Um ano após a Operação Contenção, que deixou 122 mortos nos complexos da Penha e do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro, a investigação sobre as mortes ainda não foi concluída. Relatório divulgado nesta quarta-feira (28) pela organização internacional Human Rights Watch (HRW) aponta falhas na coleta e na preservação de provas, além de problemas no uso das câmeras corporais dos policiais.

Segundo a entidade, nenhuma das 117 mortes de pessoas que não eram policiais aparece nas 4,4 mil horas de gravações analisadas. A operação, realizada em 28 de outubro de 2025 para combater o Comando Vermelho (CV), também matou cinco agentes de segurança e se tornou a ação policial mais letal da história do país.

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A análise da HRW identificou interrupções e lacunas nas imagens em momentos considerados importantes para a investigação. Em 55% das gravações examinadas, os registros foram interrompidos ou apresentaram falhas significativas por volta do meio-dia, período posterior ao qual ocorreu a maior parte das mortes.

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A organização aponta situações em que policiais teriam coberto as lentes, retirado os equipamentos dos uniformes ou deixado câmeras dentro de viaturas. Em alguns registros de disparos, as imagens também foram prejudicadas pela obstrução das lentes.

ONG aponta falhas na investigação das mortes

Além das gravações, a Human Rights Watch examinou os 122 laudos de necropsia e quase 9 mil páginas de documentos da investigação conduzida pelo Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ). A entidade também ouviu 41 pessoas, entre testemunhas, familiares e pesquisadores.

Segundo o relatório, a Polícia Civil não reuniu informações básicas sobre 115 das 117 vítimas que não eram policiais. A identificação dos agentes envolvidos nas mortes também não avançou na maioria desses casos.

A organização aponta ainda que os locais onde as vítimas foram encontradas não foram adequadamente preservados para a realização de perícias. Parte dos corpos foi retirada por policiais, enquanto dezenas foram levadas por moradores até a Praça São Lucas, na Penha.

De acordo com a HRW, equipes de perícia não foram enviadas ao local durante a retirada dos corpos. A demora e a exposição das vítimas às condições ambientais também prejudicaram o trabalho dos médicos-legistas.

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Os laudos apontam que mais de 40% das vítimas que não eram policiais foram atingidas na cabeça, mais de 60% receberam quatro ou mais tiros e quase 75% foram baleadas ao menos uma vez nas costas. Especialistas forenses consultados pela organização identificaram indícios de que parte das mortes pode ter sido intencional. Essas conclusões não substituem a apuração individual das circunstâncias de cada morte.

Ministério Público denunciou 28 policiais

O MPRJ informou que apresentou 12 denúncias contra 28 policiais militares envolvidos na operação. Todas foram recebidas pela Justiça. As acusações incluem crimes como roubo, furto qualificado, violação de domicílio, constrangimento ilegal, peculato e descumprimento das normas de uso das câmeras corporais.

As denúncias não representam condenações, e as circunstâncias das 117 mortes de pessoas que não eram policiais continuam sob investigação.

O Ministério Público ouviu 255 agentes públicos e 45 familiares de vítimas, além de produzir laudos periciais com escaneamento tridimensional dos corpos. A Polícia Federal concluiu a perícia das câmeras corporais da Polícia Civil, mas as cerca de 4,5 mil horas de gravações da Polícia Militar ainda não haviam sido integralmente periciadas, segundo informações publicadas pela Folha de S.Paulo.

O órgão também recomendou mudanças nos protocolos de operações policiais e no uso das câmeras. Entre os problemas identificados estão equipamentos descarregados, ausência de baterias extras e falhas no planejamento da distribuição dos dispositivos.

Penha continua sob influência do Comando Vermelho

Um ano depois da operação, o Complexo da Penha continua sendo apontado pelas investigações como uma base de lideranças do Comando Vermelho. Reportagem da Folha de S.Paulo identificou a permanência de criminosos procurados e a atuação de integrantes da facção em outras regiões do Rio e até na Bolívia.

Um dos nomes citados é Luiz Carlos Bandeira Rodrigues, conhecido como Zeus, investigado por comandar atividades criminosas na Muzema, na zona oeste da capital, e por manter conexões com integrantes da facção em Rondônia e em cidades bolivianas. Segundo a reportagem, ele tem mandados de prisão em aberto. Seu advogado não quis se manifestar.

A operação de outubro de 2025 tinha entre os alvos Edgar Alves de Andrade, conhecido como Doca ou Urso, apontado pela polícia como uma das principais lideranças do CV. Ele não foi localizado durante a ação e continua sendo procurado, segundo a Folha.

O balanço da operação também levanta questionamentos sobre o cumprimento dos mandados. A ação tinha uma lista de 51 alvos, mas apenas quatro foram capturados, enquanto outros dois já estavam presos e tiveram os mandados cumpridos na cadeia, conforme a reportagem.

Familiares e movimentos sociais lembram vítimas

Nesta quarta-feira (28), familiares, moradores e movimentos sociais realizam um ato na Praça São Lucas, na Penha, para marcar um ano da operação e homenagear as vítimas. A mobilização é organizada pela Frente Penha e reúne atividades culturais, depoimentos e ações de acolhimento às famílias.

A programação inclui uma caminhada pelas vias do bairro, distribuição de cestas básicas, apresentações artísticas e leitura de uma carta de repúdio à violência do Estado. O objetivo, segundo os organizadores, é manter viva a memória das pessoas mortas e cobrar medidas para evitar novas tragédias.

A mobilização também dá visibilidade aos impactos da violência sobre moradores de comunidades, especialmente mulheres, crianças e jovens. A Frente Penha defende maior atenção às necessidades da população, com acesso a direitos e serviços públicos, como educação e saúde.