O indiciamento do assassino confesso do gari Laudemir de Souza Fernandes, de 44 anos, por homicídio qualificado, porte ilegal de arma e ameaça não atendeu às expectativas da viúva do trabalhador, Liliane França, de 44 anos. Ela, ao acompanhar com "agitação", como a mesma descreveu, a coletiva da Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) nesta sexta-feira (29/8), sentiu falta de outro crime que, na sua visão, se relaciona à conduta de Renê da Silva Nogueira Júnior, de 47 anos: o crime de racismo. 

"Para ele (Renê Júnior), cabe mais pena. Quando ele atirou, ele agiu com racismo. Não viu um ser humano, viu um saco de lixo. O Lau (apelido de Laudemir), para ele, não era nada. Eu esperava mais", desabafou Liliane. 

A viúva disse, ainda, que a responsabilização de Renê Júnior fica mais evidente a partir do momento em que o inquérito policial aponta que ele estava ciente do assassinato e, logo após o crime, pesquisou no celular as possíveis "consequências". O investigado chegou a sintonizar uma rádio mineira, supostamente para acompanhar as notícias relacionadas ao caso.

"Ele estava super ciente. Caiu por terra todas as histórias que ele contou. Realmente, ele saiu de casa aquele dia para atirar. E saiu do crime com a certeza de que ficaria impune. Na dúvida, fez pesquisas no celular. É pouco. 30 anos é pouco. Como pode? Ele fez de tudo para atrapalhar (a investigação), encenou, contou outras histórias. Nós queremos justiça", disse a viúva. 

Enfrentando o luto 

Liliane França, com a voz embargada, falou sobre a dificuldade de tentar viver um luto ainda tão recente, enquanto acompanha o avanço do processo criminal da morte do marido e luta por melhores condições de serviço para os trabalhadores de limpeza. "Está difícil demais", fez uma pausa. "Eu não estou conseguindo viver. Vou para um lado e para o outro pedindo Justiça. Tenho que ajudar os colegas do Lau, os garis, que estão com medo de trabalhar, com trauma do ocorrido. Nossa Justiça tem muitas brechas, é muito vulnerável", desabafou.

"Não estamos conseguindo viver nosso luto. Minha sogra diz que não consegue tirar a imagem do crime da cabeça. Estamos tentando lutar, para que Justiça seja feita e os garis sejam respeitados, mas é difícil. Vamos fazer o que? Viver em tratamento? Não é justo", indignou-se.

Inquérito policial

De acordo com o inquérito da Polícia Civil, Renê vai responder por homicídio duplamente qualificado por motivo fútil e pelo uso de meio que impossibilitou a defesa da vítima (o tiro). Além disso, ele também foi indiciado por ameaça à motorista do caminhão de lixo e por porte ilegal de arma. De acordo com a polícia, as penas, somadas, podem chegar a 35 anos de prisão, o que será definido pela Justiça somente no dia do julgamento. 

A delegada Ana Paula Lamego Balbino também deverá ser responsabilizada, no caso dela por ter emprestado a arma usada no assassinato do gari Laudemir para o marido, Renê Júnior. Procurada, a defesa de Renê informou que só irá se manifestar após a análise do Ministério Público sobre o pedido de reprodução simulada do crime, protocolado nesta sexta-feira (29/8). A reportagem tentou contato com Ana Paula, mas não obteve sucesso. O espaço segue aberto para um posicionamento. 

Veja o que se sabe sobre a confusão de trânsito que acabou com a morte do gari Laudemir de Souza Fernandes

O crime

Na manhã de segunda-feira (11/8), por volta das 9h, houve uma confusão no trânsito no bairro Vista Alegre, região Oeste de Belo Horizonte. Um caminhão de coleta de lixo estava parado quando um carro BYD cinza, vindo na direção contrária, se aproximou. O motorista do carro — apontado como o suspeito — teria sacado uma arma e ameaçado a condutora do caminhão, dizendo que “iria atirar na cara” dela. Logo depois, ele teria atirado contra o gari Laudemir de Souza Fernandes, que estava trabalhando na coleta.

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O gari foi atingido na região torácica, próximo às costelas, e socorrido ao Hospital Santa Rita, em Contagem, mas não resistiu aos ferimentos. Após o disparo, o suspeito fugiu no mesmo carro BYD cinza e foi localizado pela polícia na tarde do mesmo dia, enquanto malhava em uma academia de alto padrão no bairro Estoril. Ele foi preso sem oferecer resistência. Conforme relatos das testemunhas, pouco antes de ser atingido, Laudemir teria dito: “Acertou em mim”. Testemunhas que estavam no local do crime afirmaram que o suspeito “saiu tranquilo e com semblante de bravo” após atirar na vítima.

Vídeos mostram passos do empresário após o homicídio

Imagens de câmeras de segurança registraram os passos do empresário momentos após a morte do gari Laudemir. Segundo o delegado Evandro Radaelli, responsável pela investigação do caso, Renê manteve uma rotina "normal" mesmo após o crime. 

As imagens mostram o suspeito na sede da empresa em Betim, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Ele chegou ao local por volta das 10h30 e cumprimentou colegas de trabalho. Cerca de duas horas depois, Renê dirigiu-se à sua residência e, logo após estacionar o carro na garagem do prédio, guardou a arma supostamente usada no crime na mochila.

Pouco tempo depois, vestido com camisa branca e shorts azuis — a mesma roupa que usava quando foi preso na academia —, passeou com seus cachorros. O vídeo mostra o empresário conversando ao celular enquanto estava com os pets.

A vítima

A vítima foi identificada como Laudemir de Souza Fernandes, 44 anos, gari da Localix Serviços Ambientais. Colegas e parentes o descrevem como trabalhador, pacífico e dedicado à família. Laudemir deixou esposa, uma filha de 15 anos e enteadas; segundo testemunhas e familiares, era muito querido no trabalho e em casa.

Segundo Ivanildo Gualberto Lopes, sócio-proprietário da Localix, Laudemir tentou apaziguar a situação durante a confusão no trânsito e acabou sendo atingido enquanto trabalhava. “Agora vai estar nas mãos da Justiça e nós iremos acompanhar”, afirmou Ivanildo.

Renê confessa ter matado gari

Renê da Silva Nogueira Júnior, 47 anos, confessou ter matado o gari Laudemir durante interrogatório no Departamento Estadual de Investigação de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), uma semana após o crime, na segunda-feira de 18/8. Segundo a Polícia Civil, o empresário alegou que efetuou o disparo durante uma discussão de trânsito. Ele também afirmou que a sua esposa, a delegada Ana Paula Lamego Balbino, não tinha conhecimento que ele havia se apoderado de sua arma, uma pistola, calibre .380.

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Inicialmente, Renê havia negado a autoria durante o depoimento prestado após ser preso na tarde de segunda-feira (11/8). Naquele momento, ele havia afirmado que, no dia do homicídio, saiu de casa às 8h07 e seguiu o trajeto habitual até Betim, onde trabalha, sem nenhum tipo de intromissão. 

Esposa de empresário: investigação da Corregedoria, arma e ação do MP

Uma pistola calibre .380, pertencente à delegada Ana Paula Lamego Balbino — apontada como esposa do suspeito —, foi entregue à Corregedoria para perícia e apuração sobre cautela e guarda do armamento. Na sexta-feira (15/8), a polícia confirmou que a arma utilizada na morte do gari Laudemir está, de fato, registrada no nome da delegada Ana Paula e é de uso particular, sem vínculo com o armamento fornecido pela corporação. 

Ana Paula é alvo de investigação da Corregedoria-Geral da PCMG, que apura “elementos relacionados à eventual conduta da delegada que possui vínculo pessoal com o suspeito detido”. O empresário Renê da Silva Nogueira Júnior afirmou, em depoimento à polícia, que pegou a arma particular da esposa sem seu conhecimento. 

O Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) solicitou a “responsabilização solidária” da delegada Ana Paula Lamego Balbino no caso que apura a morte do gari Laudemir de Souza Fagundes, de 44 anos. Na visão do MPMG, a medida deve atingir também a esposa do suspeito, por entender que, como dona da arma de fogo usada no crime, ela responde solidariamente pelo caso. 

O pedido foi feito na terça-feira (19/8) e, em parecer anexado aos autos do processo, o MPMG requereu o bloqueio de até R$ 3 milhões, “com preferência para dinheiro em espécie ou depositado em qualquer modalidade de instituição e aplicação financeira para assegurar eventual ressarcimento aos familiares da vítima".

Em depoimento, a delegada Ana Paula Balbino afirmou não ter conhecimento sobre qualquer participação do marido em infração penal. A reportagem de O TEMPO tentou contato com a delegada, tanto por telefone como pessoalmente na delegacia onde ela atua, mas até o momento ela não se posicionou.

Homenagens e velório

Familiares, amigos e colegas se reuniram na manhã de terça-feira (12/08) na Igreja Quadrangular, em Nova Contagem, para o velório de Laudemir. Em falas marcadas pela revolta e pela dor, parentes o descreveram como “uma pessoa muito trabalhadora, uma pessoa honesta, muito carinhosa e protetora, que morreu trabalhando.” 

A enteada Jessica França, 25, disse que a família está em choque e cobrou justiça. Ela informou que Laudemir é “uma pessoa muito trabalhadora, uma pessoa honesta, muito carinhosa e protetora, que morreu trabalhando. Saiu de casa cedo, era um dia que ia chegar mais tarde, mas não voltou. Todo domingo de manhã ele fazia café da manhã, cuidava da gente.” Em coro, colegas e o patrão também pediram que o caso não fique impune.

Emocionada, a esposa do gari, Liliane França, afirmou: “O Lau não voltou. Me devolveram o Lau no caixão. Não pode ficar assim, tem que haver uma mudança, tem que haver justiça.” Ela também cobrou respeito à categoria e lembrou das dificuldades e da falta de tolerância enfrentadas pelos garis.

A mãe do gari Laudemir de Souza Fernandes passou mal durante o velório do filho. Abalada, ela foi amparada por familiares e levada a um hospital após apresentar pressão muito baixa, conforme relatou a sobrinha de Laudemir. 

Ivanildo Gualberto Lopes, sócio-proprietário da Localix, disse: “Agora vai estar nas mãos da Justiça e nós iremos acompanhar.” Ele reforçou que a categoria está sensibilizada e exigiu responsabilização: “Estamos clamando por justiça. A nossa categoria é muito forte. Então não mexa com os garis.”

Quem é o suspeito

Renê da Silva Nogueira Júnior, de 47 anos, é o suspeito de matar o gari Laudemir de Souza Fernandes, de 44. Ele se apresenta no LinkedIn como alguém que “transforma empresas e acelera resultados através de liderança estratégica e inovação”. Ele é marido da delegada da Polícia Civil de Minas Gerais Ana Paula Balbino Nogueira.

Segundo o perfil profissional, Renê tem 27 anos de experiência executiva no setor de alimentos e bebidas e afirma possuir “histórico comprovado de gerar crescimento exponencial e liderar transformações organizacionais complexas” no mercado brasileiro e internacional.

Ele já ocupou cargos executivos em empresas como Coca-Cola, Vigor, Red Bull e Ambev. Sua experiência mais recente começou em agosto, quando assumiu a diretoria de negócios da Fictor Alimentos. Após a prisão, a empresa informou que ele havia iniciado as atividades há menos de duas semanas, repudiou a conduta atribuída ao funcionário e manifestou solidariedade à família da vítima.

Em seu LinkedIn, há uma recomendação escrita pela esposa, na qual ela afirma que ele é um “homem de caráter irrefutável”.