“A gente se encontra na rua”. A frase é comum na experiência dos foliões e folionas no Carnaval de Belo Horizonte. Afinal, com a folia começando cedo, marcar com amigos já na rua acaba sendo mais conveniente do que tentar reunir todo mundo em uma casa ou apartamento antes das cinco da matina. Ela ainda guarda a marca dos encontros inesperados, que acontecem durante a festa, quando, mesmo sem marcar, encontramos conhecidos, conterrâneos, parentes, ex-namorados ou ex-namoradas. Ou mesmo desconhecidos, que reconhecemos no olhar o convite para uma aproximação, para – quem sabe? – um amor de Carnaval.

“Se encontrar na rua” pode também representar a descoberta de uma sensação de pertencimento com a cidade, para muitos inédita e só possibilitada com uma inversão completa da lógica urbana, quando o ir e vir mecânico é substituído pelas caminhadas, e o corre-corre para dar conta da agenda de compromissos, sempre com a cabeça na próxima tarefa, no próximo destino, cede lugar ao deleite do que é efêmero, com foco no agora.

Esse conjunto de significados é, agora, celebrado pelo bloco Tchanzinho Zona Norte (TZN), presente no Carnaval belo-horizontino desde 2013, em “Me encontra na Rua”, a nova música autoral do coletivo, que, como outros grupos da cidade, vem se esmerando, ano a ano, na criação de temas originais, feitos especialmente para embalar a folia. Missão também encampada pelo tradicional concurso de marchinhas Mestre Jonas, que chega a sua 10ª edição após um hiato de quatro anos – inicialmente devido à pandemia da Covid-19, o evento não foi realizado entre 2021 e 2024.

O Tchanzinho Zona Norte durante cortejo no Carnaval de BH | Crédito: OX Vídeos

Desta vez, a iniciativa, que já revelou hits como “O Baile do Pó Royal”, em 2014, vai premiar as três melhores marchinhas com o Troféu Mestre Jonas e o título de Hit do Carnaval. Além disso, uma nova categoria foi criada: a Tira o Pé da Minha Serra, com foco na temática ambiental. Os candidatos podem inscrever suas composições até o dia 26 pela plataforma Sympla. A primeira seletiva do concurso está marcada para 8 de fevereiro, no Mercado Distrital do Cruzeiro, quando 20 composições vão ser selecionadas por uma comissão. Do total, 12 são marchinhas de tema livre, cinco da modalidade Hit do Carnaval e outras três da nova categoria.

A grande final ocorre no dia 14 de fevereiro, no mesmo endereço. Lá, as composições selecionadas no dia 8 serão apresentadas após receber arranjos criados pelo músico Thiago Delegado. As primeiras colocadas vão receber R$ 5.000, R$ 3.000 e R$ 2.000, respectivamente, enquanto os vencedores das outras duas modalidades vão levar R$ 3.000, cada.

Identidade musical

No caso do Tchanzinho Zona Norte (TNZ), a verdade é que o lançamento de novas músicas originais a cada folia já virou tradição. “A primeira que fizemos foi o nosso hino, Tchanzinho Vai Passar, uma composição de um dos nossos vocalistas, o Oliveira, que surgiu lá pelos idos de 2015, no nosso terceiro ou quarto cortejo”, relata Rodrigo Heringer, o Picolé, membro do bloco que atuou como co-produtor da nova faixa. Em seguida, ele constata: “Para nós, é uma questão importante para que o Carnaval de BH assuma uma identidade, musicalmente falando”.

Bloco TZN lança a inédita 'Me encontra na Rua', composição de Thanya Canela com produção de Junix 11 (BaianaSystem) e Rodrigo Picolé | Crédito: OX Vídeos

O produtor cultural e músico recorre à história do próprio TZN para examinar, com lupa, algumas características do desenvolvimento da folia na cidade a partir de toda movimentação inicial da retomada da festa na cidade. “Foi um movimento que veio com influências de Carnavais de outras cidades, que, claro, tinha nossas particularidades, incluindo as motivações dessa retomada, que era a ocupação dos espaços públicos em resposta ao decreto de 2009, da gestão Márcio Lacerda”, recorda, fazendo menção à medida que proibia a realização de eventos de qualquer natureza na praça da Estação, estopim para uma série de iniciativas contestatórias, que se revelaram seminais para o ressurgimento do Carnaval da cidade.

A questão, para ele, é que, se a manifestação Carnavalesca de BH tinha forte identidade em termos de forma, faltava ainda um desenvolvimento musical dessa cena. “Nesse sentido, o que tínhamos vinha muito de influências de fora”, avalia, ponderando não ver nada de errado nessa absorvição de repertórios. “Mas, para nós, passou a ser importante trabalhar com uma proposta mais autoral, buscando uma identificação com a bateria, com o ‘balezinho’, como chamamos nossa ala de dança, e com o público, que acompanha nossa trajetória desde o início, quando começamos, em 2013”, menciona.

Assinada por Thanya Canela, uma das vocalistas do bloco, a nova música passa seu recado em um groove com pegada eletrônica: “O Tchanzinho tá passando/ e eu tô te procurando/ É do avesso que eu te deixo/ nesse beijo que eu esqueço/ até meu endereço”. A faixa, que tem produção co-assinada por Junix 11, do BaianaSystem – grupo que já participou de outros intercâmbios Carnavalescos entre Salvador e BH –, será lançada no dia 7 de fevereiro nas principais plataformas de áudio do mercado. Mas, fica o registro: os mais ansiosos podem conferir a íntegra nos ensaios abertos do TZN. O próximo ocorre neste sábado (18), na casa de shows A Autêntica.

Então, Brilha! abre concurso musical

A preocupação com a criação de músicas originais é também um norte para o bloco Então, Brilha!, que, neste ano, realiza o concurso “Magia Tropical”, incentivando a renovação musical da folia da cidade. Até segunda-feira (20), músicos e compositores podem inscrever canções autorais e inéditas candidatas a integrar o repertório do bloco durante o Carnaval 2025. Além disso, o autor ou autora selecionado vai receber R$ 5.000 como premiação.

“As músicas devem ser inscritas pelo site (entãobrilha.com.br) ou na bio do nosso Instagram. Elas serão avaliadas por uma comissão julgadora formada por três pessoas, que estão sob sigilo”, explica Leandro César, compositor e membro da diretoria do Então, Brilha!.

Cortejo do bloco Então, Brilha! | Crédito: Leo Salvo/Divulgação

“As canções serão avaliadas pelos seguintes critérios: magia, melodia, poesia, harmonia, apelo popular, autenticidade e sintonia com o tema. De todas as músicas inscritas, vamos selecionar quatro canções que vão para a final”, continua, inteirando que os finalistas irão se apresentar – ou indicar intérpretes para representá-los – acompanhados da banda do bloco. “Teremos, então, uma comissão avaliadora mais ampla, formada por sete pessoas, que vai decidir a canção vencedora e divulgar o resultado final. A ganhadora vai receber o prêmio de R$ 5.000”, conclui.

César ressalta que a iniciativa não é inédita na história do grupo. “Em 2013, a gente fez a primeira edição do concurso. O Carnaval ainda estava no momento inicial, mas foi uma experiência muito legal. Lembro bem, foi no extinto mercado das borboletas, onde atualmente é o mercado novo. A música vencedora se chama ‘Me acabar de amor’ e é uma música que a gente curte muito que integra ainda hoje o repertório do bloco”, ressalta. 

Bloco vocacionado para o autoral

Desde essa exitosa experiência inicial, o Então, Brilha! tinha o desejo de fazer novamente o concurso, mas, por diversos motivos, outras prioridades se impuseram. O que não significa que a produção de novas faixas autorais tenha saído do radar: “De lá para cá a gente trouxe muitas músicas novas autorais. Ano passado o tema do cortejo foi ‘Você tem sede de que?’ e apresentamos uma música, inclusive de minha autoria, com o Glauco Dias e o Pedro Surubim, que tinha tudo a ver com o tema do cortejo. Mas, mesmo assim, retomar o concurso continuava sendo um desejo nosso para que pudéssemos produzir um repertório novo para o Bloco e para a cidade também”, cita Leandro César.

Essa preocupação com a criação musical tem sua razão de ser, e está umbilicalmente ligada à identidade do bloco. “Somos músicos, musicistas, cantores, cantores, instrumentistas, todos com trabalhos autorais, desde antes da formação do bloco, e temos uma preocupação muito grande com a renovação do repertório”, avalia o produtor, lembrando que o hino do Então, Brilha! foi criado já em 2012. “Isso já era uma preocupação, um desejo de construir um repertório original e autêntico para o bloco e para o Carnaval da nossa cidade”, recorda.

Perguntado se, na leitura dele, o Carnaval de BH se encaminha para acolher mais músicas originais mescladas com um repertório de hits, César admite não ter condições de fazer essa previsão, mas, ao mesmo tempo, garante que esse é um desejo do Então, Brilha!. “Quando a gente olha para o que o Carnaval do Rio de Janeiro conseguiu construir, em relação a repertório e uma geração de símbolos e sentidos, não só para a sociedade, mas para o Brasil… E também Salvador e Recife, três polos carnavalescos muito potentes. Como coletivo, nós sabemos a importância que é a criação de repertório. Então, para isso, a gente vem tomando decisões e iniciativas”, situa.

Juventude Bronzeada já lançou disco e EP

Outro bloco a amplificar o coro em defesa da música autoral no Carnaval de BH é o Juventude Bronzeada, que tem um disco e um EP lançados, além de alguns singles e algumas regravações. 

“Somos um coletivo de artistas, compositores e entusiastas do Carnaval. Então, essa questão autoral sempre foi marcante na nossa trajetória. Sempre existiu um desejo de que o bloco servisse como uma plataforma para utilizar da projeção que ganhamos através do Carnaval, para potencializar a carreira desses compositores que fazem parte do bloco. E, além disso, sempre existiu um desejo de falar sobre temas locais, nosso Carnaval, nossas questões sociais, nossas lutas políticas, nossos amores e até nossas bebidas”, analisa Rodrigo Magalhães, membro do bloco, que, a título de ilustração, tem uma música sobre a “catuçaí”, uma bebida popular do Carnaval de BH.

Bloco Juventude Bronzeada durante cortejo no Carnaval de BH no ano passado | Crédito: Flávio Tavares/O Tempo

Ele reconhece, porém, que a absorção dessas composições pelo grande público ainda é um desafio. “Me parece que, no geral, as pessoas ainda não têm um costume de se abrir para as composições locais do Carnaval. Mas acredito que estamos no momento de que isso pode começar a mudar. A cena musical mineira vem ganhando um destaque crescente a nível nacional, com artistas contemporâneos como Djonga, FBC, Lamparina, entre outros”, examina.

‘Fenômeno de musicalização em massa’

Sobre essa capacidade do Carnaval impactar a cena musical da cidade, Rodrigo Magalhães, do Juventude Bronzeada, acredita que vivemos hoje em BH um fenômeno grandioso de musicalização em massa através da percussão. 

“Existe na nossa sociedade moderna um falso entendimento de que o fazer musical é algo exclusivo para os músicos. E isso não é verdade. O Carnaval tem mostrado isso. Hoje, milhares de amadores passaram a experimentar o fazer musical através do Carnaval. Para você ter uma ideia, só a juventude bronzeada tem cerca de 400 integrantes na bateria, todos amadores que se musicalizaram através desse trabalho realizado pelos blocos da cidade. Inclusive, existem pessoas que iniciaram sua trajetória percussiva nos blocos de Carnaval e, atualmente, são músicos profissionais. Isso é uma coisa muito bonita e uma das grandes vitórias do nosso Carnaval”, anima-se.

A opinião semelhante tem Leandro César, do Então, Brilha!. “Eu não tenho dúvidas que, passados 15 anos desse momento da criação do Brilha, e também desse reflorestamento Carnavalesco, que Belo Horizonte hoje é uma cidade mais musicalizada porque as baterias dos blocos viraram verdadeiros espaços da pedagogia musical. E aí tem uma amplitude muito grande de abordagens de métodos, mas o resultado é que as pessoas estão mais musicalizadas hoje e eu acho que dar às pessoas condições de terem mais vivência musical é algo que, de fato, inevitavelmente, vai ter um reflorestamento na dimensão criativa também”, reflete.