Giros, saltos, a suspensão corporal, o desafio do equilíbrio. Choques contra o chão ou mesmo contra outros corpos. Movimentos cadenciados, pautados pela flexibilidade e sincronia, que exigem força e fôlego, em um esforço sempre bem-disfarçado por semblantes leves, e desenvolturas que fazem todo rigor da execução, com pouquíssima margem de erro, parecer tão fácil quanto brincar com um boneco articulado.

De maneira bastante resumida, porque há muito mais em jogo, esta será a tônica dos próximos cinco dias dos bailarinos do Grupo Corpo, que se preparam para realizar sua temporada anual em Belo Horizonte a partir desta quarta-feira (11). Neste ano, com apresentações até domingo (15), no Grande Teatro Palácio das Artes, a companhia de dança deleita o público com um programa que reúne dois de seus balés mais pedidos: O Corpo, concepção do ano 2000, com trilha do cantor e compositor Arnaldo Antunes, e Benguelê, de 1998, com música de João Bosco. 

As coreografias são assinadas por Rodrigo Pederneiras e dialogam com propostas diversas entre si, sendo classificadas até como criações antípodas por representarem universos aparentemente opostos, como o urbano e o sertanejo, o contemporâneo e o ancestral, o pop e a dança popular. Ao mesmo tempo, por outro lado, são vistas como complementares no seu afeto brasileiro.

Para dar conta dos cinco dias sucessivos de apresentação da temporada, cujo programa inclui dois balés com duração de mais de 40 minutos cada, Vitória Lopes, 24, que integra o Grupo Corpo há um ano e meio, diz que a preparação corporal precisa ser intensa. “E o preparo mental também”, complementa, argumentando que corpo e mente devem estar alinhados para que tudo transcorra bem. Ela ainda contextualiza que, antes da série de apresentações em BH, o grupo realizou uma maratona de apresentações em São Paulo.

Vitória Lopes, bailarina do Grupo Corpo
Com 24 anos, Vitória Lopes é mais jovem que os balés que vai interpretar na temporada anual do Grupo Corpo em BH | Crédito: Flávio Tavares/O Tempo

“Foi intenso. Uma sequência tão longa, de três semanas em cartaz, não é muito comum. Então, no início, a gente ficou pensando: ‘O que vai ser de nós?’. Mas, depois, notamos que foi mais tranquilo do que pensamos que seria”, relata, inteirando que, no percurso, ninguém se lesionou.

Organicidade

Mesmo sem nenhuma intercorrência, porém, em relação ao corpo de bailarinos que se apresentou na turnê em São Paulo, algumas substituições precisaram ser feitas para a temporada em BH. “Hoje, estamos trabalhando com esse novo elenco”, comenta Rafael Bittar, 33.

Veterano do grupo, onde está há 12 anos, o bailarino elogia a versatilidade dos colegas e a integração coletiva da companhia. “Como temos essa proposta de estar todo mundo em cena, sem ter essa coisa de primeiro bailarino, segundo bailarino, a gente aprende junto, de um jeito que todos sabem todos os papéis, o que faz que essas substituições aconteçam organicamente”, observa, sublinhando que, em termos de desafios técnicos, cada um dos balés possuí características muito próprias.

Rafael Bittar, bailarino do Grupo Corpo
O veterano Rafael Bittar (de preto) ensaiando com um novo bailarino do Grupo Corpo | Crédito: Flávio Tavares/O Tempo

“Por exemplo, O Corpo é uma das primeiras coreografias do Rodrigo (Pederneiras) que vai muito para o chão. É um formato que exige outro tipo de técnica, diferente de Benguelê, que é um pouco mais para cima”, considera. 

Mente e corpo

Alinhado ao que propõe Vitória, Davi Gabriel, 23, que integra a companhia há dois anos, também destaca a importância do preparo emocional antes das exibições. “Acho que, fisicamente, nós já estamos bem-preparados. Trabalhamos com isso, nós fazemos isso há muitos anos. Por isso, acho que o principal, antes de uma apresentação, é olhar para o emocional”, assinala. 

Não significa, contudo, que se possa relaxar em relação à preparação física, como explica Edésio Nunes, 30, com seis anos de Grupo Corpo. Ele relata que a rotina de atividades, a fim de dar conta das sequências de apresentações, incluem não apenas as seis horas de ensaios diários, realizados de segunda a sexta, na sede da instituição.

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“Cada um se prepara à sua maneira quando está fora daqui. Tem quem faz fisioterapia preventiva, tem gente que faz musculação e os que praticam natação – e ele, aliás, opta pelas três modalidades. “A gente se prepara como pode para poder chegar no palco e ter o fôlego”, aponta, ressaltando que, enquanto Corpo exige muito dos membros inferiores, enquanto Benguelê tem muitas trocas de figurino, exigindo muita movimentação também nos bastidores.

Edésio Nunes, bailarino do Grupo Corpo
Edésio Nunes está há seis anos no Grupo Corpo | Crédito: Flávio Tavares/O Tempo

Em relação à alimentação, as escolhas são muito particulares, mas, em geral, a preferência, na véspera da estreia de uma nova temporada, são pratos leves e proteicos – incluindo shakes. “Eles levam uma rotina de atleta, mas também de artista. Ou seja, são jovens, se divertem. Saem, vão para festas, comem bem, bebem. Felizmente, sempre, com muita responsabilidade”, resume uma ex-bailarina, que segue atuando no Grupo Corpo, durante uma conversa informal com a reportagem.

O peso de se apresentar em ‘casa’

Além do esforço físico e de toda exigência técnica, os bailarinos reconhecem que ainda precisam lidar com o peso da responsabilidade de se realizar a série de apresentações duplas em solo belo-horizontino. “Muita gente comenta que já acompanha o grupo desde antes de eu ser nascida. Tenho a sensação que algumas conhecem mais a coreografia que os próprios bailarinos”, brinca Vitória Lopes, acrescentado que, na mesma medida da responsabilidade, sente orgulho de ser parte do que ela classifica como um patrimônio mineiro. 

Sensação semelhante tem Rafael Bittar. “Para mim, as apresentações aqui (em BH) nunca são simples, sempre são um desafio. Eu que sou daqui, então tem esse aspecto de estar em casa, que é especial, mas o Grupo Corpo, embora tenha relevância nacional, é também fruto dessa cidade, onde tem um público cativo, que já conhece esses balés e é exigente”, opina.

A fidelidade do público já foi notada por outro veterano da casa, Edésio Nunes. Ele, que veio de Prata, no Triângulo Mineiro, conta já estar até mesmo familiarizado com algumas dos rostos que preenchem a plateia. “Têm pessoas que estão sempre prestigiando a gente, que esperam o fim do espetáculo para nos cumprimentar”, comenta.

Davi Gabriel, bailarino do Grupo Corpo
Davi Gabriel mudou-se para BH há dois anos para integrar o Grupo Corpo | Crédito: Flávio Tavares/O Tempo

E Davi, claro, também sente o peso das expectativas. “Ainda mais por não ser de BH”, ressalta ele, que é natural de Belém, no Pará. Ao mesmo tempo, ele admite que tem conseguido se aproveitar dessa proximidade com o público para se estabelecer na cidade para a qual se mudou há apenas dois anos. “Vim para dançar no Grupo Corpo e, para a minha sorte, o reconhecimento da companhia com os belo-horizontinos tem me ajudado a, cada vez mais, ampliar meu ciclo de amigos, a me sentir mais em casa”, destaca. 

SERVIÇO:
O quê. Grupo Corpo apresenta O Corpo e Benguelê
Quando. De quarta (11) a domingo (15). Quarta a sábado, às 20h; domingo, às 18h
Onde. Grande Teatro Cemig Palácio das Artes (avenida Afonso Pena, 1.537, centro)
Quanto. A partir de R$ 20 (meia entrada, Plateia Superior). Até R$ 220 (inteira, Plateia I - Central). Ingressos na bilheteria do teatro ou pela plataforma Eventim.