“Eu acho que eu já fiz muito, mas para mim ainda é muito pouco”. Aos 23 anos, o documentarista mineiro Ben Hur Nogueira já atravessou fronteiras que muitos cineastas levam décadas para alcançar, como ele mesmo avalia. Morador do Morro das Pedras, na região Oeste de Belo Horizonte, ele ganhou destaque com o curta-metragem “Pandeminas” (2020-2021), filmado dentro do próprio aglomerado.
A obra abriu portas importantes para o jovem cineasta: Internacionalmente, recebeu menção honrosa no Versity Film Expo, no Zimbábue, na Africa, e foi exibida no Duemila 30, na Itália, além de ter uma mostra especial no Long Island University (LIU), nos Estados Unidos. Em Minas Gerais, esteve na Mostra de Cinema Periferia, em Belo Horizonte, além de ter sido exibido em sessões em Contagem e Ouro Preto. O reconhecimento rendeu ao jovem o convite para mediar uma palestra sobre cinema negro brasileiro na Binghamton University, em Nova York, uma das maiores universidades públicas americanas. Os filmes do cineasta estão disponíveis na plataforma Instagram, na conta @benhurlk.
Nogueira explica que o curta “Pandemias” tem um narrador (ele) mostrando a rotina dos pais durante a pandemia da Covid-19, no Morro das Pedras. Na história, os pais do narrador são ativistas pelos direitos humanos e têm um projeto de erradicação da fome inspirado nos Panteras Negras norte-americanos. “O jovem documentarista narra esse cotidiano da periferia durante a pandemia”, conta ele. O filme teve como referência o curta brasileiro “A Voz e o Vazio: A Vez de Vassourinha” (1998), com direção de Carlos Adriano e presença dos documentaristas Carlos Reichenbach e Eduardo Coutinho.
Os filmes do jovem cineasta já têm identidade própria e uma espécie de assinatura. Entre as características das produções do diretor, a crítica destaca a câmera trêmula e cortes secos. “Câmera trêmula que, às vezes, é estacionária, com cortes abruptos, temas familiares como uma espécie de diáspora, de preconceito, e de empoderamento. E também o silêncio”, analisa Nogueira.
“Quero mostrar que homens negros podem aparecer no jornal sem serem retratados em páginas policiais”, resume Nogueira, que já prepara seu próximo lançamento, “Andanças”, o último da trilogia iniciada com “Pandeminas” e continuada com “Arrabalde Corsário” (2025). O segundo curta-metragem dirigido por Ben Hur Nogueira mostra a rotina do último dia do ano no Morro das Pedras e foi exibido em universidades como a de Chicago, nos Estados Unidos, em 2024.
No Morro das Pedras, Nogueira conta que é reconhecido como “o cara que faz cinema” e diz se sentir muito querido e acolhido. “Eu fico muito feliz de ser amado por pessoas da minha comunidade, de representar uma galera que é muito desmoralizada socialmente. Eu fico muito honrado”.
Entre a ficção científica e Guimarães Rosa
Antes de chegar ao cinema, Ben Hur Nogueira pensou em ser cientista. Fã declarado de “Star Trek” e Carl Sagan, cientista planetário, divulgador científico e ativista norte-americano, o jovem ingressou no curso de ciência da computação na Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), em 2020, logo após o ensino médio, e está com previsão de formatura para 2026. Paralelamente, a literatura nunca deixou de ser parte da sua formação. O contista, romancista, médico e diplomata mineiro Guimarães Rosa (1908-1967) é uma das grandes inspirações do cineasta: “Eu acho que sou entusiasta de Guimarães Rosa. ‘A Hora e Vez de Augusto Matraga’ é meu conto favorito”, declarou. James Baldwin (1924-1987), romancista, ensaísta, dramaturgo, poeta e crítico social estadunidense, também é uma das grandes influências na escrita e visão de mundo de Ben Hur Nogueira.
A paixão pelos livros se mistura às referências musicais e cinematográficas: do escritor Jorge Amado, passando pelo rapper e poeta Tupac Shakur, até o filme hollywoodiano “Ben-Hur" (1959), que inspirou seu nome. Filho de uma ativista e de um ator de rua, Nogueira cresceu cercado de referências artísticas e políticas. Ele diz que gosta muito do próprio nome e admira o ator Charlton Heston não só pelo papel de Judah Ben-Hur, mas pelo engajamento do astro no movimento dos direitos civis ao lado de Martin Luther King e Marlon Brando. Mais tarde, porém, Heston mudou de lado e virou conservador.
Nogueira relembra que começou a filmar em 2020, aos 18 anos, de forma quase natural. Já tinha contato com a câmera e experiência em edição, devido às oportunidades que teve em oficinas promovidas no ensino médio, na Escola Estadual Olegário Maciel, no Centro de BH.
“Rolava uma montagem na escola e, normalmente, eu era o responsável pela edição. Eu tinha estudado muito edição nessa época e meio que já trazia esse instinto de documentarista, muito inspirado pelo neorrealismo italiano. Esse estilo tem a característica de usar uma câmera mais solta, a famosa handheld camera, segurada na mão”, lembrou o cineasta. “E eu sempre estudei muito por conta própria. Até hoje me considero alguém autodidata”.
Cinema e (a falta de) representatividade
Apesar do reconhecimento internacional, a caminhada nunca foi simples para Ben Hur Nogueira. “Muita gente já falou que eu não ia conseguir fazer o que faço. Às vezes, eu entrava em espaços do cinema brasileiro e era a única pessoa negra ali. É um incômodo que não está verbalizado, mas a gente sente no olhar”, relatou.
A fala do jovem cineasta encontra eco em uma chaga mundial, que no Brasil se faz presente no cotidiano de nossa população: o racismo estrutural. Trata-se de um sistema que se reproduz de forma consciente ou inconsciente, perpetuando desigualdades sociais e raciais, um “produto de uma estrutura sócio-histórica de produção e reprodução de riquezas”, como o professor Dennis de Oliveira discute o tema para além dos comportamentos preconceituosos no livro “Racismo Estrutural: Uma Perspectiva Histórico-Crítica” (2021). Nogueira reconhece essa barreira, mas afirma que encontrou na literatura uma ferramenta de enfrentamento: “Jorge Amado me ensina sobre resistência, e Tupac me ensinou a manter a cabeça erguida”.
Com apenas 23 anos, o cineasta já acumula feitos que o colocam no mapa internacional do cinema negro. Ainda assim, ele diz que não se sente satisfeito: “Eu acho que já fiz muito, mas para mim ainda é pouco. Quando digo que quero entrar para a história, é algo profundo. Sinto que mobilizei muita coisa e que represento uma geração do Brasil”.
E, em tom descontraído, Ben Hur Nogueira brinca com a herança familiar de nomes marcados por ídolos: se tivesse um filho hoje, ele se chamaria Tupac Nogueira.
O jovem revelou que, atualmente, a maior dificuldade enfrentada por ele é o acesso aos equipamentos necessários para gravar os filmes. Ele explica que tem um tripé, duas câmeras documentais, material de edição e que o maior desafio é montar uma equipe da forma como gostaria. Por isso, acaba fazendo muita coisa sozinho. “O orçamento é a peça-chave”, frisa.
Para o futuro, Ben Hur Nogueira planeja concluir o último filme da trilogia “Andanças”, previsto para este ano, e já pensa em novos projetos, embora mantenha sigilo sobre os títulos. “Quando eu me formar (em ciência da computação), em 2026, ainda não sei exatamente o que vou fazer da vida. Quero encontrar uma forma de me estabilizar financeiramente”, admitiu. Além do cinema, ele escreve um livro e sonha em viajar: deseja rever amigos na Espanha, Estados Unidos, Portugal e Inglaterra, explorar o Brasil e a América do Sul e, quem sabe, se aventurar por países da Ásia. “Tenho muito desejo de conhecer lugares que não são tão mainstream”, anseia.
Você sabia?
Entre os anos 1930 e 2000, pelo menos 1.879 brasileiros foram registrados com o nome de Ben Hur, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O nome teve picos de popularidade nas décadas de 1960 e 1990, inspirado no filme homônimo de 1959, estrelado por Charlton Heston.
*Estagiária sob supervisão de Fabiano Fonseca