Da Redação
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19/04/21
21h09

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Superliga Europeia: entenda toda a polêmica, situação e até impacto no Brasil

Anúncio da competição dominou o noticiário nas últimas horas

Da Redação | @otempo
19/04/21 - 21h09

A criação da Superliga da Europa, competição elaborada por 12 dos clubes mais ricos e poderosos do Velho Continente, foi uma bomba no mundo do futebol e agitou o noticiário esportivo desde o último domingo (18). Muito polêmico, o torneio tem provocado uma enorme discussão em vários âmbitos, e o Super.FC explica toda a situação e as discussões envolvendo o novo certame e também se ela poderia causar impactos no futebol brasileiro.

O que é?

A Superliga Europeia é uma competição criada por 12 times: Arsenal-ING, Atlético de Madrid-ESP, Barcelona-ESP, Chelsea-ING, Internazionale-ITA, Juventus-ITA, Liverpool-ING, Manchester City-ING, Manchester United-ING, Milan-ITA, Real Madrid-ESP e Tottenham-ING. Eles pretendem acrescentar três outros clubes ao grupo de fundadores, e que os 15 tenham participação fixa na disputa.

O torneio seria disputado por 20 equipes, com as outras cinco sendo definidas com base em desempenho em competições da temporada anterior. Elas seriam divididas em dois grupos, cada um com dez times, e jogos de ida e volta. Os quatro melhores avançariam ao mata-mata, também com duelos em ida e volta. A decisão seria em jogo único em sede neutra previamente definida. O campeonato começaria todo ano em agosto e não teria rebaixamento, nos moldes de grandes ligas americanas, como a NBA e a NFL.

Qual o motivo da criação?

Os 12 clubes fundadores alegam que a Superliga é fundamental para que eles se recuperem financeiramente dos prejuízos causados pela pandemia de Covid-19. A motivação da criação do torneio é buscar maiores receitas com direitos de transmissão, patrocínios e bilheteria em um campeonato que terá jogos mais atraentes que os disputados atualmente nas principais competições da Uefa (Champions e Europa League). Apenas na primeira temporada, a estimativa deles é que eles dividam cerca de R$ 23,4 bilhões, valor que não precisaria dividido entre times ou ligas menores, como faz a Uefa com a redistribuição dos ganhos com suas competições.

Outros clubes poderosos são contra

Nem todos os clubes mais poderosos da Europa concordam com a criação da Superliga e querem a existência do torneio. A dupla alemã Bayern de Munique e Borussia Dortmund, o PSG-FRA e times tradicionais como Ajax-HOL e Porto-POR, por exemplo, já se posicionaram publicamente contra a competição. "O Bayern não esteve envolvido nos planos para a criação da Superliga. Estamos convencidos de que a estrutura atual do futebol garante fundações seguras. O Bayern aprecia as reformas na Champions League porque acreditamos que elas são os passos corretos para o desenvolvimento do futebol europeu", disse o CEO do clube bávaro, Karl-Heinz Rummenigge. Já o presidente do Dortmund, Hans-Joachim Watzke, afirmou que " ambos os clubes alemães representados na diretoria da Associação Europeia de Clubes, Bayern de Munique e Borussia Dortmund, estão 100% de acordo com relação a essas discussões." Além deles, vários clubes de menor expressão também se mostraram contrários ao campeonato.

Possíveis punições

A Uefa, entidade máxima do futebol europeu, também se posicionou contra a criação da Superliga e ameaça punir os clubes fundadores e que participarem do torneio, inclusive, tentando até impedir a realização da disputa judicialmente.

"A Uefa, a FA inglesa, RFEF, FIGC, a Premier League, a La Liga, a Lega Serie A, mas também a Fifa e todas as nossas associações-membro permanecerão unidas em nossos esforços para impedir esse projeto cínico, um projeto que se baseia no interesse próprio de alguns clubes em um momento em que a sociedade precisa de solidariedade mais do que nunca. Vamos considerar todas as medidas à nossa disposição, em todos os níveis, judiciais e esportivos, para evitar que isso aconteça", afirmou a Uefa.

Entre as punições discutidas estão a exclusão ou rebaixamento em torneios nacionais e internacionais e a proibição de que jogadores das equipes envolvidas na Superliga atuem por suas seleções nacionais, o que os impediriam de jogar torneios como a Copa do Mundo, a Eurocopa, a Copa América, a Copa da Ásia, a Copa da África e a Copa Ouro da Concacaf, por exemplo. Não está claro, porém, se isso poderá acontecer já nas semifinais da Champions League e da Europa League, marcadas para a próxima semana.

Além da Uefa, as principais ligas europeias, entre elas, Premier League (Inglaterra), La Liga (Espanha) e Bundesliga (Alemanha) se posicionaram contra a Superliga e criticaram a competição e os 12 clubes fundadores. Em comunicado, a Premier League afirmou que "torcedores de qualquer time na Inglaterra e na Europa podem sonhar em chegar ao topo e enfrentar os melhores. Acreditamos que o conceito da Superliga acabaria com isso".

A Federação Alemã de Futebol (DFB, na sigla em alemão) foi além e atacou os 12 clubes fundadores da Superliga, os chamando de "egoístas". "O futebol sempre deve ter a ver com desempenho em campo. Ele decide a promoção e rebaixamento, bem como a qualificação para as respectivas competições. Os interesses comerciais de alguns clubes não devem levar à abolição da solidariedade e união há muito estabelecidas no futebol. Cada clube tem de decidir se pretende continuar a fazer parte da estrutura geral harmoniosa e organizada do futebol, ou seguir os seus interesses egoístas longe da Uefa e das associações nacionais de futebol", afirmou em comunicado.

Governos também envolvidos

As punições aos 12 clubes fundadores podem vir não "apenas" do mundo do futebol, mas também de governos. O governo do Reino Unido, por exemplo, se posicionou radicalmente contra a Superliga. O secretário de Estado para Cultura, Mídia e Esporte, Oliver Dowden, que teve uma reunião com o primeiro-ministro Boris Johnson, inclusive ameaçou até novos impostos a Manchester United, Manchester City, Chelsea, Liverpool, Arsenal e Tottenham, os clubes ingleses que estão entre os fundadores da competição.

"Não tenha dúvida que vamos agir. Vamos colocar tudo na mesa para evitar que isso aconteça. Estamos examinando todas as possibilidades, como reformas nas leis de competição e mudanças nos mecanismos que permitem a prática do futebol. Para colocar de maneira simples, vamos revisar tudo o que o governo faz para apoiar esses times a entrar em campo", garantiu o secretário.

Protestos

Além de clubes poderosos, ligas importantes e da Uefa, várias figuras importantes do futebol mundial e torcedores criticaram radicalmente a criação da Superliga. As principais críticas ocorrem porque o torneio causaria grande impacto na distribuição de poder e dinheiro do esporte, asfixiando os clubes médios e pequenos. Fãs do Liverpool-ING, um dos clubes fundadores da competição, por exemplo, colocaram faixas contra a Superliga e o envolvimento do clube na porta de Anfield Road. Além disso, o técnico do time, Jürgen Klopp, que é contra o campeonato, pode deixar os Reds por causa disso. A imprensa inglesa ainda especula que José Mourinho, agora ex-técnico do Tottenham, outro clube inglês fundador, demitido neste fim de semana dos Spurs e acumulando resultados ruins recentes, deixou o clube por ser contra a competição.

Já Gary Neville, ídolo do Manchester United-ING, outro inglês fundador do campeonato, e hoje comentarista da Sky Sports, fez um comentário emocionado que viralizou nas redes sociais:

“Eu torço pelo Manchester United há 40 anos na minha vida e estou com nojo. Absolutamente enojado. Estou com nojo principalmente do Manchester United e Liverpool. No Liverpool, eles dizem que “você nunca andará sozinho”, as pessoas do clube, os torcedores. Manchester United, 100 anos. Nascido de trabalhadores por aqui. E estão entrando em uma liga sem competição, da qual não podem ser rebaixados. É uma absoluta desgraça.

Honestamente, temos que lutar para recuperar o poder neste país pelos clubes que estão no topo desta liga. E isso inclui meu clube (Manchester United). Estou ligando há um ano, como parte de outro grupo, para que um regulador independente traga freios e contrapesos para impedir que isso aconteça. É pura ganância. Eles são impostores, eles não têm nada a ver. Os donos deste clube (Manchester United), os donos do Liverpool, os donos do Chelsea, os donos do Manchester City não têm nada a ver com o futebol neste país. Existem 100 anos de história neste país, de torcedores que viveram e amaram esses clubes. E eles precisam ser protegidos.

Eu me beneficiei do futebol enormemente. Eu ganhei dinheiro com futebol, investi milhões em futebol. Eu não sou contra dinheiro no futebol. Mas os princípios e o espírito de uma competição justa, o direito de jogar, para que o Leicester vença a Premier League, vá para a Champions... O Manchester United sequer está na Champions League. O Arsenal não está na Champions. Olhe para eles hoje. São uma bagunça em forma de clube no momento.

A motivação é a ganância. Tirem todos os pontos deles amanhã. Ponha-os na parte de baixo da liga. E tire o dinheiro deles. Sério. Você tem que pisar nisso. É um crime. É um ato criminoso contra os fãs de futebol neste país. Não se engane. Este é o maior esporte do mundo, o maior esporte deste país, é um ato criminoso contra os torcedores. Simples assim. Tirem os pontos. Tirem o dinheiro. E punam os clubes.

Você nunca ouve falar dos donos desses clubes. São “vendedores de garrafa”. Eles não têm voz. Eles provavelmente vão se esconder por algumas semanas e dizer que não têm nada a ver com isso. Eles só falam disso. Sério, no meio de uma pandemia, de uma crise econômica... Clubes das ligas nacionais quebrando, liberando jogadores. Clubes de ponta da League One (Terceira Divisão) e League Two (Quarta Divisão). Enquanto esse grupo está fazendo reuniões basicamente sobre se separar e gerar mais ganância. Piada”.

Pode acontecer?

Andrei Kampff, do Lei em Campo, explica ao Super.FC que do ponto de vista legal e judicial, a Superliga é viável, mas existe uma questão moral. "Antes de mais nada é preciso separar o que é legal do que é moral nessa discussão. Não concordo com uma competição de futebol, em um continente que vive o esporte como a Europa, que não haja critério desportivo para participação, apenas econômico. Isso é uma derrota gigante para a história do jogo. Agora, legalmente, a Liga é viável. Não se pode impedir um atleta de trabalhar, ou restringir a livre concorrência. Esse tem sido o entendimento também dos Tribunais ao julgar casos parecidos com a da Superliga, que discute monopólio, regras de participação e a livre concorrência", comenta.

Impacto no Brasil?

O especialista também fala sobre a possibilidade de a Superliga ter impacto no Brasil:

"Existe caminho legal para criação de ligas no Brasil Isso está previsto inclusive na Lei do esporte, a Lei Pelé. O Clube dos 13, lá nos anos 80, mostrou a força que os clubes tem quando agem de maneira coletiva, quando organizou um campeonato de maneira independente e fez a CBF ceder e negociar. Agora, é importante que esse caminho seja tomado com responsabilidade, entendendo ordenamento jurídico e realidade social do esporte. 

Importante também entender que esporte supera limites geográficos, mas não é independente. O que garante a estabilidade jurídica dele é a adesão de todos os participantes dessa cadeia às regras determinadas pelas entidades esportivas. Com o se fosse um contrato de adesão. Quando a entidade não entende o que o movimento esportivo quer, ele corre um risco e sofre irritações. As pessoas (atletas ou clubes) sempre estão livres a procurar a Justiça. No Brasil este direito é assegurado pelo artigo 5º da Constituição Federal. E se a Justiça entender que eles têm razão, o sistema jurídico do movimento esportivo sofre um baque gigante. E precisa ser revisto. O caso da Superliga pode ser mais um caso emblemático."

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