Josias Pereira
@superfc
27/08/17
07h21

ENTREVISTA EXCLUSIVA

'Se não fosse Deus, não teria forças para voltar a jogar', diz Willian

Meia do Chelsea falou com o Super FC e abriu o coração sobre diversos temas, dentre eles o falecimento de sua mãe, além dos rumores no mercado e Tite na seleção; leia

Jogador superou perda da mãe para seguir atuando em alto nível — Foto: IAN KINGTON / AFP
Josias Pereira | @superfc
27/08/17 - 07h21

 

Willian Borges da Silva, 29 anos, cria da base do Corinthians, há quatro anos no Chelsea, bicampeão da Premier League e um dos jogadores brasileiros mais bem sucedidos na Europa, figurinha carimbada na seleção e que já sonha com a Copa da Rússia. Em entrevista exclusiva ao Super FC, o meia conta sobre o momento que vive nos Blues, atuais campeões ingleses, abre o jogo sobre a mudança de postura da seleção com Tite, faz planos para 2018, exalta o ídolo Ronaldinho e se emociona ao comentar o falecimento da mãe, a dona Maria José, carinhosamente chamada de ''Dona Zezé'', no ano passado.

Leia abaixo a entrevista na íntegra:

No ano passado, você viveu um momento bastante delicado com o falecimento de sua mãe. O quanto foram importantes as mensagens de apoio que você recebeu para ajudar neste momento de perda?

Primeiro foi Deus, Ele me sustentou. Se não fosse a graça de Deus e a misericórdia dele, eu não teria forças para voltar, para continuar jogando. Foi uma situação muito complicada para mim. Só quem já perdeu a mãe sabe a dor que a gente sente. A cada dia que passa, a saudade vai aumentando e é bem difícil suportar. Às vezes você para, pensa e não acredita que aquilo tudo aconteceu, mas recebi recebi várias mensagens, tive apoio familiar da minha esposa, das minhas filhas, do meu pai, todos eles muito importantes neste processo. Recebi palavras de apoio de várias pessoas próximas, amigos, jogadores, alguns que eu nem conheço, nunca conversei, sequer falei um oi, mas me mandaram mensagens, gestos de pessoas que eu nunca esperava que fosse falar um dia. Quando eu voltei para cá (Inglaterra), recebi o carinho de vários jogadores de outros times, depois das partidas, eles vinham até mim, perguntavam como eu estava, falavam para eu continuar forte, me davam um abraço. Fiquei muito grato pelo apoio que todos me deram e isto me fortaleceu muito

Qual a importância do técnico italiano Antonio Conte para o processo de reformulação do Chelsea após um 10º lugar frustrante na temporada 2015/2016 e o consequente título em 2016/2017?

O Chelsea é um clube que nos últimos anos se acostumou a levantar taças e, realmente, essa temporada 2015/2016 foi frustrante para nós, mas com a chegada do Conte nós conseguimos voltar a jogar um bom futebol, encontrar aquilo que o Chelsea é acostumado a fazer, que é ganhar títulos. Demos a volta por cima.

O que aconteceu em 2015/2016 para o Chelsea ter atravessado uma temporada tão abaixo da média?

Foi uma temporada difícil para o Chelsea, nós não iniciamos bem e depois ficou muito complicado reverter esta situação. O Leicester acabou sendo o campeão naquela oportunidade, quando muitas pessoas não acreditavam nesta possibilidade. Mas acho que nós soubemos pegar aquilo que fizemos de errado naquela temporada e, com a chegada do Conte, ajustar o time, retomar o bom futebol, conseguimos ter uma boa sequência de vitórias e, consequentemente, a gente conseguiu a conquista da Premier League.

Na última temporada, o Chelsea registrou um número muito grande de vitórias e acabou despontando na frente. Muitas pessoas não acreditavam que o título viria tão rápido, logo no primeiro ano do Conte na Inglaterra. Qual foi o momento que vocês sentiram que a taça não escaparia da mão do Chelsea?

Acho que nós iniciamos a temporada alternando altos e baixos. Tivemos vitórias, perdemos, empatamos. Depois, enfim, conseguimos encaixar. O Conte também mudou o sistema de jogo em que atuávamos, isso nos favoreceu e tivemos esta sequência de vitórias, se não me engano foram 13 vitórias seguidas, um número bastante considerável para um time que quer ser campeão. Nosso objetivo sempre foi pensar passo a passo, mesmo ganhando esses 13 jogos nós nunca dissemos que já éramos campeões, a gente sempre manteve os pés no chão e fomos em busca das vitórias para chegar perto do título.

Todo o fim de temporada aparecem rumores sobre sua sequência no Chelsea. Interesse do Juventus, Bayern, clubes da própria Inglaterra, o Barcelona agora. Diz uma coisa para nós, o Mourinho chegou a te ligar para desembarcar lá em Manchester?

Situações sempre acontecem (risos). Acho que não só comigo, mas com muitos jogadores. A única coisa que teve foi realmente um contato do Manchester United com meu empresário, mas nada mais que isso. Eu estou muito feliz no Chelsea, já completei quatro anos aqui, já conquistei três títulos com esta camisa, espero conquistar mais. O que eu posso dizer é que eu estou muito feliz aqui.

Dos técnicos com quem você já trabalhou, com qual deles você mais se identifica?

Cada um tem um perfil diferente, uma maneira de trabalho diferente e aprendi um pouco com cada um deles. O Mourinho, com certeza, foi muito importante pra mim aqui, treinador que confiou no meu trabalho, me deu moral. Posso falar aqui do Guus Hiddink também, já tinha trabalhado com ele na Rússia, no Anzhi, um treinador que gosta muito de mim. Além do Conte, que é muito bom no que faz. Mesmo eu não atuando tanto como titular na temporada passada por várias circunstâncias, o Conte é um treinador que confia em mim, que também aprendi algumas coisas com ele.

Você tem 29 anos, óbvio que você ainda tem uma longa jornada no futebol, mas pensa em se aposentar no futebol brasileiro? Qual seria o último clube de sua carreira?

Não passa na minha mente esta possibilidade de voltar ao Brasil ainda. Creio que posso jogar aqui (na Europa) por mais alguns anos, tenho objetivos grandes aqui, quero conquistar mais títulos, mas a gente nunca sabe o amanhã. Quem sabe daqui a alguns anos isso, se vier a acontecer, a gente tem que estudar direitinho, ver o que é melhor para mim. Costumo dizer que, como eu fui revelado no Corinthians e passei praticamente uma vida lá dentro, entrei no Corinthians como nove anos e fiquei lá até os meus 18, conheço muita gente no clube, tenho um carinho muito grande por todos lá, sempre fui torcedor antes de entrar no Corinthians, minha família é toda corintiana, por isso eu acho que voltaria para lá. Por ter esta identificação com o clube bem legal, eu voltaria ao Corinthians.

Você está no Chelsea desde 2013, passou por vários momentos dentro do clube, dos elencos que você participou qual foi o melhor?

Eu, graças a Deus, tive a oportunidade de jogar com grandes jogadores, atletas que conquistaram tudo no Chelsea, que tem uma história linda no clube como o Drogba, Ashley Cole, Lampard, Petr Cech, o goleiro, Essien, o próprio John Terry, Fernando Torres, jogador com quem atuei por um ano e meio. O Chelsea sempre está acostumado a montar grupos fortes, de qualidade. Desde quando eu cheguei aqui, às vezes há uma grande mudança de jogadores, mas o grupo sempre se mantém forte com uma qualidade muito alta. Posso dizer que nestes quatro anos que estou aqui sempre fui servido de companheiros com qualidade.

Quem é o seu maior companheiro dentro do Chelsea atualmente, aquele cara da resenha?

É o David Luiz, meu brother aqui, meu amigo. Nos conhecemos desde os oito anos de idade. Creio que nossa amizade não vai ficar só no futebol, tenho certeza disso. O David Luiz é um cara que sempre está perto de mim,  brincando, temos uma amizade muito bonita.

Você é tido como um dos maiores cobradores de falta da Europa. Qual foi a sua maior inspiração para aprimorar seu aproveitamento na bola parada?

As pessoas sempre perguntam isso, mas eu não me sinto um especialista assim, sabe, em bater faltas. Claro que aprimorei bastante, sempre procuro treinar isso, graças a Deus, fiz bastante gols de falta, espero fazer mais. Porém, acho que para chegar a este nível, o treinamento é importante, aprimorar a batida, para quando chegar no jogo você ter grande chance de fazer o gol. Tem vários jogadores que cobram falta ou cobravam falta muito bem, eu sempre gostei de ver o Marcelinho Carioca batendo, pelo fato também de eu ser corintiano e quando eu entrei no clube ele jogava por lá ainda. Mesmo muito pequeno, eu lembro que quando o profissional treinava lá no Parque São Jorge, o Marcelinho ficava batendo falta depois da atividade, e a gente sempre ficava lá assistindo. Eu gostava de ver o Ronaldinho batendo pelo fato de ser o meu ídolo.

Você já foi comandado pelo Felipão, pelo Dunga, o que mudou na seleção brasileira com a chegada do Tite? Deu para perceber a diferença no comportamento dos jogadores, a questão tática da seleção?

Evidente que mudou, não tem como falar que não mudou. O Tite é um treinador muito inteligente, sempre costumo dizer isso, um técnico que sabe gerir muito bem o elenco, além de ser bom taticamente. Ele trouxe muitas ideias e nós, jogadores, implantamos isso dentro de campo e a gente conseguiu vitórias. Claro que os treinamentos são importantes, mas o Tite sempre fala que temos que merecer vencer e para merecer vencer você precisa competir leal, com o nível bem alto. É por isso que ele é um treinador que está entre os melhores do mundo hoje.

Você acha que faltava à seleção um técnico mais agregador e tático à seleção brasileira depois destas mudanças pós-Copa do Mundo?

Cada treinador tem uma maneira de trabalhar, uma filosofia, isto que vem acontecendo com a seleção, com o Felipão, Dunga, a gente já vinha muitos anos treinando, batalhando, para chegar onde a seleção chegou. Com o Tite isso veio, conseguimos encaixar o que nós buscávamos há muitos anos, conseguimos ter uma filosofia, um padrão de jogo. Tudo vem dando certo. A seleção está jogando muito bem.

Você, em algum momento, teve receio de que a seleção poderia não se classificar à Copa do Mundo?

Claro que quando a situação está difícil ficamos pensativos. A gente começa a pensar o que deve fazer, o que tem que melhorar, mas eu sempre acreditei que a seleção, de uma maneira ou outra, classificaria. Mas a gente sabe que as Eliminatórias são sempre complicadas, difíceis. Eu nunca desconfiei que ficaríamos de fora, sempre acreditei que iríamos estar na Copa. Acho que o importante no futebol é você ter confiança.

Você é um dos nomes que sempre são chamados pelo Tite. Esta Copa do Mundo da Rússia já passa na sua cabeça? Você já se vê no Mundial?

É um sonho que eu tenho, uma vontade, um desejo muito grande, por isto que eu venho a cada dia, a cada jogo no meu clube procurando fazer o meu melhor, tentando evoluir ao máximo, tentando sempre manter uma regularidade muito grande, uma regularidade boa para que eu possa estar sempre sendo chamado, sendo lembrado. Eu vou fazer de tudo para me manter cada vez mais no grupo da seleção.

Na Copa de 2014, muitos dizem que naquele jogo contra a Alemanha você deveria ter entrado como titular e não o Bernard. Você acredita que naquela partida, o fatídico 7 a 1, o Bernard deu um tremida pelo peso do confronto? O Brasil deveria ter jogado mais recuado, esperando a Alemanha?

É difícil falar poque é uma coisa que já passou. Sempre quando acontece estas coisas, um resultado negativo como foi aquele, a gente procura arrumar uma justificativa. Acho que quando perde, perdem todos, quando ganha, ganham todos. Não tem como eu dizer ou culpar um ou dois jogadores, acho que foi a falha de todos, desde a comissão técnica aos jogadores. Acho que o importante é isso, não culpar e sim, como o grupo todo fez, assumir a responsabilidade.

O que precisa ser feito de diferente da Copa de 2014 para buscar o hexa no ano que vem? O que precisa mudar de pensamento de uma Copa para a outra?

A maioria dos jogadores que estão neste grupo da seleção estavam na Copa de 2014, ou seja, já possuem uma experiência, uma bagagem em Copa. Claro que Mundial é bem diferente de Eliminatórias, mas acho que o mais importante é a seleção manter este nível alto de competitividade que vem tendo nestes últimos jogos, seguir jogando este mesmo futebol, não nos acomodarmos, achar que vai ganhar fácil. Acredito que o mais importante é continuar evoluindo e manter este padrão de jogo, esta postura que os jogadores vem tendo dentro de campo.

No primeiro jogo da Premier League desta temporada, o Chelsea acabou perdendo de forma surpreendente para o Burnley, deixando algumas preocupações sobre este time e as contratações que chegaram. O que você pode dizer sobre o Morata, atacante que chegou para ser a referência. Ele tem condições de substituir o Diego Costa?

É um grande jogador, que sabe fazer gols, tem qualidade, chegaram outros atletas também com qualidade. O Chelsea está procurando se reforçar, sabemos que este ano vai ser bem mais difícil, bem diferente do que foi a temporada passada, com mais jogos, e a gente precisa de um grupo forte, um grupo com mais opções para ter uma rotatividade dentro das competições. Espero que a gente possa estar cada vez mais forte para chegar longe e conquistar mais títulos.

Qual sua opinião sobre a ida do Neymar para o PSG? Chegou a conversar com ele? Acredita que esta transferência vai fazer os valores dos jogadores dispararem a cada janela?

É uma decisão bem pessoal, acho que o importante é ele estar feliz, é um grande jogador, ninguém tem dúvidas disso. Fez história no Barcelona, tem tudo para fazer história no PSG. Acho que o PSG só pagou a multa rescisória, o contrato do jogador tem a multa. O que eu posso dizer é que torço muito para que ele continue jogando o mesmo futebol do Barcelona no PSG, dando alegria não só aos torcedores de seu novo clube, mas também à torcida brasileira.

Se você fosse um dirigente de futebol, em qual jogador você investiria 222 milhões de euros?

Ronaldinho Gaúcho. Sou fã dele. Ele é meu ídolo, o único jogador que eu investiria até 300 milhões de euros.

Qual é o seu Top 3 de jogadores da última temporada?

Messi, Cristiano Ronaldo e eu poderia falar o Neymar, é uma opção. Mas como o Real vem ganhando tudo, conquistando tudo, um time que vem jogando muito bem, eu escolheria hoje, na ordem, Messi, Cristiano Ronaldo e Marcelo.

Você possui preferência por algum time de Minas Gerais? Cruzeiro? Atlético? Você jogaria em algum dos dois times de Minas?

São dois grandes clubes, com uma história bem linda, torcidas fanáticas pelos dois times. Quem sabe um dia, não é mesmo? Sou profissional, sou jogador, como eu disse, não sei o dia de amanhã, mas quem sabe. Já joguei com Robinho e Fred na seleção brasileira, então, com certeza, Cruzeiro e Atlético são dois grandes clubes.

O filme favorito de Willian: A Cabana

Música favorita: Me ajude a melhorar, do cantor gospel Eli Soares

Comida preferida: Sushi

Passeio favorito: Estar com a família, ir ao shoppping

Melhores férias: Dubai e a ilha de St. Barth, no Caribe

Pelé ou Maradona: Pelé

Melhor jogador do Chelsea: Tirando eu, o Hazard (risos)

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