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Superação

A vida entre linhas e agulhas

Gleiton Malafaia Andrade deixou a criminalidade no passado para viver tecendo arte em BH

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Além de ser um ganha-pão, o crochê também funciona como um tratamento para Gleiton Andrade encarar a rotina das ruas
PUBLICADO EM 04/08/17 - 03h00

Aos 17 anos, ele viu a mãe ser assassinada pelo padrasto. No olhar, as marcas do passado ainda não foram superadas. No entanto, a violência que permeou a vida de Gleiton Malafaia Andrade, 39, hoje é uma cicatriz que não foi capaz de tirar a delicadeza e a concentração na hora de tecer um cachecol de crochê. Há três anos, ele confecciona tapetes, cachecóis e forros de mesa no local onde mora: as ruas da região Centro-Sul da capital mineira.

As cores das linhas não apenas dão vida às peças que ele produz. “É minha terapia. Enquanto teço, penso na vida que eu ainda quero para mim”, diz. O morador de rua aprendeu a prática na Penitenciária Professor Jason Soares Albergaria, em São Joaquim de Bicas, onde esteve preso por homicídio durante oito anos. “Tive um desentendimento com outro morador de rua e eu acabei o matando a tiros. Eu me entreguei à polícia. Enquanto pagava pelo crime que cometi, fui me tornando uma pessoa melhor e me envolvi nas aulas de crochê”.

As mãos calejadas de Andrade não hesitam ao realizar o movimento certo para um ponto perfeito. “Esse tapete que estou fazendo é o ponto alto-relevo. Sei todos os pontos, mas esse é o que acho mais bonito”, conta. As agulhas de alumínio feitas por ele ficam dentro de uma caixa de óculos que achou na rua. As linhas ficam distribuídas em duas sacolas de supermercado junto com as revistas que ensinam modelos de crochê. “Algumas revistas eu achei, outras, ganhei da mesma loja que me doa as linhas”, diz. Ele ainda conta que, “quando o movimento está bom”, consegue faturar R$ 200 por semana, chegando a R$ 800 por mês. “É daqui que tiro meu sustento”, destaca. Os preços dependem da peça e do tamanho, mas podem girar entre R$ 50 e R$ 150.

Passado triste. Morador de rua, Andrade conta que a criminalidade ficou no passado. “Vivo aqui tranquilo, fazendo meu crochê, dormindo e vivendo a vida como ela vem”, ressalta. Porém, as drogas ainda são um obstáculo em sua vida. “Vivo uma das minhas fases mais tranquilas, mas até hoje não consegui ficar livre do crack e da maconha. É muito difícil. O crochê me ajuda um pouco a ficar mais tempo longe das drogas”, revela.

Andrade foi para as ruas depois que a mãe, a dona de casa Ivani Malafaia Andrade, foi assassinada a facadas pelo padrasto dentro da casa onde moravam, no bairro Maria Helena, em Ribeirão das Neves, na região metropolitana de Belo Horizonte. Ele presenciou o crime. O padrasto foi preso, e, segundo Andrade, não se sabe do seu paradeiro. “Éramos só eu e minha mãe no mundo. Depois que ela se foi dessa forma, eu me perdi. Eu me vi sem rumo na vida e me afundei nas drogas”, conta.

Além disso, ele diz que é sobrinho do pastor Silas Malafaia, líder do ministério Vitória em Cristo, ligado à Assembleia de Deus, mas que nunca tiveram contato. “Ele é irmão da minha mãe, mas nunca tivemos contato, nunca procurou nossa família. Dele, só herdei o sobrenome”.

Em nota. A assessoria do pastor negou que ele tenha qualquer parentesco com Gleiton Andrade. “Pastor Silas Malafaia não teve irmã em BH nem sobrinho. É um equívoco a informação”.

FOTO: Alex de Jesus
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Delicadeza e concentração são expressas nas mãos de Andrade

População de rua cresce na capital

A população em situação de rua em Belo Horizonte apresentou um crescimento de 38% nos últimos meses. No primeiro semestre deste ano, segundo levantamento divulgado pela Secretaria Municipal de Políticas Sociais, 4.553 pessoas declararam-se em situação de vulnerabilidade social, sendo que 63% delas estão concentradas na região Centro-Sul.

Assim como Gleiton Malafaia Andrade, 30% dessa população relata problemas familiares como o principal motivo da vida nas ruas, e 98% são homens. Ainda segundo o levantamento, 83% declaram-se como negros ou pardos e 95% consideram-se analfabetos. Cerca de 92% dos moradores sobrevivem em situação de extrema pobreza, com renda de até R$ 85 mensais.

Há quatro anos sem expansão nos serviços de acolhimento, atualmente existem cerca de 900 vagas em casas de passagem, abrigos e condomínios sociais na capital. Mais de 90% dessas vagas foram criadas entre o final da década de 90 e início dos anos 2000.

Entre as ações da prefeitura, em média, são realizadas 120 abordagens diárias, com assistentes sociais e psicólogos. Para este semestre, um novo abrigo deve ser aberto, na avenida Paraná, na área central, com 120 vagas para homens. (Letícia Fontes)

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