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Cinema

Memória resgatada do lixo

“Aterro”, que estreia hoje no Cine CentoeQuatro, recupera história perdida do antigo lixão do Morro das Pedras

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Esquecimento
Filme tenta registrar capítulo apagado da memória da capital
PUBLICADO EM 02/08/13 - 03h00

Foi quando ministrava oficinas de vídeo na comunidade do Morro das Pedras, anos atrás, que o diretor Marcelo Reis descobriu que o lugar onde trabalhava havia recebido o lixo da cidade inteira nos anos 1960. “Eu não era nascido. Mas muita gente que era também não sabia que a pedreira da fundação de Belo Horizonte foi um buraco físico onde se jogava o lixo”, afirma.

Pesquisando mais e tomando consciência da grandiosidade do tema, Reis percebeu que aquele não seria apenas um vídeo de oficina. “Chamei a Patrícia Vieira, que havia sido minha aluna, e decidimos fazer um documentário sobre a história”, conta.

O resultado é “Aterro”, filme que estreia hoje no Cine CentoeQuatro, com a presença do diretor para um debate após a sessão, depois de dois anos passando por festivais e ganhando prêmios no Brasil, EUA e Colômbia. O longa usa a história de sete mulheres, entre 52 e 78 anos, que foram catadoras no lixão para resgatar a memória social de uma parte de sua história que Belo Horizonte preferiu esquecer.

“Antes das filmagens, nós fomos visitar essas personagens com uma câmera bem simples para provar que essas histórias existem e pleitear isso na Lei [Municipal de Incentivo à Cultura]”, conta o cineasta, que só teve o projeto aprovado na segunda vez que o apresentou.

Os depoimentos das sete protagonistas era tão fundamentais, segundo o documentarista, porque não existem imagens ou fotos do aterro no Morro das Pedras. “Se você procurar em qualquer museu ou arquivo da prefeitura, não vai encontrar nenhum registro da existência dele, somente algumas poucas imagens no arquivo da SLU”, explica Reis.

Por isso, a primeira metade do filme consiste em reconstituir essa história através dos relatos de suas personagens. “A memória delas é tão importante porque essa história só pode ser contada no boca a boca, oralmente”, argumenta. Pela primeira meia hora de “Aterro”, as sete contam como chegaram ali, a rotina de trabalho, como encontravam dinheiro, fetos, viram colegas serem mortos por caminhões e até se alimentavam do que encontravam ali.

Essa relação peculiar com os resíduos sólidos volta na segunda metade, quando as personagens apresentam sua crítica do destino recebido pelo lixo na capital hoje. Para o diretor, na sua devassa do lixo, as sete foram pioneiras no conceito de reciclagem, tão em voga hoje. “Elas tinham consciência do que estavam fazendo e mesmo a visão delas hoje é muito crítica e parecida com a minha, que tenho uma formação acadêmica”, analisa.

Com isso, o documentário, pensado inicialmente como uma peça de memória do patrimônio de Belo Horizonte, foi abraçado pela causa ambiental em vários festivais especializados no tema pelo mundo. “Aterro” chegou a receber o Green Award no Third World Independent Film Festival de 2011, na Califórnia.

“O plano inicial não tinha nenhuma preocupação com essa causa ambiental. Mas eu acho que esse ‘reaproveitamento’ condiz com a história dessas mulheres e vai contra a ideia de filme como um produto sendo criado para ser visto e, depois, descartado”, filosofa o diretor.

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