Ana Paula Moreira e Ana Paula Pedrosa
@super_fc
28/02/16
07h50

Mercado

Torcedoras ainda são desconhecidas pelos clubes de futebol

Mulheres mostram que, cada vez mais, também são consumidoras; apesar disso, clubes ainda engatinham no processo para atender a esse público

Torcida do Atlético começa a chegar no Ronaldão
Atleticanas comparecem ao estádio para apoiar e torcer pela equipe alvinegra — Foto: DOUGLAS MAGNO/O TEMPO
torcida mulheres cruzeiro
Torcida feminina do Cruzeiro foi homenageada no dia das mulheres — Foto: DENILTON DIAS / O TEMPO
Ana Paula Moreira e Ana Paula Pedrosa | @super_fc
28/02/16 - 07h50

Os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que as mulheres são a maioria da população brasileira (51,4%), estudam mais do que os homens, estão ganhando espaço no mercado de trabalho e, aos poucos, diminuindo a diferença de renda em relação a eles. Esse cenário, porém, não foi suficiente para chamar a atenção dos clubes de futebol, que dedicam pouco esforço para atraí-las.

“As mulheres precisam ser atraídas para o futebol por diversos motivos. Pelo aspecto social, é uma gritante necessidade igualar direitos de homens e mulheres, e o futebol poderia ser uma ferramenta poderosa. Pelo aspecto econômico, indicadores apontam a mulher como detentora de maior poder aquisitivo ainda jovem. Até pelo aspecto do espetáculo, ter mais mulheres no estádio ajuda a mudar o perfil do público, a atrair novas faixas etárias, como idosos e crianças, e a reduzir brigas. A mulher faz bem ao futebol”, conclui Rodrigo Capelo, especialista em negócios do esporte.

“Os clubes brasileiros têm tantos problemas para resolver que ainda não conseguiram pensar na mulher torcedora. Mesmo na Europa, que é um mercado mais maduro, esse movimento é recente”, diz o especialista em marketing esportivo, Erich Beting.

Ele acredita que os clubes só voltarão suas atenções para as mulheres e seu potencial como consumidoras, quando as outras fontes de receita já estiverem no limite de expansão. “Foi o que aconteceu com o Barcelona, por exemplo”, diz.

Já os clubes brasileiros, mal conhecem suas torcedoras. As pesquisas que mapeiam o perfil da mulher torcedora no país são poucas e antigas. Um estudo da Pluri, consultoria especializada em futebol, realizado em 2011,mostra que apenas 6% das mulheres frequentavam estádios. Já um outro levantamento, da Shophia Mind, consultoria especializada em mulheres, feito em 2010, aponta que 80% das brasileiras torcem por algum time.

Licenciamento. O professor de marketing da faculdade IBS/FGV, Fred Albuquerque, diz que não apenas as mulheres, mas todos os públicos, com exceção os homens adultos, são subestimados pelos clubes. “Eles matam a galinha dos ovos de ouro”, afirma.

O professor diz que o licenciamento de produtos tem um espaço enorme para crescer, mas é pouco explorado. “As linhas de produtos para mulheres, crianças, jovens são muito limitadas”, avalia. “Os clubes têm uma certa miopia mercadológica, não só com as mulheres. E, para crescer em receita, o caminho é olhar para esses públicos e ampliar o licenciamento de produtos”, explica.

17% dos sócios-torcedores do Brasil são mulheres; em Minas, o Cruzeiro tem 15% de sócias e o Atlético tem 9%; Internacional e Grêmio chegam a 25%, segundo pesquisa de 2015.

26% dos sócios-torcedores do Barcelona são mulheres; o clube catalão é o que tem o maior percentual de sócias no mundo e costuma desenvolver ações específicas para elas.

Clubes apontam crescimento no número de sócias

Apesar de os números apontarem para a mulher como uma grande consumidora do futebol, os clubes ainda não sabem aproveitar o potencial desse público. O motivo, segundo Capelo, e claro. “Porque os clubes são dirigidos por conselheiros homens, brancos, de meia e terceira idades, geralmente conservadores, sem formação específica para administrar um clube de futebol. Definitivamente não perceberam o potencial de consumo das torcedoras”, ressalta.

Os clubes ainda estão engatinhando neste quesito, mas já perceberam a importância da mulher no dia a dia do clube. “O Cruzeiro enxerga sua torcedora como um excelente nicho de mercado com alto potencial de consumo, com enorme poder de influenciar a todos para consumir os produtos do clube constantemente”, afirmou o diretor de marketing do clube celeste, Robson Pires. Ele destaca que o número de sócias cresceu nos últimos anos e que elas representam cerca de 20% do faturamento do clube.

“A participação do público feminino no mundo do futebol tem crescido muito nos últimos anos. A mulher, como torcedora, desfruta hoje de melhor infraestrutura e segurança nos estádios, pode se beneficiar de campanhas sociais e institucionais dirigidas ao público feminino, e consumir coleções de uniformes e produtos licenciados”, ressaltou a assessoria de imprensa do Atlético, que confirma o aumento de torcedoras do time tanto nos estádios quanto nas lojas oficiais do Galo.

Alexandre Arantes, gerente do programa de sócio-torcedor do América, denominado Onda Verde, afirmou que dos 1.804 torcedores que o clube tem, 243 são mulheres. Arantes também comentou que o clube vem desenvolvendo, desde o ano passado, promoções para que as torcedoras americanas compareçam em maior número aos jogos do clube. As promoções vão desde ingresso casado, com o sócio ganhando um bilhete para levar a esposa, por exemplo, até entrada em campo com jogadores. 

“O mais importante é ter a mulher como parte fundamental da política de comunicação e relacionamento do clube – o ano todo, e não só em datas comemorativas”, conclui Capelo.

Expressão vem delas

No início do século XX, o cronista Coelho Neto cunhou o termo “torcedor” baseado no comportamento feminino nos estádios. Na época, as pessoas usavam trajes sociais nos jogo. “Como o calor era grande, as mulheres tiravam as luvas e, como ficavam nervosas com o jogo, elas as torciam (...) Pois o Coelho Neto escreveu uma crônica em que ele usava a expressão ‘as torcedoras’, referindo-se às mulheres, e a expressão pegou”, diz o jornalista Luiz Mendes em artigo publicado no site da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. 

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