Sílvia Pires - Pela quarta vez, um terreiro de umbanda em Esmeraldas, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, foi alvo de vandalismo. Desta vez, além da destruição de objetos religiosos, os invasores furtaram cadeiras e levaram parte dos elementos litúrgicos. Diante dos danos, o espaço, localizado às margens da Rodovia Fernão Dias, permanecerá fechado por tempo indeterminado para a realização de rituais de reorganização e reconstrução.
À reportagem de O TEMPO, o pai de santo Murilo Vieira Rodrigues, conhecido como Pai Murilo de Oxalá, contou ter registrado boletim de ocorrência na última quinta-feira (30) e afirma que agora revive um trauma que parecia ter ficado no passado. Em julho de 2022, quando o terreiro funcionava em outro endereço, a apenas dois quarteirões do atual, a comunidade sofreu três invasões em sequência.
Depois de quatro anos sem novos episódios, a violência voltou. “Agora tenho que enfrentar, junto com a minha egbé, a minha comunidade, tudo de novo”, lamenta o sacerdote da Fraternidade Jesus Amigo.
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Segundo Murilo, o furto de 15 cadeiras foi o menor dos prejuízos. O maior impacto foi a destruição dos assentamentos religiosos. Essas estruturas permanentes são confeccionadas com elementos da natureza, como pedras, ervas, metais e recipientes de barro ou louça, e representam um portal de proteção, defesa e sustentação energética para os trabalhos espirituais desenvolvidos no terreiro.
“O problema foi o tanto de coisas que quebraram. Assentamentos de orixá, de Exu, muitos foram danificados. Arrebentaram as miçangas do brajá. Parte dos assentamentos que não conseguiram quebrar, levaram embora”, relata. Apesar do novo endereço, o sacerdote afirma que nunca teve problemas com os moradores da região. Pelo contrário. “Dos meus vizinhos eu não posso falar nada. Sempre respeitaram a nossa casa. Isso me leva a uma indignação ainda maior", comentou.
A extensão dos danos, desta vez, obrigou a suspensão das atividades religiosas. Além da limpeza do espaço, será necessário realizar procedimentos ritualísticos antes que as celebrações possam ser retomadas. “Os meus mais velhos precisam vir aqui. Não sei quanto tempo isso vai levar, nem se será suficiente. Foram três carrocerias de caminhonete cheias de lixo e de elementos religiosos destruídos”, afirma.
Histórico de intolerância na cidade
Para ele, o caso não representa um episódio isolado. Murilo lembra que outros dois terreiros também foram atacados em Esmeraldas em 2022 e atribui a repetição da violência à falta de responsabilização pelos crimes anteriores. “Eu vejo muito isso como uma questão de impunidade. Vai muito além da privação do direito religioso. É um ataque massivo a um ponto de fé, de cultura e de assistência. Parece que isso não é prioridade para ser contido", lamenta.
Em um vídeo publicado nas redes sociais após o ataque, Murilo aparece emocionado ao falar dos estragos e questiona por que praticantes de religiões de matriz africana ainda precisam investir em segurança para conseguir exercer a própria fé. “Até quando, para professar a nossa fé, teremos que buscar medidas de segurança porque o desrespeito e a falta de compreensão imperam?”, questiona.
O sacerdote destaca que os invasores destruíram o assentamento de Exu, mexeram em objetos ligados a Ogum e levaram elementos relacionados ao seu inquice, tradição do candomblé de Angola na qual também foi iniciado.
Apesar da violência, ele afirma que sua espiritualidade permanece intacta. “Aquilo foi construído com tanto amor, carinho e devoção e foi desrespeitado por alguém que não sabe o seu valor. Mas meu santo está no meu mutuê. Onde tiver orixá, eu vou estar. Já toquei na chuva, minha casa já encheu de barro e nada parou aquilo que o Orixá determinou”, disse.
Murilo também fez um apelo para que a comunidade de religiões de matriz africana permaneça unida diante da violência “para que isso não aconteça mais”. “É triste que, enquanto sociedade, a gente ainda experimente esse tipo de violência”, disse. Enquanto organiza a recuperação do espaço, Murilo também pede doações para ajudar na reconstrução do terreiro e no reforço da segurança.
Agora, além dos custos para reconstruir o espaço, a comunidade precisará investir em equipamentos de segurança, algo que, segundo o sacerdote, nunca fez parte dos planos da casa. “Nossa prioridade era investir na estrutura do terreiro, que ainda está em construção. Agora estamos fazendo mutirão e vaquinha para instalar um sistema de segurança já na próxima semana. Hoje, o maior apelo é para que o sistema de segurança pública possa nos respaldar para que possamos exercer nosso culto de forma mais leve”, comenta.
Intolerância religiosa em Minas
O caso ocorre em um cenário em que a intolerância religiosa segue presente em Minas Gerais. Dados da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos mostram que o Disque 100 recebeu 156 denúncias de intolerância religiosa no Estado apenas no primeiro semestre deste ano, além do registro de 313 violações relacionadas ao tema.
No mesmo período de 2025, haviam sido contabilizadas 209 denúncias e 350 violações. Ao longo de todo o ano passado, Minas registrou 321 denúncias e 540 violações. O Disque 100 é o canal oficial do governo federal para denúncias de violações de direitos humanos, incluindo casos de intolerância religiosa.
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