A única personagem de "Tipos de Gentileza" que se aproxima da ingenuidade da protagonista de "Pobres Criaturas", filme anterior do diretor grego Yorgos Lanthimos, é a veterinária vivida por Margaret Qualley no terceiro e último episódio.
Há nela um misto de candura e fragilidade, diferentemente dos outros personagens do filme que acaba de chegar aos cinemas. A galeria de "Tipos de Gentileza" exibe uma discrição falsa ou, para contrariar o título, uma gentileza perversa.
Essa perturbadora contradição é o motor do filme e não assusta a quem conhece os primeiros trabalhos de Lanthimos, que chega às raias do sadismo ao acompanhar personagens em atitudes que fogem a qualquer razão.
Lanthimos arrefeceu esse olhar impiedosamente sarcástico e chocante das relações humanas em sua entrada em Hollywood, com "A Favorita" e "Pobres Criaturas", ambos indicados e premiados no Oscar, mas reabre esse quarto escuro de sua arte em "Tipos de Gentileza".
O que era de se esperar ao convocar o roteirista Efthymis Filippou, o mesmo de "Dentes Caninos", pertencente à fase grega. Como neste filme, Tipos" fala de uma sociedade canibalística que legitima suas ações por meio do status social e domínio machista.
Esse desejo de "comer" o outro é expresso literalmente no segundo episódio, quando um policial acredita que a mulher foi dominada por outro ser, como hospedeira de um alienígena. O fato de se portar de maneira diferente é o gerador do incômodo.
É onde o filme se aproxima de "Pobres Criaturas", ao abordar a necessidade de controle machista. Apesar da profunda estranheza provocada pelas histórias, com finais inusitados, esse é um ponto claro na proposta de Lanthimos.
Os homens estão à frente desse universo doentio escondido ou endossado pelas regras da sociedade. Neste sentido, parece "normal" que um poderoso empresário brinque de Deus, exigindo comportamentos inusuais aos seus empregados.
Lanthimos entra no campo do horror e do humor ácido ao exibir uma realidade formada por monstros e cobaias. O cientista de bom coração que cria uma Frankenstein feminista, em "Pobres Criaturas", é colocado do avesso.
E o diretor se vale dos mesmos Willem Dafoe e Emma Stone para estabelecer essa contraposição pessimista e cruel. A atriz morre triplamente, como resultado dessa hegemonia masculina nas áreas que mais necessitamos em nossa existência.
Estão lá o trabalho, o amor e a religião. Em todos eles somos escravizados ou punidos ao querer se opor. É o caso do personagem de Jesse Plemons, que, para ter uma vida minimamente estável, precisa aceitar a interferência do chefe.
O que incomoda nesses filmes de Lanthimos é a falta de redenção ou qualquer tipo de bálsamo para tamanho despejo de ironia mórbida. O diretor parece se contentar com essa reação de estranhamento do público.
As três narrativas curtas poderiam facilmente ser desenvolvidas como longas independentes, pela complexidade dos temas e dos personagens, mas Lanthimos não quer dar muito para o público refletir.
Há uma ânsia de choque que compromete o resultado do "Tipos". Talvez conseguisse o mesmo efeito desconfortável se deixasse cada história ser construída a ponto de ser impressa em nossas mentes. E não no estômago. Um golpe baixo e desnecessário.