Entre as obras que integram a mostra gratuita “Celebrar as ruas: 50 anos de Fiat e brasilidade na Casa Fiat de Cultura”, que segue em cartaz na Casa Fiat de Cultura, na região Centro-Sul de Belo Horizonte, até o dia 11 de outubro, há uma videoarte que mostra, pela primeira vez, uma cena que nunca chegou a existir de fato: um trecho de “Deserto Azul”, longa-metragem do videoartista mineiro Eder Santos, que ficou inacabado desde as filmagens, entre 2010 e 2013, e só foi concluído agora, justamente para entrar na exposição celebrativa.
A cena mostra o carro-conceito Fiat FCC II – usado no filme para reforçar a atmosfera futurista associada ao protagonista – em voo sobre a paisagem desértica. Na exposição, o vídeo é apresentado ao lado do próprio protótipo do carro. “Poder ver o protótipo na exposição ao lado da cena em que o carro aparece voando é uma experiência que mexe com o imaginário e provoca reflexões sobre o mundo contemporâneo”, descreve Ana Vilela, gestora cultural da Casa Fiat de Cultura, que credita o convite ao artista a um desejo de “contar com a presença do Eder Santos” pela “reflexão tão potente sobre o futuro” de sua produção – um dos temas explorados na mostra.
O trecho ficou de fora do corte final de “Deserto Azul” por conta de um impedimento técnico. Conforme Eder Santos, o carro foi filmado de um jeito que dificultava demais o trabalho de efeitos especiais – as rodas, por exemplo, não giravam, e fazê-las funcionar dentro da paisagem do deserto exigiria reconstruir digitalmente boa parte daquele universo, a um custo alto demais para a produção da época. A equipe alemã responsável pelos efeitos especiais do filme propôs uma troca: em vez do carro, ofereceu de graça uma cena de trovões, que acabou entrando na versão final. As imagens do FCC II ficaram guardadas, inacabadas, por mais de uma década.
O convite para retomar o material veio da própria Fiat, durante as comemorações dos 50 anos da marca no Brasil – parceira antiga do artista em filmes e exposições anteriores. “Quando surgiu o convite, a gente reviu todo aquele material e percebeu que hoje, com o uso da inteligência artificial, era possível fazer muita coisa que em 2013 seria complexa e cara demais”, conta Santos, que acompanhou de perto o processo. “Conseguimos finalmente reconstruir as cenas, integrar o carro às paisagens e dar movimento a ele. Talvez não seja tudo absolutamente verossímil, mas acho que o resultado ficou muito interessante”, reflete. Ver a cena pronta, prossegue ele, reacendeu a vontade de revisitar o próprio filme: “Ela tem um peso importante na dramaturgia e fortalece principalmente a relação do personagem com o robô. Hoje, revendo o filme, sinto que essa cena pode acrescentar uma nova camada à história”.
Filme segue inédito no circuito comercial de cinema
Curiosamente, “Deserto Azul” nunca chegou, de fato, a circular pelos cinemas comerciais. Perguntado sobre os motivos, Eder Santos informa que os direitos de exibição do filme pertencem ao Sesc, um dos patrocinadores da obra, o que tiraria do próprio realizador a autonomia para negociar exibições ou vendas em circuitos comerciais sem autorização da entidade. “A gente está tentando rever o contrato com o Sesc para conseguir relançar 'Deserto Azul'”, diz Santos em entrevista.
Procurado pela reportagem, o Sesc confirma a informação e detalha os termos do acordo: um contrato de licenciamento firmado com a produtora em 2014 garantiu à instituição uma janela de dois anos de exclusividade para a circulação em festivais e para a exploração comercial em salas de cinema, mais dois anos de exibição exclusiva pelo SescTV — prazos, portanto, encerrados há quase uma década —, além de um direito de exibição do filme pelo período máximo previsto em lei. O Sesc afirma ter obtido os direitos com o objetivo de exibir a obra na TV, e que a circulação por festivais e salas comerciais partiu de um interesse da própria produtora. A instituição diz não ver problema em liberar os direitos de exibição, caso seja do interesse da produtora e do artista, mas não há, atualmente, previsão de relançamento ou de nova exibição por parte do Sesc, tampouco prazo para essa decisão.
O filme, aliás, é parte de um projeto maior: a trilogia RGB, nome que remete ao sistema aditivo de cores vermelho, verde e azul e que reúne três longas do diretor, cada um associado a uma dessas cores. A ordem de produção, porém, inverte a lógica do próprio nome. “Deserto Azul” – o B que fecha a sigla – foi o primeiro dos três a ser rodado majoritariamente em espaços abertos e amplos, como o próprio deserto do Atacama e os arredores de Brasília. Já “Girassol Vermelho”, que corresponde ao R, a primeira letra de RGB, chegou ao público depois – foi a segunda obra da trilogia a ser lançada, e inverte por completo essa lógica espacial: é rodado inteiramente em ambiente fechado e soturno, dentro de uma fábrica, com todas as cenas filmadas à noite; outro contraponto é a opção pela artesania ante ao uso de efeitos visuais digitais de “Deserto Azul”. Agora, Eder Santos começa a escrever o roteiro do terceiro capítulo – o “filme do meio”, que vai corresponder ao verde e fechar o projeto.
Frescor
Lançado em 2014 – em festivais e mostras de cinema – e rodado em Brasília e no deserto do Atacama, no Chile, “Deserto Azul” reúne no elenco nomes como Odilon Esteves, Ângelo Antônio, Chico Diaz e Maria Luísa Mendonça, além de contar com a colaboração de artistas plásticos como Adriana Varejão – parte das filmagens na capital federal aconteceu dentro do CCBB Brasília, integrando obras expostas no centro cultural às próprias cenas do longa. Esse trânsito com as artes visuais, diga-se, se soma a outras escolhas estilísticas do filme, como a maneira como o filme explora as formas arquitetônicas da cidade, cujo concreto arredondado ganha, na tela, um quê alienígena. Para a produtora Mônica Cerqueira, é justamente essa camada que torna “Deserto Azul” especialmente inquietante: trazer para o cinema a linguagem da videoarte.
E, de fato, mesmo com mais de 10 anos de produção, o longa ainda soa com frescor por investir em um segmento pouco explorado no cinema brasileiro, a ficção científica, com efeitos visuais que envelheceram bem e não soam artificiais. A narrativa é elíptica, com situações que se repetem ciclicamente, enquanto o protagonista, em um cotidiano disperso e enfadonho, tenta se colocar em situações que levem à transcendência – que, para ele, pode vir por diferentes caminhos, inclusive pela frustração ou pela apreensão. O filme recorre ainda recorre a outras escolhas pouco comuns, caso da proporção da tela que se estreita nas cenas do cotidiano e se expande ao máximo nas sequências do deserto – uma dilatação que soa como indício de que o protagonista, em algum momento, alcançou aquilo que buscava.
O longa do artista – que possui obras nos acervos do MoMA, em Nova York, e do Centre Georges Pompidou, em Paris – passou por festivais como o Festival do Rio, a Mostra de Cinema de São Paulo, o Havana Film Festival e o Fantaspoa. À época, parte da imprensa especializada aproximou o filme do universo fantástico do cineasta chileno Alejandro Jodorowsky, nome por trás de títulos como “El Topo” (1970), “A Montanha Sagrada” (1973) e “Poesia Sem Fim” (2016); outra parte comparou a narrativa fragmentada e o desfecho metalinguístico ao pernambucano “O Som ao Redor” (2012), de Kleber Mendonça Filho – embora esteticamente muito diferentes, ambos os filmes representam marcos de inventividade, excelência técnica e forte identidade regional no cinema brasileiro contemporâneo.
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