Impactada pelo lixo e o esgoto que atinge diariamente o espelho d`água, a Lagoa da Pampulha por pouco não foi atingida por mais uma grande fonte de poluição: quase 30 toneladas de piche que vazaram após um acidente na última quarta-feira (16) na Via Expressa, em Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte. Por pouco, o material não atingiu o manancial e foi barrado próximo ao entroncamento das avenidas Otacílio Negrão de Lima e Atlântica, já na altura do Parque Ecológico da Pampulha.

De acordo com a prefeitura da capital, mais de 86% do material já foi retirado após a instalação de duas barreiras, fato que só aconteceu na última sexta (18). O poder público ainda descarta qualquer risco do material atingir a lagoa. O piche atingiu uma galeria pluvial que fica na via e chegou até o córrego Sarandi, um dos mananciais que formam a Pampulha – a distância entre o local do acidente e o parque é de quase 14 km. Porém, os danos provocados ao leito ainda serão estudados.

Diante do risco, foi montado um grupo de trabalho emergencial que contou com a empresa responsável pelo material, Indústria Nacional de Asfaltos S/A, além de representantes das prefeituras de Contagem e Belo Horizonte, Defesa Civil, Copasa e Secretaria de Estado de Meio Ambiente. Animais chegaram a ficar presos no piche e foram resgatados, limpos e soltos no Parque Ecológico. Ainda foram disponibilizadas clínicas veterinárias parceiras para recebimento de animais em caso de necessidade. 

Ainda foi realizada uma reunião na tarde desta segunda (21) para "avaliar o acidente, definir as ações de rescaldo final, bem como instaurar processo de investigação para apurar os danos causados e o nível de gravidade, para posterior aplicação das medidas legais cabíveis, como notificações, multas e/ou medidas compensatórias, se necessário", informou a prefeitura de Contagem. Como a empresa responsável tem sede em Goiânia (GO), o encontro aconteceu parte presencial e parte online.

Bocas de lobo entupidas

O vazamento do piche deixou duas bocas de lobo entupidas na Via Expressa e a limpeza foi iniciada. Segundo a prefeitura do município, será realizada uma inspeção técnica em toda a tubulação que cai no córrego Sarandi para avaliar os danos estruturais e se há resíduo de material. Idealizador e fundador do projeto Manuelzão, o professor de Medicina da UFMG, Apolo Lisboa, lembrou que o piche é transportado em caminhões a mais de 100ºC de temperatura e, em contato com a água, sai do estado líquido e torna-se sólido. Com isso, boa parte do material fica depositada no fundo das galerias.

"O piche é o que restou do processo de beneficiamento do petróleo. É uma borra dura e viscosa, que pode ir diluindo na água bem devagar. Quando vai fazer o transporte, ele também vem com aditivos para ficar líquido. E eles vão se espalhando pelo Sarandi, estará na água que os pássaros vão beber, os jacarés da Pampulha. Isso destrói a vida animal, porque eles precisam de água limpa assim como o ser humano", disse.

Especialista diz que resposta foi demorada

Para Apolo Lisboa, a resposta para conter o vazamento do piche na córrego Sarandi, que faz parte da bacia hidrográfica do ribeirão do Onça, um dos afluentes do rio das Velhas, foi demorada. "Aconteceu o acidente na quarta-feira à tarde, dois dias depois o pessoal viu chegando piche no córrego Sarandi, já quase entrando no lago. Ou seja, se perdeu um longo tempo e não houve uma comunicação. O pessoal parece que não sabia para onde o material estava indo", acrescentou. 

Segundo o especialista, o piche deveria ser contido próximo ao local do acidente. "Se você segurasse o problema ali, teria evitado o dano ambiental em toda a bacia do Sarandi. Essa poluição diluída vai chegar no rio das Velhas, municípios ribeirinhos abaixo de Belo Horizonte, e vai para a bacia do rio São Francisco. A natureza vai se poluindo toda, não é de uma hora para outra. Tem um efeito cumulativo". Além disso, o idealizador do projeto Manuelzão criticou a canalização dos córregos, que deixa problemas como esse escondidos aos olhos da população.

"O córrego Sarandi podia não estar do lado (do acidente), mas a água vai para lá. E é um manancial que está muito canalizado, só na área mais rural de Contagem que não está, inclusive os afluentes. E por conta disso, você não tem visão do perigo, não enxerga. Ou seja, existe um problema quando canaliza córrego, temos combatido isso há décadas, é uma crítica técnica que a boa engenharia não faz mais no mundo inteiro", declarou.

'Mau cheiro está muito forte aqui na região'

Quem circula pela região para fazer caminhada ou andar de bicicleta no entorno da Lagoa da Pampulha diz que os danos já são visíveis. É o caso do advogado César Felipe, 42. "Após o acidente, o mau cheiro está muito forte aqui na região. Ando de bike aqui sempre que posso, e sinceramente estou desanimado em continuar me exercitando por aqui", disse. 

Já o aposentado Heleno Paulino, 72, lembrou que problemas como esse não devem ser vistos como normais. "Agora, temos que correr atrás para sanar esse dano, mas sabemos que é difícil reverter desastres ambientais", acrescentou. A servidora pública Dênia Ferreira, 41, também reclamou do mau cheiro após o acidente. "Ver essa paisagem comprometida é preocupante. Ando de bike por aqui quando tenho tempo".

E quem também deus as caras na Pampulha nesta segunda foi um dos jacarés que vivem na lagoa, após um longo período sumido. No entanto, o réptil pode ser ameaçado pelo piche caso o material tóxico avance e tome a lagoa. (Com Alice Brito)