Turismo

Corpus Christi em Ouro Preto: mini roteiro da arte sacra para além das igrejas

Com tapetes de serragem como uma atração à parte, museus são opção para conhecer mais manifestações artísticas e culturais influenciadas pela fé

Por Alex Bessas
Publicado em 07 de junho de 2023 | 15:56
 
 
 

Feriado em que é celebrado o Corpo de Cristo, simbolizado no catolicismo pela hóstia sagrada, o Corpus Christi é uma data comemorativa celebrada em várias cidades brasileiras e marcada pelos impressionantes tapetes de serragem que adornam as ruas. Na tradição católica, esses tapetes remetem à acolhida de Jesus em Jerusalém, quando as pessoas cobriram as ruas com ramos e mantos para a passagem do Messias. 

Em Ouro Preto, cidade histórica localizada na região Central de Minas Gerais, essa tradição cultural e religiosa ganha destaque, atraindo turistas de todos os cantos, sejam eles católicos ou apenas entusiastas das artes influenciadas pela fé. Na cidade, como em outras tantas, os tapetes são geralmente feitos de serragem e sal colorido, mas alguns fiéis também utilizam materiais diversos, como borra de café, areia e flores para produzir os desenhos, feitos no chão e preenchidos com esses materiais, criando verdadeiras obras de arte efêmeras – os tapetes são confeccionados durante a madrugada para que estejam prontos a tempo das procissões com o Santíssimo Sacramento, portanto, um trabalho coletivo que fica menos de 24 horas “em exibição”.

Mas, para além dos tapetes de serragem, quem visita Ouro Preto durante o Corpus Christi tem a oportunidade de explorar as tradições ligadas à arte sacra, que vão para muito além do que se vê nas igrejas, por meio de passeios em lojas, ateliês, galerias e museus da cidade. 

Oratórios. Nesse sentido, um dos destaques é o Museu do Oratório, dedicado aos trabalhos de artesãos, a maioria deles desconhecidos, que esculpiram e entalharam nichos, pequenos armários ou até simulacros de capelas que eram usados em casa ou à tira colo como amuletos de sorte e local destinado às preces. Tais itens têm origem nos primórdios da Idade Média. No Brasil, eles chegaram pelas mãos dos colonizadores portugueses e se espalharam pelas fazendas, senzalas e residências, tornando-se elementos do cotidiano à medida que foram incorporando características culturais locais em um processo de sincretização. 

Imagens sacras no interior de um oratório em exibição no Museu do Oratório, em Ouro Preto

Fundado em 1998, no Adro da Igreja do Carmo, o museu possui um acervo de aproximadamente 120 oratórios e 300 imagens sacras – todas as peças foram doadas ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) pela empresária e colecionadora Ângela Gutierrez, presidente do Instituto Cultural Flávio Gutierrez (ICFG), responsável pelo museu. Ela lembra que os itens são genuinamente brasileiras e originárias principalmente de Minas Gerais, embora existam no acervo também exemplares de outros Estados, como da Bahia. A obra mais antiga em exposição foi produzida no século XVII, no Ceará, enquanto as mais recentes datam meados do século passado. 

Ângela explica que existem diferentes tipos de oratórios, que, em conjunto, revelam informações valiosas sobre costumes da época em que foram produzidas. “Alguns deles trazem características da arte feita em conventos, outros eram usados como amuletos de proteção, ficando nos quartos de donzelas – estes, geralmente, possuíam apenas imagens de santas mulheres – ou sendo levados por tropeiros em viagens”, lista, mencionando que, entre estes últimos, estão alguns feitos de maneira que, fechados, remetem ao formato de projéteis – daí o nome “oratório bala”. Detalhe: há, por lá, peças em exposição que foram confeccionadas diretamente nos estojos das capsulas.

A colecionadora pontua que, como forma de proteção, algumas da imagens menores chegavam a ser costuradas nas roupas e penduradas nos pescoços dos devotos, sendo carregados junto ao corpo dos devotos. Ela cita que, no museu, há também ornamentos maiores, como os oratórios de uso sacerdotal. O do tipo esmoler possui, inclusive, uma gaveta para receber donativos – e era usado tanto por padres como por pedintes. Entre os de uso doméstico há desde os mais simples, usados por famílias pobres, até aqueles mais imponentes e cheios de adornos – caso dos oratórios ermitas, geralmente usados em fazendas que estavam distantes das igrejas, servindo de capela improvisada para que sacerdotes que tivessem passando pela região pudessem celebrar missas, casamentos e batizados.

Embora a maioria desses retábulos de uso particular sejam de artesãos desconhecidos Ângela menciona que, no terceiro andar do museu, há oratórios dotados de elementos artísticos eruditos e cuja autoria é atribuída a grandes mestres. Caso de peças que foram provavelmente elaboradas por Francisco Xavier das Conchas (1739-1814), conhecido por Xavier das Conchas, que nasceu no Rio de Janeiro e se tornou um dos mais importantes nomes da arte barroca brasileira. Já a imagem de um São José de Botas, posta no interior desses itens, é atribuída a Antônio Francisco Lisboa (1738-1814), mais conhecido como Aleijadinho e considerado o maior representante do barroco mineiro, enquanto a escultura de uma Nossa Senhora do Rosário é atribuída a Francisco Vieira Servas (1720-1811), um escultor e entalhador português que passou parte da vida no Brasil, se tornando um dos principais representantes da talha barroca em Minas.

O barroco no mundo. Outra opção fascinante para os amantes da arte sacra é o Museu Boulieu – Caminhos da Fé, onde a arte barroca é apresentada em sua expressão global e única, uma vez que o acervo – parte da coleção do casal Maria Helena e Jacques Boulieu  – reúne peças, sobretudo pinturas, de diferentes partes do mundo, onde a cultura ibérica, levada pelos navegadores e colonizadores portugueses e espanhóis, deixou sua marca.

Imagem de Sant’Ana Mestra em exposição no Museu Boulieu, em Ouro Preto. Peça foi feita no século XVIII, em Minas Gerais

Nathália Resende, coordenadora do setor educativo, lembra que os territórios explorados pelos colonizadores já abrigavam grande diversidade de culturas, com organizações sociais, costumes e visões de mundo próprios. “O movimento barroco, então, encontrou essas culturas e se mesclou a elas, tanto na religiosidade quanto nas manifestações estéticas resultantes do projeto de dominação dos povos nativos pelos colonizadores. Esse encontro, muitas vezes conflituoso, gerou expressões artísticas, além de efeitos sociais e econômicos”, situa.

O Museu Boulieu ocupa as instalações do antigo Asilo São Vicente de Paulo, situado ao lado do Paço da Misericórdia, onde a antiga Santa Casa de Misericórdia de Ouro Preto estava localizada. O prédio, com sua arquitetura eclética e espaços internos característicos da arquitetura sanitarista do início do século XX, faz parte do Conjunto Urbanístico tombado pelo Iphan em 1938.

A exposição começa com uma seção dedicada à América Latina, apresentando uma pintura andina de Carlos II, criança, defendendo a Eucaristia. A obra é acompanhada por pinturas e esculturas asiáticas, vindas de países como Filipinas, Índia e Sri Lanka. A prataria sacra também faz parte dessa seção, evocando a tradição das procissões. Outro destaque do acervo é a prataria latina, que dialoga com a produção cultural dos povos indígenas. Essa conjunção de estilos, formas, crenças e princípios resulta em obras únicas e representativas da diversidade cultural da região. Além disso, artefatos como tupus, keros, artefatos karajás e cerâmicas das sociedades originárias pré-colombianas, que desenvolveram tecnologias e símbolos presentes até os dias atuais.

Como se pode observar, um dos pontos fortes do Museu de Boulieu é a conexão entre as peças de diferentes regiões. Pinturas andinas, por exemplo, estabelecem um diálogo visual com esculturas da América Central, evidenciando as influências culturais e artísticas compartilhadas entre essas áreas geográficas. Peças genuinamente brasileiras também ficam em exposição, com destaque para os estados do Maranhão, Pernambuco, Bahia e, especialmente, Minas Gerais. Nesses locais, foram criadas obras marcantes por artífices e mestres.

Por meio do passeio no museu, é sensível como esse intercâmbio cultural traçou caminhos diversos, desde as Índias Orientais até as Ocidentais, passando por lugares como Calcutá, Bombaim, Goa, México dos astecas, Cusco dos incas, Macau, Japão e as terras brasileiras do Atlântico Sul. Nas obras de marfim e prata, madeira e pedra, terracota e couro vistas no Museu Boulieu, encontramos a narrativa histórica iniciada no período das Grandes Navegações.

Um respiro na paisagem. Uma opção diferente para o visitante que quiser buscar outro tipo de produção artística é a exposição temporária “A ferro e fogo – Arte naïf”, que inaugura o projeto Arte nas Estações, que tem como objetio trazer diferentes narrativas, novas visões de mundo e destacar produções relevantes de artistas pouco conhecidos.

Pinturas em exibição na exposição temporária “A ferro e fogo – Arte naïf”, que inaugura o projeto Arte nas Estações em Ouro Preto

A mostra, que segue em cartaz até o dia 25 deste mês, apresenta uma coleção de telas elaboradas por pintores amadores, que não possuem grande apego ou rigor técnico e investem na representação de diversas temáticas, retratando desde cenas do cotidiano até grandes momentos dos esportes nacionais e tecendo, ainda, críticas a questões como o desmatamento e os conflitos no campo. Curiosamente, embora não se trate de arte sacra, em boa parte das telas a menções à religiosidade, como por meio de inscrições com frases como “Jesus é vida”.

“A ferro e fogo – Arte naïf” apresenta um pequeno recorte do vasto acervo pertencente ao colecionador Lucien Finkelstein, um joalheiro francês radicado no Rio de Janeiro. A sede da instituição que mantinha essa coleção de cerca de 6.000 itens em exposição, que funcionava na capital fluminense, fechou suas portas em 2016.

Assim como o Museu do Oratório e o Museu Boulieu, o projeto Arte nas Estações tem patrocínio do Instituto Cultural Vale por meio da Lei Rouanet de Incentivo à Cultura.

SERVIÇO:

O que. Museu do Oratório
Onde. Adro da Igreja do Carmo, 28, Centro Histórico de Ouro Preto
Quando. De quarta a segunda-feira, das 9h30 às 17h30. 
Quanto. A partir de R$ 2,50 (meia entrada). Entrada franca para estudantes e professores

O que. Museu Boulieu – Caminhos da Fé
Onde. Antigo Asilo São Vicente de Paulo (r. Padre Rolim, 412, Centro Histórico de Ouro Preto)
Quando. Nas quartas-feiras, das 13h às 21h; entre quinta e segunda-feira, das 10h às 18h.
Quanto. A partir de R$ 5 (meia entrada). Crianças até 11 anos não pagam. Entrada franca às quartas-feiras.

O que. Exposição “A ferro e fogo – Arte naïf”
Onde. Paço da Misericórdia, antiga Santa Casa (r. Padre Rolim, 344, Centro Histórico de Ouro Preto)
Quando. Até 25 de junho. De quinta a domingo, das 9h às 17h
Quanto. Entrada gratuita.

*A reportagem viajou a Ouro Preto a convite do Instituto Cultural Vale

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