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40 anos

Inquietação e permanência

Grupo Oficcina Multimédia apresenta “Macquinária 21” em comemoração à trajetória de pesquisa e resistência

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Ambição. Segundo espetáculo da Trilogia da Maldade, “Macquinária 21” reflete as engrenagens na busca e na manutenção do poder.
PUBLICADO EM 20/04/17 - 03h00

No livro comemorativo dos 30 anos do Grupo Oficcina Multimédia, o compositor Rufo Herrera, idealizador do GOM, resumiu: ali estavam três décadas de pesquisa, experimento e movimento. Mais uma década da história do grupo se completa neste ano, revelando os mesmos princípios e a permanente busca por uma linguagem própria. “Claro que muita coisa se modificou. Quando há pesquisa, busca, inquietação, que são essenciais aos artistas, as coisas sempre caminham para algum lugar, se transformam”, conta Herrera.

“O GOM evoluiu, caminhou, mas o mais importante é a continuidade. Não houve interrupção, não houve dúvida quanto ao propósito, que seguiu forte e seguro na atitude das pessoas do grupo porque a liderança da Ione de Medeiros (diretora) é muito segura. A continuidade é o mais importante. Estar ali presente, trabalhando, produzindo e experimentando. Essa condição é, pra mim, o que os outros chamam de sucesso”, completa.

As celebrações dos 40 anos do grupo, o mais longevo de Belo Horizonte, se iniciam com a reapresentação de “Macquinária 21”, uma livre adaptação de “Macbeth”, de Shakespeare, em uma referência aos tempos de violência e corrupção na busca pelo poder que vivemos.

Trajetória. A história já é conhecida, mas não custa repetir – em especial, porque Ione de Medeiros não se furta a lembrar. “Por favor, mencione nossas origens”, solicita. Ela se refere à Fundação de Educação Artística, instituição que a recebeu quando se mudou para Belo Horizonte no início dos anos 70 e abraçou também a concepção do Multimédia.

Já apontando para um interesse no experimento de diversas linguagens, Ione recebia indicações de que sua pesquisa artística encontraria consonâncias em Rufo Herrera. Ela, então, foi buscar entender o que as pessoas estavam enxergando nesse possível diálogo e foi assistir a “O Último Carro”, de João das Neves, espetáculo em que Herrera assinava a sonoplastia.

“Foi um trabalho que me marcou e mudou a cena brasileira. A peça quebrava a relação de palco italiano, colocando o público ao centro. A linguagem e o tema eram muito atuais, falando de um descarrilhamento de um carro como metáfora do país, abordando o povo, o cenário político, a pobreza. Jamais poderia imaginar que iria conhecer tão de perto o João das Neves e o Rufo Herrera, criadores daquele trabalho”, lembra Ione.

Seguida pelo encantamento, ela foi participar de uma oficina que Herrera, à época residente na Bahia, veio ministrar em 1977, durante o 9º Festival de Inverno da UFMG. “Eu senti que ali havia um potencial promissor. Ela tinha uma formação musical sólida. A própria vontade que senti nela de experimentar outras linguagens, o teatro, a cena, a dança, o visual, o corpo, me chamou atenção. Algumas pessoas se conformam com o que já atingiram. Ela queria ir mais longe. Foi essa a primeira impressão que tive de Ione e não falhou”, conta Rufo.

O primeiro espetáculo do grupo veio no ano seguinte: “Sinfonia em Ré-fazer”. De lá para cá, já foram 26 trabalhos, 22 deles com a direção de Ione, assumida em 1983. Em “Biografia”, sua primeira peça, Ione deu continuidade à pesquisa que trazia a música, a rítmica corporal e a relação com objetos como forte componentes do processo criativo. “O objeto entra no primeiro dia de pesquisa. Nunca mandamos fazer cenário. Já fizemos 21 colunas de latas. Somos catadores de lixo, de objetos cotidianos. Já fui parar no hospital porque limpava objetos com tiner. Quando você joga um objeto pra cima, ele faz o movimento dele e diz muito. E claro que temos uma memória de Duchamp, de tirar esses objetos do cotidiano e trazer novo código a ele”, conta a diretora.

A música, presente na estrutura de formação de Ione e Herrera, é também base para as criações do GOM. “Embora a Literatura seja minha segunda formação, não me dedico ao texto nos nossos espetáculos. Usamos fragmentos. Nesse sentido, a música sempre foi nossa base pelo caráter de abstração, do tempo e das texturas. A música como linguagem não é descrição, é figurativa. Por isso, nunca tive a necessidade de uma história contada de forma linear. Adotamos uma linguagem mais imagética e sugestiva. E trabalhamos a música, sobretudo, pela rítmica corporal em que entra um subtexto. Não é apenas para musicalizar a cena”, explica Ione.

Vocação. Ainda que com a trajetória consolidada e reconhecida, o GOM não está imune à cultura de desvalorização da arte, andando em cordas bambas na busca por viabilização de seus projetos artísticos, que vão além dos espetáculos, como a produção do Verão Arte Contemporânea e o Bloomsday. É a vocação, no entanto, que permite a permanência.

“O homem não é uma máquina que come, dorme e procria. Se sabemos que vamos morrer, por que tanta ambição? Tem algo em nós, que alguns chamam de alma, que nos complexifica. Nós temos ânsia por conhecimento, e arte alimenta isso. E por que isso não é importante para alguns? Porque não estamos falando de nada palpável, como a pesquisa por uma vacina. A arte requer certa perda de tempo. Ela não é imediata. Por isso, se não pode viver sem arte, não comece. E esse é o meu caso. Você vende sua alma para a arte, não é para o diabo”, reflete Ione.


Agenda

O quê. “Macquinária 21”
Quando. Nesta sexta-feira (21), às 21h
Onde. Grande Teatro do Sesc Palladium (rua Rio de Janeiro, 1.046, centro)
Quanto. R$ 20 (inteira) 

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