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Após 18 anos, novo caso de cólera no Brasil pode indicar risco de surto?

Diagnóstico de paciente da Bahia, na última semana, reacende debate sobre a condição infectocontagiosa, que afeta o intestino delgado

Por Nubya Oliveira
Publicado em 22 de abril de 2024 | 13:13
 
 
 
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Após o Ministério da Saúde confirmar um caso de cólera em Salvador (BA), a preocupação em torno da doença começa a se espalhar junto com a possibilidade de um novo surto. O diagnóstico da doença infectocontagiosa - que afeta o intestino delgado - foi caracterizado como autóctone, o que significa que o paciente contraiu a condição na própria cidade, sem viajar a outro lugar.

No Brasil, os últimos casos autóctones de cólera ocorreram em Pernambuco nos anos de 2004 e 2005, com 21 e cinco casos confirmados, respectivamente. A partir de 2006, não houve casos desse tipo, apenas importados, sendo um de Angola, notificado no Distrito Federal (2006); um proveniente da República Dominicana, em São Paulo (2011); um de Moçambique, no Rio Grande do Sul (2016); e um da Índia, no Rio Grande do Norte (2018).

Já em nível mundial, de janeiro a março de 2024, 31 países registraram casos ou declararam surto de cólera. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a região africana foi a mais afetada, com 18 países. Nas Américas há surtos declarados apenas no Haiti e na República Dominicana.

Diante da notificação mais recente da doença, surge o questionamento se há o risco de a condição voltar a ser comum no Brasil. “Apesar da ausência de casos, a cólera permanece como uma doença de alerta, porque ainda existem regiões onde o saneamento básico é precário, que não têm instalações de esgoto corretas, o que aumenta a chance de contaminação e de, provavelmente, disseminação da doença,” responde o infectologista do Hospital Vila da Serra, Cristiano Galvão. 

O especialista chama atenção para o saneamento básico porque a prevenção contra a cólera passa diretamente por condições adequadas de saúde pública. “Como a doença é transmitida pela ingestão de alimentos e água contaminados, a prevenção vai focar muito no consumo de água tratada, na higienização adequada dos alimentos e das mãos, no preparo da comida, ou seja, no investimento de políticas públicas de saneamento básico,” destaca.

Segundo Cristiano, é importante tomar muito cuidado porque a cólera tem graves consequências, inclusive, pode levar à morte. “A bactéria pode liberar algumas toxinas que vão agir no intestino e ser causa de uma diarreia de grande volume, de forma que o paciente se desidrata muito rápido e precisa de internação hospitalar. Por isso, a gente conta com o monitoramento frequente de Vigilância Sanitária.” 

O caso 

Na última sexta-feira (19/4), o Ministério da Saúde confirmou o caso autóctone de cólera em Salvador. Em nota, a Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente informou que o caso foi detectado em um homem de 60 anos de idade que  apresentou um desconforto abdominal e diarreia aquosa, em março de 2024. Duas semanas antes ele havia feito uso de antibiótico para tratamento de outra patologia. Segundo exames laboratoriais, a bactéria causadora da doença foi Vibrio cholerae O1 Ogawa.

A pasta ressaltou que trata-se de um caso isolado, tendo em vista que não foram identificados outros registros, após a investigação epidemiológica realizada pelas equipes de saúde locais junto às pessoas que tiveram contato com o paciente. 

O período de transmissão da doença é de um a dez dias após a infecção. Entretanto, para as investigações epidemiológicas, no Brasil, está padronizado o período de até 20 dias por margem de segurança Dessa forma, segundo o ministério, o paciente não transmite mais o agente etiológico desde o dia 10 de abril.

Os sintomas

A maioria das pessoas infectadas permanece assintomática (aproximadamente 75%) e, daquelas que desenvolvem a doença, a maioria apresenta sintomas leves ou moderados, e apenas de 10% a 20% desenvolvem a forma severa, que, se não for tratada prontamente, pode levar a graves complicações e ao óbito.

O período de incubação da bactéria, tempo que leva para provocar os primeiros sintomas no organismo, varia de algumas horas a 5 dias da infecção. Na maioria dos casos, esse período é de 2 a 3 dias. O período de transmissibilidade perdura enquanto a pessoa estiver eliminando a bactéria nas fezes, o que ocorre, na maioria dos casos, até poucos dias após a cura. Para fins de vigilância, o período aceito como padrão é de 20 dias.

Causa 

A cólera é causada pela ação da toxina liberada por dois sorogrupos específicos da bactéria Vibrio cholerae (sorogrupos O1 e O139). A toxina se liga às paredes intestinais, alterando o fluxo normal de sódio e cloreto do organismo. Essa alteração faz com que o corpo secrete grandes quantidades de água, o que provoca diarreia aquosa, desidratação e perda de fluidos e sais minerais importantes para o corpo. (Com informações da Agência Brasil) 

 

 

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