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Fernando Fabbrini

Tempos modernos

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PUBLICADO EM 11/01/18 - 03h00

Oi, tio, tudo bem?

O tio estranhou o telefonema. O sobrinho ligava no Natal e Ano-Novo e, quando se lembrava, no aniversário do padrinho. Mas, em plena quarta-feira de uma semana banal, era novidade. Pensou logo o pior. Foi logo perguntando:

– Meu querido afilhado! Tudo bem em casa? Como vai sua mãe?

– Tudo bem, tio; tudo bem.

– Ah, que bom. O que você manda?

– Hum... Queria bater um papo com o senhor. Pode ser um café no shopping, o senhor pode?

O tio franziu a testa, preocupado. Primeiro, porque seu afilhado – sempre informal – tinha dito “senhor” – duas vezes –, e não “você”. Depois, porque convidou para um “café” – convite esquisito partindo de um jovem de 30 anos, bonitão, simpático, enturmado e consagrado parceiro das rodadas de chope. Café? Então, era coisa séria.

No caminho, o tio foi pensando nas possíveis razões daquele encontro. Estaria o rapaz com problemas financeiros? Algum aperto, uma emergência? Pelo que sabia, era um sobrinho organizado, responsável e maduro. Já formado e crescendo na profissão, tinha um bom emprego, carro do ano, poupança, essas coisas. Quando chegou ele já estava lá, pontual, assentadinho.

Trocaram um abraço apertado e tomaram café conversando amenidades: o clima doido, os eternos problemas brasileiros, a sem-vergonhice dos políticos. Quando o assunto e o café esfriaram, o rapaz remexeu-se na cadeira:

– Tio, queria uns conselhos...

Meu Deus! Conselhos? O tio engasgou-se com o restinho do espresso na xícara.

– Claro, querido; se eu puder lhe ajudar...

– Bom, tio... O negócio é o seguinte... Estou apaixonado! – e brilhou os olhos.

Ah! O sobrinho sabia a quem recorrer. Sobrevivente de inúmeras paixões frustradas, dois casamentos e alguns romances memoráveis, o tio-padrinho era considerado um homem experiente em assuntos do coração. Abriu um sorriso, solidário:

– Oba! E qual é o nome da felizarda?

– Suzana. Tô apaixonado mesmo, tio! Ela é um doce! Uma gracinha! Só penso nela; é a mulher de minha vida; quero namorar, ficar noivo, casar! O que ela quiser eu faço!

– Mas isso é ótimo! – disse o tio, dando um tapinha no ombro do rapaz.

– Ótimo nada, tio. Complicado...

– Por quê? A moça não lhe dá bola? É compromissada?

– Não, não... Livre, leve e solta. Nos vemos por aí, quase sempre.

– Tá esperando o quê? Vai lá e abre o jogo, rapaz! Declare-se!

– Chegar mais? Chamar pra sair? De jeito nenhum!

Poderia ser um caso clássico de timidez – ponderou o tio. Criatividade resolveria:

– Então, mande flores. Com um bilhete anônimo, bem romântico. Com sua tia, foi assim: fiz e deu certo. Ou uma serenata... No meu tempo, a gente...

Foi interrompido novamente:

– Ah, tio! Hoje é muito diferente.

– Sim, mas... Algumas coisas não mudaram...

O rapaz suspirou, olhou para os pés da mesa. Estava nitidamente deprimido.

– Mudou tudo, tio. Se eu disser assim, na lata, que ela é linda, sensual e irresistível, corro um risco danado.

– Tá com medo de levar um fora? Puxa! Todo homem já levou fora! Eu, na sua idade, colecionava desilusões. Mas sempre vale o risco! Cabe a nós, homens, nos aproximarmos delas com carinho e atenção... É biológico, primitivo, entendeu? Faz parte do jogo amoroso ancestral... Elas gostam de ser cortejadas!

O sobrinho interrompeu de vez as memórias ancestrais do velho padrinho:

– Virou “assédio”, tio.

– O quê?

– Isso que o senhor chama de “jogo amoroso” já era. Se eu olhar com o menor sinal de desejo... Se tentar uma aproximação... Um elogio... Se eu ousar pegar na mão dela...

– Ué... Não é assim mesmo?

– Hoje não, tio. A Suzana vai dizer que eu sou um safado. Que não respeito as mulheres. Vai me chamar de “porco machista”. Vai me apontar na rua, dedo em riste, me acusando de abordagem hostil. Vai me denunciar no Facebook pras amigas. Vai arrumar uma testemunha para provar que eu disse “fofinha”. Contratar uma advogada. Fazer um BO e me processar. Por isso...

– O quê?

– Acho que vou desistir da Suzana, tio.

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