BRUNA FANTTI E GABRIEL ARAÚJO / Folhapress. A passagem de um ciclone-bomba pelo Rio Grande do Sul nesta quinta-feira (6), com ventos de mais de 130 km/h, deixou um morto e um rastro de destruição no estado. Mais de cem municípios reportaram danos à Defesa Civil, e cerca de 228 mil imóveis seguiam sem energia até as 15h desta sexta (7). 

+ Por onde vai passar o ciclone-bomba hoje? Veja previsão atualizada

Siga O TEMPO no Google e receba as principais notícias
Seguir no Google

O vento destelhou residências e comércios. Em General Câmara (RS), cidade localizada a cerca de 76 km de Porto Alegre, as rajadas chegaram 134,3 km/h. Segundo relatório da Defesa Civil, a tempestade deixou 2.306 desalojados, a maioria de residentes de Novo Hamburgo, São Leopoldo, Sapiranga, Nova Hartz, Portão e Eldorado do Sul e Portão. Em Montenegro, um motociclista morreu ao ser atingido por uma árvore que caiu durante a ventania. Sua identidade não foi divulgada.

Segundo painel da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), às 15h desta sexta, 228.755 imóveis seguima sem energia. O número soma os clientes atingidos nas duas concessionárias que atuam no estado: CEEE Equatorial, com 148.033 unidades sem luz, e Rio Grande Energia (RGE), com 144.638. Pelotas é o município mais afetado, com mais de 22 mil residências sem luz

O temporal, associado ao avanço de uma frente fria e à formação de um ciclone extratropical no oceano, provocou danos em pelo menos 105 cidades do estado.

Em Pedro Osório, no sul gaúcho, um tornado se formou e destelhou casas. Outras cidades registraram queda de estruturas, árvores e alagamentos. Os ventos chegaram a 120 km/h em Porto Alegre, onde a operação da Trensurb (Empresa de Trens Urbanos de Porto Alegre) foi totalmente interrompida entre a noite de quinta e as 5h desta sexta, após a queda de uma árvore na rede aérea de energia em Sapucaia do Sul.

O Centro de Monitoramento da Defesa Civil do Estado (CMDEC) informou que o tornado se formou por volta das 17h15, ligado a uma supercélula - tempestade com rotação. Na semana anterior, outro tornado já havia atingido os municípios de Giruá, Sete de Setembro e Senador Salgado Filho, deixando quatro pessoas feridas; a Defesa Civil ainda não confirmou se houve feridos no episódio desta quinta.

O vento derrubou parte do muro do pátio de um presídio em Pelotas; equipes municipais retiraram os escombros ao longo da noite. A Polícia Penal informou que "a segurança do local foi reforçada pelas forças policiais" e que uma equipe de engenharia da Secretaria de Sistemas Penal e Socioeducativo (Sejusp) foi deslocada para avaliar a estrutura.

Em Esteio, o temporal danificou parte da estrutura montada no Parque de Exposições Assis Brasil, palco da Expointer. Em Porto Alegre, o Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae) alertou para risco de falta de água ou baixa pressão em ao menos 43 bairros, por causa da interrupção de energia nas estações de bombeamento.

O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) mantém alerta de vendaval até sábado (8) para 11 estados - Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Bahia -, com previsão de rajadas de até 100 km/h no Sudeste nesta sexta-feira. Segundo a Defesa Civil estadual, há risco de novas tempestades severas nos próximos dias, com rajadas superiores a 100 km/h, queda de granizo e chuva pontualmente intensa.

Entenda o que é um ciclone bomba

O ciclone-bomba se forma no encontro de duas massas de ar com temperaturas diferentes: uma fria e outra muito quente. Assim, há uma queda rápida na pressão atmosférica, causando fortes rajadas de vento e chuvas intensas, explicam especialistas.

+ Entenda o que é um ciclone bomba, que pode se formar no Brasil a partir desta quinta

Cidade de Santos tem ventos de 109 km/h

Os fortes ventos foram notados também no Sudeste, principalmente na região litorânea. Aulas foram suspensas no litoral paulista e no Rio de Janeiro nesta sexta-feira (7), e a região ficou em alerta, mas não registrou estragos de grande impacto.

Na manhã desta sexta-feira (7), a cidade de Santos, no litoral paulista, registrou uma rajada de vento de 109 quilômetros por hora (km/h). Houve a queda de uma árvore no município, mas ninguém ficou ferido.  

Na cidade de São Paulo e na região metropolitana não foram registrados danos significativos, mas as autoridades alertam para a possibilidade de ventania no período da tarde. Outras regiões do estado também estão sujeitas a ventos fortes a moderados, como o Vale do Paraíba, região de Campinas e litoral norte.

Também tiveram ventania nesta sexta Presidente Prudente (70,4 km/h), Itatinga (51,2 km/h), Sandovalina (49,9 km/h), Caraguatatuba (49,3 km/h) e Presidente Epitácio (49.3 km/h).

A Defesa Civil estadual montou um gabinete de crise e segue monitorando o impacto da ventania também à tarde. A previsão é que as rajadas continuem pelo estado de São Paulo neste sábado (8).

A navegação no canal do Porto de Santos foi suspensa às 6h45, devido à ventania. A partir das 8h20, em virtude da melhora das condições meteorológicas, a operação foi retomada. No início da noite, a Defesa Civil descartou, ao menos temporariamente, riscos generalizados relacionados ao ciclone.

Chuvas em pontos isolados no interior e no litoral ainda poderiam provocar danos localizados ao longo da noite e da madrugada.
Ao longo do dia, o órgão registrou estragos provocados por ventos fortes em 11 cidades paulistas. Não houve vítimas no estado.

Na Baixada Santista, Peruíbe suspendeu as aulas em 15 escolas após árvores caírem em vias públicas. Os municípios de Santos, Guarujá, São Vicente e Itanhaém também tiveram árvores derrubadas em vias públicas. Em Cubatão, uma casa foi atingida por galhos, mas nenhum morador se machucou. No litoral norte, Ubatuba suspendeu aulas em 54 escolas. Em Caraguatatuba, árvores caíram em quintais, praças e canteiros de vias públicas.

No interior paulista, Ourinhos teve um carro estacionado na rua atingido por uma árvore. Um muro de uma construção desabitada também veio abaixo. Em São Miguel Arcanjo, uma via foi fechada, também devido a uma queda de árvore.

+ Cristo, Bondinho e outros pontos turísticos do RJ são fechados por ventania

Fenômeno recorrente no Sul

Apesar dos impactos, ciclones extratropicais não são excepcionais no Sul. O meteorologista Willians Bini, da Metos Brasil, explica que esses centros de baixa pressão ocorrem todos os anos e são mais frequentes nesta época.

"Ciclones são algo muito comum. O que muda e acaba trazendo um impacto muito grande é o seu posicionamento, onde ele se forma e para onde se desloca, e a sua intensidade", afirma.

A meteorologista e consultora Andrea Ramos explica que o ciclone-bomba é um ciclone extratropical que passa por uma intensificação muito rápida, processo denominado ciclogênese explosiva. A classificação considera a velocidade da queda da pressão atmosférica, e não apenas a força dos ventos. Quanto maior for a diferença de pressão entre o centro do sistema e as áreas ao redor, maior pode ser a velocidade dos ventos.

Ramos diz que rajadas acima de 100 km/h podem ocorrer longe do centro do ciclone e dependem também do contraste de temperatura, da corrente de jato, da umidade e da trajetória do sistema.

As mudanças climáticas alteram o ambiente em que esses fenômenos se desenvolvem. Oceanos e atmosfera mais quentes disponibilizam mais calor e umidade. "A liberação de calor latente pode contribuir para o aprofundamento de determinados ciclones", afirma Ramos.

A sequência de episódios severos nas últimas semanas, entretanto, não significa que ciclones-bomba estejam se tornando mais frequentes no Brasil. Outro fator a ser levado em consideração é o El Niño. O fenômeno não cria diretamente um ciclone-bomba. Ele altera a circulação atmosférica e pode modificar a corrente de jato, o transporte de umidade e a trajetória dos sistemas, como explicam os especialistas.

"Para o episódio atual, diria que o El Niño pode contribuir para um ambiente de grande escala mais favorável à recorrência de sistemas frontais e chuva no Sul, mas não deve ser apontado como causa isolada do ciclone ou dos tornados", afirma Ramos.

(Com FRANCISCO LIMA NETO, BÁRBARA SÁ, CLAYTON CASTELANI E ALÉXIA SOUSA)