Após o reconhecimento em torno de “Um Defeito de Cor”, lançado em 2006 pela Editora Record e tido como um dos romances mais importantes da literatura brasileira, Ana Maria Gonçalves travou. Durante sete anos, lidando com pressões internas e externas, ela não conseguiu escrever mais nada. Uma espécie de libertação, conta a escritora mineira, veio com o entendimento de que literatura não é necessariamente um processo evolutivo e que seu maior livro talvez já tenha sido publicado.

Dramaturga e roteirista, Ana Maria também se dedicou ao teatro, publicou contos em Portugal, na Itália e nos Estados Unidos, onde morou e ministrou cursos e palestras sobre questões raciais. Agora, a autora deve começar a lançar uma nova safra de livros nos próximos meses, resultado do envolvimento com quatro, cinco obras ao mesmo tempo – o que pode parecer caótico para muitas pessoas, para Ana Maria é o que funciona.

“Esse foi o método que eu consegui, não é sempre que você acorda podendo acrescentar um outro bom parágrafo a um determinado trabalho, então entendi que para continuar produzindo está tudo bem fazer várias coisas ao mesmo tempo. Tenho várias coisas ficando prontas ao mesmo tempo e isso deve aparecer até o fim do ano”, conta. Ainda sem título, uma das novidades que sairão em breve é um relato pessoal sobre o envelhecimento e a menopausa.

Homenageada da 3ª edição do Festival Literário Internacional de Paracatu, que acontece até este domingo (31/8) na cidade do Noroeste mineiro, Ana Maria Gonçalves foi eleita para a Academia Brasileira de Letras (ABL) em julho. Ela é apenas a 13ª mulher – e a primera negra – a se juntar aos imortais da instituição, fundada em 1897 por um grupo de intelectuais, entre os quais está Machado de Assis, ele próprio um escritor negro. “A Academia tem que espelhar essa sociedade. Quero ser a primeira negra, mas não a única”, afirma.

Nascida em 1970 em Ibiá, cidade de pouco mais de 20 mil habitantes localizada na região do Alto Paranaíba, Ana Maria Gonçalves cresceu em uma casa humilde, mas cheia de literatura. Foi na infância que ela se apaixonou pelos livros, muito influenciada pela mãe, sua leitora ideal, a mais importante e fiel. “Confio muito nela”, comenta a escritora.

Foi também à infância que ela retornou em pensamento ao receber o título da Academia Brasileira de Letras. Quando pequena, ela via a mãe fazer as tarefas de casa sempre com um livro nas mãos e atravessar a noite costurando para dar conta das encomendas. Hoje, o barulho da máquina de costura que sai de seu celular é memória e música para entrelaçar palavras de novos livros.  

No dia 10 de julho, você foi eleita para a Academia Brasileira de Letras, mas essa é uma história que começa lá em Ibiá, na sua infância, quando você se apaixona pela literatura, pela palavra. Como esse reconhecimento te reconecta às suas origens, te leva a esse lugar da infância?

Tem uma frase do (músico) Itamar Assumpção em que ele fala que quando chegou aqui todos os seus discos já estavam dentro dele. Com certeza, todos os livros que escrevi e que vou escrever já estão dentro de mim desde a infância, nesse lugar da criança curiosa, imaginativa, cheia de possibilidade, e acreditando que pode fazer algo para mudar o mundo. Esse é o espírito que o escritor deve ter: a possibilidade de imaginar mundo não só para si, mas para a comunidade para a qual escrevemos. A eleição na ABL me faz lembrar dessa trajetória, de ainda ter uma mãe leitora, que desde a infância me estimulou muito a ler pelo exemplo. Não basta os pais falarem para os filhos se eles também não leem. Minha mãe é alguém que desde muito pequena eu via lendo, varrendo com uma mão e o livro na outra, mexendo na panela com uma mão e um livro na outra.

A literatura, como a música e as artes em geral, tem esse poder de inventar novos mundos e a infância é esse espaço da fantasia, as portas estão muito abertas para influências.

Sim, com certeza isso faz parte da criança. O Guillermo Arriaga, escritor e dramaturgo mexicano, fala que o artista é aquele que vai até o fundo de uma floresta, encontra uma pessoa que ninguém conhece, ouve uma história que nunca foi contada e volta para contá-la. Essa pessoa é a criança interior de cada um, a gente tem que ter contato com essa criança. Ela que guarda essas histórias. Então é preciso normalizar um ambiente cultural em casa. Na infância, comecei a ficar espantada porque na casa dos meus amiguinhos não se lia. Eu achava que leitura era algo próprio da infância. Estou falando de um lar muito simples, lembro de minha mãe varar a noite costurando para entregar encomendas. Hoje, o barulho da máquina de costura, que coloco no celular para ouvir, me remete a essa experiência da infância e da leitura.

No início do mês, você disse que deve vir aí uma leva de livros. Após ter de lidar com o sucesso de ‘Um Defeito de Cor’, você diz que entendeu que literatura não é necessariamente um processo de evolução e que isso te fez destravar. Em que medida isso foi libertador?

Fiquei uns sete anos sem conseguir produzir nada e foi libertador quando entendi que talvez já tenha escrito o meu maior livro. Isso me dá liberdade para eu produzir o que eu quiser – não estou dizendo que vou escrever qualquer coisa, sou muito rígida e fui treinada a ler pela minha mãe. Primeiro tenho de agradar a leitora que eu sou e à minha mãe. Ela é minha leitora ideal, confio muito nela. Então esse foi o método que eu consegui, não é sempre que você acorda podendo acrescentar um outro bom parágrafo a um determinado trabalho, então entendi que para continuar produzindo está tudo bem fazer várias coisas ao mesmo tempo. Às vezes você está trabalhando num determinado projeto e você entende que uma ideia pode servir para outro determinado projeto. Tenho várias coisas ficando prontas ao mesmo tempo e isso deve aparecer até o fim do ano.

Você é homenageada do 3º Fliparacatu – Festival Literário Internacional de Paracatu, que propõe uma reflexão sobre os rumos da humanidade e cujo tema é “Literatura, Encruzilhada e Desumanização”. Como o seu pensamento  e a sua literatura encontram esse tema?

Eu acho que mexe mais comigo através da encruzilhada. A professora Leda Maria Martins vem trabalhando a encruzilhada como lugar epistemológico não só para qualquer povo das américas, mas também para o povo africano da diáspora, por ser esse lugar de existência, que remete a ancestralidade não como antepassados, mas como manancial, fonte, lugar para sempre se volta quando não se sabe para onde se vai. E aí vem a encruzilhada como esse lugar de encontro, que me remete muito a Exu, todo esse processo de comunicação tem a ver com o que eu faço. Me interessa muito explorar e viver esse lugar da encruzilhada.

Como leitora voraz e sempre envolvida em muitas pesquisas e projetos, você ainda lê cinco livros por semana?

Sinto muita falta de ler, preciso ler todos os dias, tenho que dormir lendo para não ter insônia. Já não leio tanto como antes, mas leio, no mínimo, dois livros por semana. Faço muita pesquisa, não necessariamente leio ficção. Infelizmente, tenho lido cada vez menos ficção para poder me dedicar às pesquisas para poder escrever. Consigo manter a leitura de dois livros por semana – queria poder ler mais, mas tenho um monte de coisas no caminho, palestras. Eu trabalho para comprar meu tempo para poder ler e escrever.

Você é a primeira mulher negra a ser eleita para a Academia Brasileira de Letras em 128 anos. Isso é espantoso. Como pretende atuar na ABL?

Infelizmente, mulheres e pessoas negras que fazem literatura são confrontadas por esses números. Com ‘Um Defeito de Cor’, fui a oitava mulher negra a publicar um romance no Brasil. Temos um problema dentro da academia e outro fora, da área literária, que é muito elitista. É muito difícil publicar em grandes editoras. Você não entra nesses espaços se não conhece alguém lá dentro. Esse é um número que nós não devemos esquecer. Estou muito feliz de estar dentro da Academia Brasileira de Letras, é uma responsabilidade muito grande, estou encarando como uma missão. A Academia tem que ter mais mulheres, pessoas negras e indígenas. Precisa ter uma diversidade do povo que fala a língua da qual ela é representante, tem que espelhar essa sociedade. A Folha fez uma eleição recente dos melhores livros brasileiros de literatura do século 21 e dos 25 primeiros, 13 foram escritos por pessoas não brancas. Estamos produzindo mais da metade dos melhores livros contemporâneos, então a ABL tem de ser uma casa que representa a língua e o que ela produz em termos literários. Quero ser a primeira negra na Academia, mas não a única.