conveniência ou realmente isso representa uma mudança de consciência? Bahia é o maior exemplo de postura que clubes devem proceder em campanhas e ações?

O Bahia é, de fato, exemplar nas suas campanhas sociais. Mesmo embora seu presidente tenha batido na porta de Jair Bolsonaro por causa da medida provisória. Isso não serve para ornar com sua biografia. Não levo a sério atitudes sobre preconceito da FIFA, CBF e de clubes, com raras exceções. O futebol segue conservador e reacionário, fala-se da boca pra fora, mas não são capazes de punir quem comete este preconceito. 

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